Capítulo 3
Grub ouviu a palavra “lixívia” e se encolheu.
Recuou do tratador e da escova, as orelhas coladas à cabeça, e então se deixou conduzir até as baias sem oferecer resistência. Preferia ser trancado no escuro a ser esfregado até ficar em carne viva diante de todo o pátio.
Quase ri.
— Ponham-no no estábulo baixo, lá no fundo — eu disse, bocejando. — Estou cansada. Não vou aguentar ele zurrando embaixo da minha janela a noite inteira.
Fui para os meus aposentos e fechei a porta atrás de mim. Só Wren ficou.
Ela estava ali, torcendo as mãos. — Minha senhora. Os carroceiros do lixo, essa parte está feita, foi fácil o bastante. Mas é o unicórnio. O presente que Lady Elowen abençoou com as próprias mãos. Se a senhora puser um animal sagrado para puxar carroça de estrume, toda a corte vai se voltar contra a senhora.
— A corte inteira vai ouvir que a magia dele estraga a minha, e que eu não tive escolha a não ser mandá-lo para um trabalho honesto, longe de mim. — Sorri. — Eu não levantei a mão para ele uma única vez. Vão me culpar do quê?
Ela ainda parecia enjoada com aquilo. Estendi a mão e ergui o queixo dela.
— Não se aflija com o que você não precisa saber. — Depois, mais baixo: — Ele não pode mais beber de mim, Wren. Eu cuidei disso. Que ele se encoste em mim o quanto quiser — o puxão chega até mim e não encontra nada aqui.
Os olhos dela se arregalaram. — Mas sua luz, minha senhora. O desvanecer…
— Um truque. Um encanto, nada mais. — Dei um tapinha na mão dela. — Que todos eles me vejam definhar. Quanto mais acreditarem nisso, mais segura eu fico — e mais descuidados eles se tornam.
Eu sabia exatamente o que vinha para cima de mim desta vez. Não tinha a menor intenção de ficar parada e deixar aquilo me matar duas vezes.
Na manhã seguinte, mandaram primeiro um curandeiro até mim. Ele segurou meu pulso por um bom tempo, franzindo a testa, virando minha mão na dele. Depois foi embora sem dizer uma palavra. Não encontrara nada de errado. Não havia nada a encontrar.
Theron veio depois dele.
Entrou depressa, os olhos já me varrendo, da cabeça aos pés, caçando a prova.
Então eu a entreguei a ele. Levei a mão ao cabelo e deixei aparecer uma mecha, opaca e acinzentada onde o brilho tinha se apagado, e deixei minha voz ficar fina.
— Você acha que eu não sofro com isso? Olhe o que já tirou de mim. — Deixei os dedos tremerem sobre o cinza. — Mas a magia dele azeda a minha no instante em que chega perto. Eu não posso manter a coisa ao meu lado. O que você quer que eu faça?
O cinza fez o serviço. Os ombros dele baixaram. Seja lá para o que ele tivesse se preparado ao entrar, aquilo era o que queria ver — eu desvanecendo, o presente fazendo seu trabalho em silêncio.
Então o rosto dele mudou, e o calor se apagou.
— Azeda a sua magia. — Ele disse, seco. — A melhor amazona da corte, desfeita por ficar perto de um animal. Ninguém vai acreditar nisso. Eu não acredito.
Meu pulso disparou. Ele não engolira uma palavra.
— Você nunca foi fraca um dia sequer na sua vida, Aurelia. — Ele voltou a sorrir, gentil, e a gentileza era a pior parte. — Então você vai montá-lo. Na procissão de amanhã. A corte inteira vai estar lá para assistir, e eles vão ver como a primeira-dama deles preza um presente sagrado — e como a pobre Elowen é agradecida pela bondade dela.
