Capítulo 1

Biip! Biip! Biip!

Era aquele barulho irritante tocando sem parar no meu ouvido. Que som era aquele? Alguém podia desligar, por favor? Eu estava cansada demais pra abrir os olhos, então fiz o que eu sabia fazer de melhor: voltei a dormir.

Dormir sempre foi a minha cura pra tudo. Quando eu fico estressada, eu tiro um cochilo; quando tenho uma decisão enorme pra tomar e não consigo escolher a melhor opção, eu “durmo em cima” do assunto. Quando estou passando por um coração partido, eu tiro outro cochilo e ainda acrescento comer no pacote.

Um coração partido. Por que isso apareceu na minha cabeça? Eu não queria pensar nisso, então forcei minha mente a se concentrar no silêncio e na escuridão. Silêncio, aliás, não existia, a menos que aquela coisa fazendo aquele barulho resolvesse parar logo. Sério, que inferno era aquilo?

Virei de lado pra ficar numa posição mais confortável pra dormir. Sempre achei mais fácil dormir de lado do que de barriga pra cima. Ahn! Esse era o truque. Não sei o que aconteceu, mas o bip parou. Finalmente um pouco de paz e silêncio.

Pelo visto era só disso que eu precisava, porque acordei 3 horas depois, me sentindo mais disposta. Abri os olhos com cuidado e examinei o lugar. O quarto parecia muito familiar, como aquele em que eu tinha ficado depois do acidente. Era bem possível que fosse o mesmo quarto.

Vi a máquina perto da cama, provavelmente a culpada pelo barulho de antes. Agora ela estava ali, imponente, mas em silêncio. Aquela máquina significava só uma coisa: eu estava num hospital. De novo. Sério, o que tinha acontecido desta vez? Levei a mão direita até a nuca pra coçar, mas senti o pulso dolorido e sensível.

Olhando mais de perto, vi um acesso de soro, usado pra colocar líquidos no meu corpo pelo pulso. Seguindo o caminho do cateter, ele estava ligado a um equipo que ia até um frasco de soro fisiológico. Se eles tiveram que me colocar soro na veia, as coisas deviam ter sido bem sérias.

Apertei o botão de levantar a cabeceira da cama, o que me permitiu sentar. A pergunta mais importante era: por que eu estava num hospital? Eu me lembrava de ter ido à festa de lançamento com a Zuri e o John. Lembrava que fiquei chateada ao descobrir que a festa ia ser no Hotel Royale, que era o hotel do Marcus.

Lembrava de dançar, de beber muito e de ir ao banheiro. Lembrava de todos os discursos até o último. Lembrava de ter visto o Marcus pela primeira vez em quase três anos. E lembrava principalmente de como ele estava lindo de terno.

“Merda! Zawadi, você precisa se concentrar!”

O que mais tinha acontecido? Lembrei dele falando, confiante como sempre, com aquele tom de voz grave que me dava vontade de pular em cima dele. Lembrei dele chamando uma mulher ao palco. Uma careta começou a se formar no meu rosto conforme mais detalhes daquela noite voltavam à minha cabeça.

Lembrei de ficar tentando lembrar de onde eu já tinha visto ela, porque ela parecia muito familiar. Lembrei do anúncio dele. Meu Deus! Ele disse que eles estavam esperando um bebê e, pra piorar ainda mais, estavam noivos. A partir daí, não consegui lembrar de mais nada.

Por favor, não me diga que eu apaguei de bebida, eu nem tinha bebido tanto assim. Isso seria muito vergonhoso. Talvez não fosse tão ruim assim, né? O que podia ser pior do que apagar? Desmaiar. E se eu tivesse desmaiado? Na frente de toda aquela gente. Senti uma onda de vergonha crescer dentro de mim. Meu Deus! Eu desmaiei, não foi?

Logo lá, de todos os lugares possíveis. Eu podia ter desmaiado em qualquer outro lugar desse mundo, mas não, tinha que ser lá. Deus! Que humilhação. E agora, o que eu ia fazer? Eu não tinha como encarar aquelas pessoas de novo depois de me humilhar daquele jeito. Eu queria que a terra abrisse e me engolisse inteira, porque aquilo era demais pra mim.

Era com certeza demais pra uma pessoa só aguentar. Por que eu não podia ter um respiro? Só desta vez. Por que o universo não podia, só uma vez, me deixar ter um descanso? Eu era uma pessoa ruim? Era isso? Era por isso que eu estava sendo castigada? Parecia muito um castigo.

Meus ancestrais tinham um provérbio na nossa língua nativa que falava sobre equilíbrio. Que quando você deseja coisas ruins pra outra pessoa, o universo devolve o que você desejou pra você, duas vezes pior. Equilíbrio entre luz e escuridão, bem e mal, vivos e mortos.

Ancestrais, eu fiz alguma coisa errada? Deve ter algo de errado se tudo que eu faço desaba em cima de mim.

Eu me lembro do rosto dele quando chamou ela ao palco. O amor, a devoção e a admiração no rosto dele eram avassaladores. Eu nunca tinha visto a cara dele daquele jeito antes. O jeito que o rosto dele se iluminou quando a viu e como o sorriso foi ficando maior à medida que ela se aproximava.

Ele estava apaixonado por ela e queria que o mundo inteiro visse isso, inclusive eu. Minha cabeça não conseguia entender o que tinha acontecido. Ele tem capacidade de amar alguém profundamente, só não a mim. Eu, por outro lado, como a idiota que era, dei tudo de mim pra ele, esperando e rezando para que um dia ele sentisse o mesmo por mim.

Que uma pequena faísca de amor acendesse naquele coração frio e negro e que o coração dele queimasse de desejo, devoção e amor por mim. Aparentemente, o problema era eu. Eu era o problema o tempo todo. Eu não merecia o amor dele porque, aos olhos dele, eu não era digna. Eu nunca fui digna. Todo o meu esforço não foi suficiente.

E como eu poderia ser? Eu não vim de família rica, nem era CEO de uma grande empresa. Eu não ganho muito dinheiro. Eu não tenho casa própria. Eu não tenho carro. E, principalmente, eu não era a pessoa mais atraente, então o que diabos eu estava pensando?

Que o gosto dele ia mudar? Que ele ia me amar pela minha personalidade? Besteira! Tudo besteira. Eu criei tudo isso na minha cabeça. Eu queria tanto que ele me amasse que comecei a interpretar as atitudes dele como amor. Agora eu vejo o que elas eram de verdade. Pena. Ele tinha pena de mim.

Cada coisinha que ele fazia era por pena. Ele precisava de alguém pra esquentar a cama e, infelizmente, eu estava ali. Dando a ele tudo o que eu tinha pra oferecer. Naquele ponto, se ele tivesse pedido a minha alma, eu teria entregado de bom grado.

Eu me lembrei das palavras do Jake: “O Marcus só vai te tratar bem quando isso for vantajoso pra ele e, assim que ele enxergar um brinquedo novo e brilhante, vai te jogar de lado.” Eu era o brinquedo usado que foi jogado fora. E eu com certeza me sentia assim.

Eu devia ter escutado. Por que eu não escutei? Por que eu não juntei todas as pistas? Cada pista estava bem na minha frente. As pessoas me alertaram o tempo todo. O cara de Masai Mara tentou me avisar, mas meus ouvidos estavam tapados. Eu não estava pronta pra ouvir.

Agora eu estava pronta pra ouvir. O que aconteceu não pode ser mudado. Eu precisava seguir em frente com a minha vida e fechar esse capítulo de vez. Eu achava que tinha fechado, mas, na verdade, eu ainda me agarrava à esperança. Esperança de que ele fosse perceber o erro e voltar pra pedir desculpas.

Eu tinha certeza de que ele voltaria correndo pra mim, arrependido e cheio de remorso. Mas isso nunca aconteceu. Na verdade, aconteceu o oposto. Ele se apaixonou, engravidou o amor da vida dele e agora os dois estavam noivos.

Enquanto eu não tinha ninguém. Eu estava completamente sozinha de novo. E fui lembrada mais uma vez do motivo de eu ter me fechado pro amor. Não valia a pena. Alguns dias de felicidade seguidos de um coração despedaçado não eram pra mim.

Eu fiz um voto, a partir daquele dia, ali naquele quarto de hospital, de que nunca mais deixaria ninguém brincar comigo daquele jeito. Notei meu celular em cima da mesinha e peguei pra ver as horas. Eram três da tarde. Não faço ideia de que horas eu cheguei, mas posso chutar que foi por volta de meia-noite.

Essa foi a última vez que usei o celular na festa. Isso significa que eu estava ali há mais de 24 horas. Mas onde estava a Zuri? Eu já estava acordada fazia um tempo. Por que ninguém tinha vindo ver como eu estava, nem mesmo uma enfermeira? A Zuri devia estar em casa, já que está grávida do bebê deles. Eu ia ser tia em breve. Eles tinham ido ao evento pra se divertir e, como sempre, eu estraguei tudo pra eles.

Eu provavelmente estraguei o evento pra todo mundo. Quem faz isso? Talvez eu tenha sido um pouco dramática porque meu ex estava falando e anunciando coisas que eu não estava pronta para ouvir, mas eu precisava mesmo desmaiar? Eu queria poder ter uma segunda chance naquele evento.

Eu queria ter uma máquina do tempo pra refazer toda a cena e, dessa vez, sair de lá com elegância e confiança. Mas a gente sabe que isso não é possível. Eu estava presa àquilo pro resto da vida.

Eu apertei o botão de chamada ao lado da cama, aquele que avisa a enfermeira de que eu estava acordada. A enfermeira veio na mesma hora. Ela era alta, magra, tinha tranças pretas presas num coque pra não atrapalhar o trabalho. Usava o uniforme: blusa branca, calça azul-marinho e sapatos fechados pretos.

— Você finalmente acordou.

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