Capítulo 1 Banido
~Ponto de vista de Elara
Eu não ouvi nada antes de ver. A porta do nosso quarto estava escancarada.
Marcus, nu. E Lyra também. Minha meia-irmã estava deitada sob ele, as pernas enroladas na cintura dele, os dedos cravados nas costas dele enquanto ele a penetrava sem o menor pudor. O som de pele batendo em pele, as respirações falhando, me atingiu com mais força do que qualquer tapa jamais poderia.
Minha mente ficou em branco enquanto eu permanecia ali, incapaz de desviar o olhar, até que Lyra me viu. Os lábios dela se curvaram devagar, de propósito, como se estivesse esperando exatamente por aquele momento.
— Bem — disse ela, com doçura, sem nem se dar ao trabalho de se cobrir —, você chegou cedo.
Marcus não parou. Nem sequer pareceu culpado; quando finalmente olhou para mim, a expressão era de tédio — irritada, até.
— Merda — murmurou ele. — Você não devia ter voltado ainda.
Eu fiquei ali, congelada no tempo, com o coração batendo tão forte que doía. — Marcus — sussurrei, com a voz se partindo. — O que... o que é isso?
Lyra riu baixo.
— Não nos ofenda fingindo que não entende.
Ela se moveu sob ele, apertando de propósito o agarre nos quadris dele, garantindo que eu visse tudo.
— Ele é meu, Elara. Sempre foi.
— Não é... — Balancei a cabeça com força, numa tentativa desesperada de apagar o que eu tinha acabado de presenciar. — Você está mentindo.
Marcus suspirou e, por fim, se afastou dela, pegando a calça.
— Para de drama.
Drama.
— Eu te amava — eu disse, com a voz tremendo. — Nós ficamos juntos por dois anos.
Ele deu de ombros, como se eu tivesse comentado sobre o tempo.
— Você era conveniente. Uma trepada rápida.
As palavras me cortaram, fundo.
— Eu precisava de alguém quente na minha cama — ele continuou, seco. — Alguém quieta, que não esperasse muito.
Lyra se sentou então, completamente sem vergonha.
— Você realmente achou que o futuro Beta marcaria uma garota sem lobo?
Ela se levantou, nua e orgulhosa, caminhando na minha direção como uma vencedora se aproximando de um inimigo derrotado — e era exatamente assim que parecia.
— Eu sou a verdadeira companheira destinada dele. Sempre fui. Você só estava ocupando espaço.
Meus joelhos cederam, e eu me esforcei com todas as forças para não deixar cair uma única lágrima.
— Eu te mantive por perto porque você era útil — acrescentou Marcus. — Mas eu nunca ia te marcar, Elara. Não seja delirante.
Foi aí que alguma coisa dentro de mim se estilhaçou por completo. Eu apenas fiquei ali, encarando os dois, muda, enquanto as lágrimas ameaçavam transbordar.
Lyra se inclinou mais perto, baixando a voz até um sussurro só para mim.
— Ah, e eu já contei aos anciãos.
Meu sangue gelou.
— Contou o quê?
— Que você tentou seduzi-lo — disse ela, com leveza. — Que você tentou prender o meu homem num vínculo de acasalamento.
O quarto ficou turvo num instante.
— Não — eu soprei. — Você não pode.
Ela sorriu.
— Tarde demais.
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Eles vieram me buscar antes que o sol pudesse nascer. Dois guardas me arrastaram pelos corredores, descalça e tremendo, com meus protestos completamente ignorados. Membros da alcateia encaravam enquanto passávamos; os sussurros me cortavam como estilhaços gelados de vidro quebrado.
“Sem vergonha.”
“Lixo sem lobo, aspirante.”
“Querendo roubar o Beta.”
Assim que entrei, fui jogada de joelhos no Grande Salão.
O Alfa — meu padrasto — estava sentado no estrado elevado, a expressão talhada em pedra. Meu coração martelava, arranhando minhas costelas. Ele nunca gostou de mim; só me tolerou desde que se casou com a minha mãe, dizendo que eu era um elo fraco no nome da família dele.
Marcus estava ao lado dele, e Lyra se agarrava ao braço dele, o rosto cuidadosamente composto numa inocência ferida e numa falsa preocupação.
“Elara”, disse o Alfa, frio. “Você está sendo acusada de sedução, manipulação e de tentar prender o futuro Beta a um vínculo de acasalamento.”
“Isso é mentira!”, gritei. “Eles me traíram. Eu peguei os dois—”
“Silêncio”, ele rosnou.
Eu me encolhi, a palavra batendo em mim como um golpe de verdade. Lyra deu um passo à frente, lágrimas cintilando nos olhos. “Ela sempre teve ciúmes”, disse, suave. “Ela sabia que o Marcus era para ser meu, mas tentou se enfiar no futuro dele à força.”
Marcus assentiu uma única vez. “Ela não largava do meu pé.”
Olhei para ele, a descrença me sufocando. “Você vai deixar ela fazer isso.”
Ele não encarou meus olhos. E isso dói mais do que todas as mentiras.
“Nenhuma defesa será ouvida”, declarou o Alfa. “A sua presença desonra esta alcateia.”
O olhar dele não amoleceu nem por um instante, mas eu tentei mesmo assim. “Pai… pai, por favor, eu—”
“Você não é digna de me chamar assim!”
Ele bradou, o punho cerrado ao lado do corpo.
Meu peito queimou. “O senhor me criou”, sussurrei. “O senhor me conhece.”
Mas ele só continuou a me fitar com ódio. As lágrimas desceram violentas pelo meu rosto enquanto eu balançava a cabeça; a dor era demais para mim.
“Pela autoridade de Crescent Hollow”, disse ele, levantando-se, “eu a bano destas terras.”
O salão explodiu em murmúrios.
Eu apenas fiquei ali, ajoelhada, imóvel, enquanto as palavras continuavam ecoando nos meus ouvidos. De repente, a sala girava numa velocidade vertiginosa.
“Antes do amanhecer”, ele continuou, “você vai cruzar nossas fronteiras e nunca mais retornar. Seu vínculo com esta alcateia está rompido.”
A dor rasgou meu corpo, aguda e ardente, e um grito escapou dos meus lábios rachados. Foi como se algo invisível fosse arrancado de mim. A terra onde eu cresci me rejeitou.
A voz do Alfa foi impiedosa. “Você tem dez minutos.”
Dez.
Minutos.
Os guardas me puxaram e me empurraram em direção às portas. Ninguém os deteve, e ninguém falou por mim. A expressão satisfeita no rosto deles deixava tudo claro.
Era livrar-se de vez da sujeira que tinha infestado as terras deles.
Quando o portão se abriu e o ar gelado da noite entrou com força, olhei para trás uma última vez. Marcus ainda não olhava para mim.
Lyra sorriu.
E quando fui atirada na escuridão além das fronteiras da alcateia com apenas uma bolsa de viagem e sem casaco, eu entendi uma verdade aterrorizante.
Eu não tinha sido apenas banida.
