Capítulo 2 Noite mascarada

A dor não parou quando os portões se fecharam atrás de mim.

Ela me seguiu. Cada passo para longe de Crescent Hollow parecia arrancar alguma coisa do meu peito, lento e brutal. Cambaleei pelas estradas de terra na floresta, os dedos arranhando meus braços sem casaco enquanto o ar da noite mordia fundo. Quando tentei voltar — só uma vez —, meu corpo se revoltou. A náusea me atravessou como uma pancada; meus joelhos cederam quando uma parede invisível me empurrou de volta, me rejeitando.

A terra não me quer mais.

Eu ri, então, um som vazio e quebrado. Claro que não quer.

Quando as árvores rarearam e a estrada ficou mais firme sob meus pés, o céu já estava escuro. As luzes da cidade tremeluziam à distância como uma promessa em que eu não confio. Mesmo assim, continuei andando. Eu não tinha escolha.

Fui conferindo os bolsos enquanto caminhava: meu celular — quase morto. Um pouco de dinheiro que eu tinha esquecido que estava comigo, bem dobrado no bolso, e minha bolsa de viagem.

Este é o meu futuro agora.

As pessoas passam por mim quando chego à cidade humana. Todas me ignoram, seguindo com suas noites. Não encaram, nem sequer sentem o cheiro da minha vergonha ou sabem que eu estou sem loba, indesejada e banida como uma doença arrancada da matilha.

Pela primeira vez desde que a noite começou, uma dormência se assentou fundo dentro de mim, e eu finalmente consigo respirar.

À frente, um letreiro de neon de um clube brilhava forte; a música pulsava pelo asfalto, grave e pesada, vibrando direto no meu corpo. Quando a porta se abriu, uma risada escapou lá de dentro, e um casal tropeçou para fora, bêbado demais.

Fiz menção de seguir, mas parei, hesitando. Então pensei no sorriso de Lyra, na provocação dela, e na indiferença de Marcus. A voz do meu padrasto enquanto me arrancava de tudo o que eu era.

Foda-se. Dei um passo à frente. O homem na porta me avalia: meus braços nus tremendo, os lábios quase azulados e, provavelmente, as olheiras. Ele não faz perguntas; só me entrega uma máscara preta e pega meu dinheiro.

Talvez tenha sido o jeito mais gentil como me trataram até agora nesta noite.

Lá dentro, o mundo atrás de mim se dissolve. Um baixo aveludado, luzes baixas e corpos se movendo como se estivessem em transe. Todo mundo estava mascarado — e eu também. Como se não houvesse nomes, nem passado; só viver o momento.

Ótimo.

Fui direto ao bar. “Uma”, digo a mim mesma quando o copo é colocado na minha mão. O líquido é rosa, enganadoramente chamativo. Engoli rápido demais; o gosto doce sumiu e o resto queimou ao descer, abrindo um calor no meu peito e afrouxando o nó apertado dentro de mim.

Veio outra, depois outra. Quando me dei conta, a música me puxou para a pista de dança, e eu deixei. Estou na metade do caminho quando bato em alguém sólido o bastante para me parar na hora. Minhas palmas se pressionaram contra um peito firme, e minha testa quase encostou nele.

Braços fortes me firmam no mesmo instante.

“Calma”, ele disse. A voz dele desliza sobre mim, baixa, áspera e íntima de um jeito que não deveria ser. Eu ergui o olhar e, instintivamente, apertei as coxas.

Uma máscara de obsidiana esconde o rosto dele, linhas afiadas captando a luz. Mas os olhos… Meu Deus. Eram de um azul violento, pegando as luzes do clube e parecendo cintilar. A intensidade era perturbadora, e eles continuaram presos nos meus, como se ele enxergasse através do meu disfarce.

Saí do meu transe. “Tô bem”, menti, mesmo com a sala inclinando levemente diante de mim. Talvez eu tenha bebido uma a mais. Ou duas.

Mas ele não acredita. Eu percebo.

“Você não parece bem”, ele diz.

“Você também não”, retruco antes que eu consiga me impedir, e isso acende alguma coisa nele; os lábios se curvam de leve, divertidos.

Ele tem um cheiro… estranho. Não que eu saiba muita diferença, mas aquilo não era perfume. Era algo mais profundo e mais escuro, e meu estômago deu um salto, o calor se acumulou baixo no meu ventre. Não me lembro de ter chegado mais perto, mas de repente ele está ali. A presença dele era pesada e magnética.

Ele me ofereceu o copo dele, e eu peguei. Esta noite já era um ato de imprudência — e eu não tenho culpa.

Não trocamos nomes, nem perguntas; só dançamos. A música cresce, nossos corpos se apertam mais; as mãos dele encontram a curva dos meus quadris como se aquilo pertencesse a elas, os dedos firmes e possessivos. Eu devia me afastar.

Perigo, estranho. Mas eu não faço isso.

Em vez disso, me movo com ele, deixando o ritmo me guiar, deixando meu corpo falar quando minha mente está cansada demais para discutir. Cada roçar de pele manda uma consciência ardida subir pelas minhas coxas; meu corpo reage ao dele com uma facilidade humilhante, como se reconhecesse alguma coisa que eu não reconheço.

Estou bêbada, com raiva, anestesiada e tão cansada de ser indesejada.

Quando ele me beijou, foi tão repentino, sem aviso, sem delicadeza. Só calor e fome e a percepção aguda de que eu queria aquilo mais do que precisava de ar. Eu o beijei de volta sem pensar, me agarrando a ele como se, se eu soltasse, eu fosse me desfazer.

Em algum ponto entre a música e o nosso desejo apressado, acabamos sozinhos numa sala privada. As mãos dele passeavam pelo meu corpo — quadris, ombros, peito. Tirando minhas roupas num movimento lento e frustrante. Cada toque era deliberado, reverente, como se eu fosse algo frágil e perigoso ao mesmo tempo.

Em minutos, as roupas estavam fora dos nossos corpos, o prazer ofuscante, meu corpo se acendendo de um jeito que eu nunca tinha sentido. Eu não sei o nome dele — e nem quero. Eu só queria este momento em que sou escolhida e adorada.

A testa dele repousa na minha, a respiração irregular enquanto ele acompanha o balanço rítmico dos meus quadris. Sinto a contenção dele se romper, algo selvagem tremeluzindo por trás daqueles olhos azuis.

Então ele fica imóvel. Completamente imóvel.

“O que—”, eu rouquejo, mas a palavra é cortada quando uma dor aguda se espalha pelo meu ombro.

Os lábios dele roçam meu pescoço, mordiscando o ponto que ele acabou de morder. Não violento — apenas íntimo e possessivo, como uma marca.

O calor explodiu dentro de mim, branco e incandescente, esmagador, correndo pelas minhas veias como fogo. Meu corpo arqueou por instinto, um som se rasgando da minha garganta enquanto um tremor me atravessava.

Ele congela, as mãos travadas com força nos meus quadris. Aí eu ouço: um rosnado baixo, inconfundível.

“Porra”, ele sussurrou. As palavras não eram pra mim, mas enquanto a mordida queima e minha visão escorrega para a inconsciência, eu sei — lá no fundo dos ossos — que o que acabou de acontecer tinha mudado tudo.

E não havia volta.

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