Capítulo 3 Marca de acasalamento?
~Ponto de vista de Elara
Acordei dolorida. A ardência entre minhas coxas é um lembrete completo de que a noite passada não foi um sonho. Meu corpo sabe disso antes de a minha mente alcançar. O calor invadiu minhas bochechas e subiu pelas minhas coxas. Meus ombros latejavam também.
Olhei em volta do quarto ainda escuro e, por um instante, o pânico arranhou minha garganta. Então me lembrei do clube, da música, das mãos na minha cintura, de uma voz que fazia meus ossos queimarem. Virei a cabeça devagar.
Ele está ali.
Espalhado ao meu lado, largo e impossivelmente imóvel, mas o subir e descer do peito era a prova de que ainda respirava. Suspirei, aliviada. Um dos braços jogado acima da cabeça; a máscara ainda estava no rosto. A luz fraca se recusava a me dar a face dele, só a silhueta do corpo.
Eu não devia ficar.
O pensamento veio afiado e limpo, cortando a névoa na minha cabeça. Ficar significa perguntas, nomes e expectativas. Não posso me dar ao luxo de nada disso. Não agora. Escorreguei para fora da cama em silêncio, juntando minhas roupas com os dedos trêmulos. Meu corpo protesta enquanto me visto, o calor se acendendo baixo no meu ventre como se estivesse relembrando. Não olho para trás quando chego à porta.
Saí antes do amanhecer; a cidade estava mais quieta agora, cinzenta e indiferente. Encontrei uma pensão que aceita dinheiro sem fazer perguntas. O quarto é minúsculo, e até o banheiro é menor, mas serve.
Tirei a roupa para tomar banho e me virei para o espelho preso na parede do banheiro. Uma enorme marca de mordida no meu ombro me encarava de volta.
Meu coração falhou uma batida. Mas que…
Aquilo não era um chupão. Então as lembranças do que aconteceu na noite passada me inundaram. Ele me mordeu. Franzi a testa, encarando com força. Pulsava sob a minha pele, um calor que se espalhava para fora, como se estivesse vivo. Quando meus dedos roçaram a marca, eu me encolhi; uma dor, aguda e íntima, atravessou direto por dentro de mim.
— O que você é? E o que você fez comigo? — sussurrei, o medo apertando o meu peito.
Horas se passaram e o sol já estava alto — e eu também. Há histórias de curandeiras-lobo espalhadas pela cidade humana, e é exatamente isso que eu estou procurando.
Eu a encontrei. O canto dela cheira a incenso e chuva, o que é estranho, porque não estava chovendo. Ela não pergunta meu nome; no instante em que vê a marca, a cor some do rosto.
— Isso não é uma marca comum — murmurou. — Isso é real.
Balancei a cabeça.
— Eu não sei o que isso significa.
Ela me olhou com algo parecido com pena.
— Significa que você foi marcada por um rei.
O frio inundou minhas veias. O quê?
— Por quê… o que eu posso fazer? Eu não quero isso — perguntei, desesperada, tentando de algum jeito arrancar aquilo do meu ombro, como se fosse possível.
— Por favor… — implorei para ela fazer qualquer coisa; dói.
Ela hesitou.
— Só temporariamente. Tinta encantada pode funcionar. Uma cicatriz de proteção… vai abafar o cheiro e a dor também. Embaçar o chamado da marca.
— Faça — eu disse, decidida. Seja lá que rei ele for, eu não posso voltar para aquela vida. Já me queimei antes e não acho que conseguiria sobreviver a outra vez.
Ela colocou uma pedra brilhante com tinta diretamente sobre a marca, e a dor foi pior do que a da própria mordida. A tinta queimava ao ser pressionada contra minha pele, um calor abrasador e magia afundando fundo. Mordi o lábio até sentir gosto de sangue. Fechei os olhos com força, me recusando a gritar.
Quando terminou, a marca não estava mais ali, e isso me deixou boquiaberta. Era como se nunca tivesse existido, como se tivesse sido coberta.
Mas ela disse que era temporário. Vamos ver quanto tempo dura.
Puxo a camisa de volta, com as mãos tremendo.
Seja lá o que aquela noite foi… eu não vou deixar que ela me persiga.
~~~Ponto de vista de Kael~~~
Eu ainda estava sentado, encarando o espaço vazio na cama ao meu lado. O cheiro dela estava sumindo, e eu odiava isso.
A raiva me atingiu primeiro — quente e violenta, um rosnado rasgando do meu peito antes que eu conseguisse conter. Minhas garras cortaram o colchão quando me sentei, o coração disparado.
O vínculo está ali; eu consigo sentir, ardendo sob minha pele como um ferro em brasa. Mas ela foi embora. Nenhum rastro, sem um nome, sem uma palavra. Então a culpa veio logo atrás da fúria, mais pesada. Eu a marquei, reivindiquei sem o consentimento dela. O vínculo de companheiros se encaixou rápido demais e com força demais, e eu reagi sem me impedir.
Poderoso ou não, esse pecado é meu. Talvez tenha sido por isso que ela correu. Eu não sei…
Saí do quarto de hotel e voltei para o meu território antes de o sol nascer por completo.
Meus guardas me cumprimentaram enquanto eu andava de um lado para o outro nos meus aposentos, a mente ainda em turbilhão por causa da noite passada. Não. Eu não posso deixar que ela desapareça no ar.
— Fechem as fronteiras — ordenei friamente. — Vasculhem cada alcateia aliada atrás de uma mulher sem companheiro com uma marca no ombro. A minha marca.
— Cada posto avançado. Quero relatórios dentro de uma hora.
O corredor estremeceu com a movimentação. Medo e excitação, sussurros já se espalhando como fogo em palha seca. O rei Lycan encontrou sua companheira. Mas eu não comemorei, não quando ela está desaparecida.
Já se passaram quatro dias desde o início da busca, e ainda sem resultado. Eu e meu lobo estamos tão inquietos, andando de um lado para o outro pelo salão dos meus aposentos. Meu lobo rosna, furioso e impaciente, me puxando na direção do vínculo. Na direção dela.
A atração puxa, fraca e errada, como se algo estivesse interferindo. Então o mensageiro chegou.
— Meu rei — diz ele, curvando-se. — A mulher marcada foi encontrada.
O alívio me atingiu com tanta força que meus joelhos quase cederam. — Tragam-na — ordenei.
Ele saiu correndo e voltou, e lá estava ela. Ela entra no salão, ladeada pelos meus guardas. Era linda, composta, confiante, e o jeito de andar… Meu coração reagiu por instinto, uma fisgada dolorida e aguda —
Então meu lobo recua, rosnando em protesto.
Não?
O cheiro dela é doce, familiar, mas… tem outra coisa. Meu corpo enrijeceu quando ela se aproximou; meu olhar vasculhou o rosto dela, que dessa vez estava sem máscara.
Depois desceu até os ombros. A minha marca estava ali. Companheira.
Minha marca. Estendi a mão até ela, só um toque leve, mas o choque e o formigamento que subiram pelo meu braço não foram leves. Companheira.
O salão cai num silêncio mortal. Dei um passo à frente, lento e perigoso. Meus olhos voltaram ao rosto dela.
Ela sorriu.
— Eu sou Lyra Blackthorn — diz ela, com suavidade. — Filha do Alfa Darius Blackthorn, de Crescent Hollow.
