Capítulo 4 Broken Bond

‎~Kael

‎A marca parecia real.

‎Esse é o problema.

‎Lyra estava em pé diante de mim, as costas expostas e os ombros retos como uma rainha prestes a ser coroada. A marca em forma de crescente repousava logo abaixo da escápula dela. Mesma forma e mesma posição que a minha.

‎Era perfeita. Perfeita demais.

‎Os anciãos estavam sentados atrás de mim em silêncio, todos esperando.

‎— Quando apareceu? — perguntei.

‎— Na manhã depois daquela noite — ela respondeu, com facilidade.

‎Então comecei a contorná-la devagar, apenas observando.

‎— Descreva o que você sentiu.

‎Ela engoliu em seco, hesitando um pouco.

‎— Queimou. Como um calor se espalhando por baixo da minha pele.

‎Essa parte está correta. A marca de companheiro verdadeiro de um lycan não é totalmente gentil em seus modos.

‎— O que a desencadeou? — insisti.

‎Mas ela virou para me encarar agora, os olhos brilhantes.

‎— Você — foi tudo o que ela disse.

‎Notei os anciãos assentirem de leve, mas isso não basta. Sustentei o olhar dela.

‎— Explique.

‎Ela hesitou de novo, só um pouco, antes de falar:

‎— Estar perto de você… a atração.

‎Não havia atração. Pelo menos não do tipo que deveria haver. Quando seu companheiro verdadeiro está assim tão perto, o ar costuma mudar e seu lobo reage. Seu corpo sabe antes da sua mente. Mas o problema aqui é…

‎O meu está quieto.

‎— O que eu disse a você naquela noite? — perguntei, em vez disso.

‎O sorriso dela vacilou, só um pouco.

‎— Você disse que eu pertencia ao seu lado.

‎Errado.

‎Eu nunca falo desse jeito. Não em público. Agora a sala estava silenciosa, silenciosa o bastante para eu ouvir o suave roçar de tecido quando um dos anciãos se ajeitou no assento.

‎Isso estava prestes a desandar, e eles sabiam — pelo menos eu acho que sabem.

‎— O que eu estava vestindo? — perguntei de novo, meus olhos examinando o rosto dela com uma concentração mascarada. Nenhum pânico visível. Só confiança.

‎Ela piscou.

‎— Preto.

‎Certo, mas isso não prova nada. Não era difícil acertar no palpite.

‎— Você foi embora cedo — eu disse.

‎Parei de me mover quando os dedos dela se contraíram ao lado do corpo.

‎— Eu fiquei sobrecarregada.

‎Um desdém escapou dos meus lábios.

‎— Com o quê?

‎— Com o vínculo. Eu… isso me assustou — ela respondeu, firme.

‎Lá estava de novo: as palavras certas, mas com o peso errado por trás. E soava tudo ensaiado.

‎— Por que você não informou sobre a marca imediatamente?

‎Os olhos dela correram até os anciãos e voltaram para mim num instante.

‎— Porque eu tinha medo de você me rejeitar — respondeu, com a voz baixa e insegura.

‎Resposta inteligente.

‎O silêncio se estendeu entre nós. Então, quando me inclinei um pouco mais, testando o espaço entre nós, ainda nada… exceto uma atração fraca, mas tudo parecia errado.

‎Nenhum calor, nenhum reconhecimento do meu lobo. Não deveria ser assim.

‎O que eu sinto quando fico perto dela é pressão. Um eco tênue, como se algo empurrasse de volta, tentando causar algum efeito, mas sem conseguir se alinhar por completo.

‎E isso me irritou. Se ela percebeu que meu lobo não se mexeu uma única vez com a nossa proximidade, então ela é muito boa em esconder.

‎Dei um passo cauteloso para mais perto, baixando a voz.

‎— Olhe para mim, Lyra.

‎Ela obedeceu na hora, erguendo os olhos para os meus num estalo. Por um momento, procurei por aquilo. O mínimo indício do vínculo que eu deveria sentir. A inevitabilidade e o instinto que diz: é minha.

‎Não havia nada. Só o vazio deixado pelas expectativas.

‎Antes que eu pudesse insistir mais, as portas da câmara se abriram, e o Ancião Maren entrou.

—As matilhas do norte estão fazendo perguntas —ele disse. —Estão preocupadas com o atraso em anunciar a sua companheira. A notícia corre rápido.

Claro que estão. O poder não tolera incertezas. Assenti uma única vez. —Vamos lidar com isso —respondi, sem alterar o tom.

Lyra olhou de um para o outro, os ombros tensos, mas manteve a compostura. Inteligente.

O olhar do Ancião passou de um para o outro. —Seria imprudente deixar os rumores se aprofundarem.

E perigoso também. Então dispensei Lyra com um leve aceno de cabeça. —Espere lá fora.

Ela hesitou só por um instante, os olhos alternando entre nós mais uma vez, antes de obedecer. Assim que as portas se fecharam atrás dela, o ar na câmara mudou de imediato.

—E então? —perguntou o ancião Maren, em voz baixa.

—A marca está presente —suspirei.

—E?

—Ela parece… distorcida.

A palavra ficou pesada no ar quando outro ancião se inclinou para a frente. —Distorcida como?

—Como se algo estivesse interferindo. Não há efeito nenhum.

Murmúrios se espalharam pelo salão.

—Isso é impossível —disse um.

—Nada nessa situação pareceu certo. —E eu odiava isso. Não gosto de tomar decisões sem ter certeza. Mas agora, eu não tinha nenhuma.

Maren me estudou com cuidado. —Você acredita que ela seja uma impostora?

—Eu acredito —eu disse devagar— que não sinto o que deveria.

A sala ficou em silêncio.

Rejeitar uma companheira verdadeira desestabiliza o trono, e aceitar uma falsa convida a fraqueza. E, no longo prazo, nenhum dos dois desfechos é sobrevivível.

—Os inimigos à nossa volta aproveitariam qualquer dúvida pública —continuou Maren. —Se você a rejeitar e ela se provar genuína, o seu poder vai se fraturar.

Eu sei. Caminhei até a janela; a cidade se estendia lá embaixo, em ordem e estrutura.

O estrago seria permanente se isso desse errado. Qualquer escolha traz risco, e eu não tenho esse luxo.

—Se eu reconhecê-la, a matilha se acalma.

—Sim. —Eles murmuraram.

—E se ela estiver mentindo, vai cometer um erro. —Com certeza vai.

—A maioria dos mentirosos comete —respondeu Maren.

Expirei devagar, a irritação crescendo. Eu desprezava tomar decisões sob pressão; isso turva a precisão. Mas hesitar é pior, e muito mais perigoso.

Se o vínculo for real e estiver bloqueado, rejeitá-la poderia rompê-lo para sempre. Mas, se for verdadeiro, com o tempo com certeza se fortaleceria.

—Eu vou aceitá-la —declarei.

A sala se aquietou enquanto os anciãos trocavam olhares e palavras abafadas de aprovação.

A decisão se acomodou como um peso no meu peito. —Os preparativos para o anúncio começam imediatamente.

—E em particular? —perguntou um ancião.

—Eu vou investigar. —Ninguém discutiu, porque todos entendiam o que isso significava.

—Prossiga com cuidado —advertiu Maren.

Virei-me para as portas. —Eu sempre faço isso.

Quando voltei ao corredor, Lyra ainda estava esperando.

—E então? —ela perguntou, ansiosa.

—O anúncio será feito na próxima reunião do conselho —eu disse.

O fôlego dela falhou, e a esperança cintilou em seus olhos. —Então… você me aceita?

Por enquanto.

—Sim.

O alívio passou pelo rosto dela rápido demais. Outro detalhe para registrar.

Quando passei por ela, meu lobo continuou em silêncio.

Se isso fosse uma mentira, então era limpa e bem encenada demais.

E se fosse o destino… então ele realmente estava falhando. De um jeito ou de outro, eu não serei pego desprevenido.

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