Capítulo 1

O cheiro salgado e enjoativo da água do mar batendo nas rochas atingiu em cheio as narinas dele.

Os olhos de Daniel Lopez se arregalaram de repente, e uma dor aguda atravessou a parte de trás da cabeça, como se alguém tivesse acertado ali uma marretada.

O brilho do entardecer se espalhava pela Praia de Santa Monica, fazendo-o semicerrar os olhos.

Antes que conseguisse entender onde estava, uma voz fria e mecânica explodiu na mente dele, sem aviso.

[Sistema de Advogado da Justiça ativado, vinculando ao hospedeiro...]

— Que porra é essa? — Daniel levou a mão à cabeça. No instante em que tentou se sentar, um grito ríspido veio de cima.

— Parado! LAPD! Mãos onde eu possa ver!

Daniel ergueu o olhar e viu dois canos escuros apontados direto para a sua testa.

À esquerda, um policial negro jovem, de expressão tensa, chamado Matthew, com o dedo já no gatilho. À direita, um veterano branco barrigudo chamado Taylor. Embora não estivesse inclinado para a frente, a postura tática dele era sólida como uma rocha.

A mente de Daniel disparou. Num segundo ele estava em Nova York, morto num tiroteio de gangues, e no seguinte estava numa praia de Los Angeles? E ainda por cima “vinculado” a algum “Sistema de Advogado da Justiça”?

Reencarnado?

— Mãos atrás da cabeça! Agora! — Matthew gritou de novo, ao ver Daniel paralisado, e avançou.

Daniel não resistiu. Tendo sobrevivido às ruas de Nova York na vida passada, ele sabia exatamente como lidar com esses policiais americanos com coceira no gatilho. Levantou as mãos devagar, os movimentos firmes, sem um tremor.

O facho de uma lanterna varreu o rosto de Daniel.

Taylor estreitou os olhos e avaliou o rosto branco de traços marcantes. Apesar de coberto de areia, o terno era claramente caro. Nada de tatuagens de gangue, nada de tremedeira de viciado.

Os ombros tensos de Taylor relaxaram visivelmente. Ele usou o dorso da mão para empurrar o cano da arma de Matthew para baixo, sinalizando para pegar leve, e então suavizou bastante o tom:

— Nome? Profissão? Por que você estava deitado na praia?

Daniel sacudiu a areia dos punhos e, com a maior naturalidade, inventou:

— Calma, oficial. Eu só sou um advogado que bebeu um pouco demais ontem à noite.

— Advogado?!

Aquelas duas palavras eram como kryptonita para policial americano. A expressão de Taylor mudou na hora. Com um “clique”, ele destravou a arma e a enfiou de volta no coldre. Nos Estados Unidos, você pode mexer com um bêbado, mas não mexe com um advogado que carrega cartão de visita. Esses caras conseguem processar o departamento de polícia até a falência porque alguém não disse “por favor” direito durante uma prisão.

— Ahem, mil desculpas, senhor, é só procedimento. — Taylor trocou instantaneamente por um sorriso simpático de atendimento ao cliente e ainda tentou ajudar Daniel a se levantar. — Onde o senhor mora? Está ficando tarde. Precisa que a gente dê uma carona?

Daniel ia recusar quando uma linha de texto azul-claro translúcido apareceu de repente diante dos seus olhos:

[1503-6, Normandy Avenue]

— Normandy Avenue, 1503-6 — Daniel disse com naturalidade, lendo.

Matthew, ali perto, não conseguiu segurar um resmungo e guardou a arma com um sorriso de desprezo:

— Normandy Avenue? Aquele gueto negro infame onde ninguém dá a mínima pra nada? O que um advogado figurão do centro tá fazendo morando naquele inferno?

Taylor lançou a Matthew um olhar feroz, xingando a estupidez do novato. Ele passou rapidamente o mapa na cabeça — Normandy Avenue ficava na Divisão Central do LAPD, totalmente fora da jurisdição da polícia de Santa Monica.

Ansioso para se livrar daquele problema intocável e ainda por cima fora da sua área, Taylor puxou do bolso uma nota amassada de vinte dólares e enfiou na mão de Daniel.

— Senhor, levar o senhor atravessando jurisdições seria contra o regulamento. Esses vinte são por minha conta. Tem um ponto de táxi logo ali na estrada… o senhor vai ter que pegar um por conta própria.

Olhando para os vinte dólares de graça na mão, Daniel arqueou uma sobrancelha e guardou no bolso sem hesitar.

— Obrigado, oficial. Trabalho policial bem profissional.

A brisa do mar ao entardecer ficou mais fria.

Daniel nem se deu ao trabalho de pegar um táxi. Gastou três dólares num carrinho de comida de rua no cheeseburger mais barato e numa Coca gelada, mastigando enquanto seguia a navegação bizarra do sistema projetada na própria retina.

Depois de três baldeações em ônibus lentos, com correntes de ar e caindo aos pedaços, Daniel finalmente parou diante do 1503-6 da Normandy Ave pouco antes do anoitecer.

Como o policial negro Matthew tinha dito, aquilo era definitivamente um gueto típico. Ruas esburacadas, postes de luz piscando e, de vez em quando, gritos de gato selvagem vindos das esquinas.

Diante de Daniel havia um prédio de apartamentos de três andares, malconservado.

Seguindo algum instinto residual na cabeça, ele se agachou e puxou uma chave de latão enferrujada debaixo do capacho sujo. Com um “clique”, empurrou a porta e entrou.

Lá dentro estava escuro. Daniel nem tirou os sapatos; só desabou na cama de molas rangentes.

As luzes de neon de fora atravessavam as persianas, projetando listras no teto. Daniel ficou deitado com as mãos atrás da cabeça, as emoções em tumulto.

Que merda de confusão. Um membro de baixo escalão de uma gangue de Nova York, vivendo no limite por metade da vida, finalmente levou um tiro nas costas do próprio pessoal. E agora acorda não só em Los Angeles, como transformado num advogado com algum “Sistema de Advogado da Justiça”?

“Que se fodam as gangues, que se foda toda aquela violência.” Daniel deu um gole grande na Coca gelada e arrotou, os olhos brilhando no escuro. “Segunda chance na vida — não vou ser bucha de canhão de novo. Se eu vou viver, eu vou viver direito!”

Antes que percebesse, a sonolência veio como uma maré. Com sirenes da polícia uivando lá fora, Daniel fechou os olhos e dormiu o sono mais tranquilo e pesado que tivera em dez anos.

...

Na manhã seguinte.

A luz cegante do sol de Los Angeles acertou Daniel em cheio no rosto. Ele acordou naturalmente, se espreguiçou com deleite e imediatamente saltou da cama. Como se estivesse revirando um lugar na vida passada, vasculhou rápido e minuciosamente cada canto do quarto para entender o histórico do seu antecessor.

Logo, vários documentos e cartas estavam espalhados sobre a mesa.

A carteira de motorista mostrava que o nome do dono original era Daniel Lopez.

“Daniel? Porra, que nome metido.” Daniel sorriu.

Em seguida, puxou uma escritura vermelha do fundo de uma gaveta. Quando conseguiu ler direito, os olhos de Daniel se acenderam — aquele prédio caindo aos pedaços de três andares na Normandy Avenue pertencia a um tal de Nace Lopez!

Tá, o lugar era uma porcaria, mas ele era dono do prédio inteiro!

As surpresas não paravam. Daniel pegou uma moldura com acabamento dourado e soprou a poeira.

Em letras destacadas, lia-se: Harvard Law School, Juris Doctor (JD) Degree. Ao lado, havia uma licença da Ordem da Califórnia.

“Formado em escola de elite, dono de imóvel, habilitado...” Daniel se recostou na cadeira e não conseguiu evitar um assobio. Era como começar o jogo com um royal flush, infinitamente melhor do que a vida passada dele como um bandido pé-de-chinelo, vivendo um dia de cada vez.

Por fim, o olhar de Daniel caiu sobre duas cartas de oferta abertas em cima da mesa.

Uma era da famosa Pearson Hardman, em Nova York, um escritório de primeira linha no país.

A outra era da Kirkland Ellis, um escritório local de Los Angeles.

Daniel abriu o caderno do dono original. Ali havia desprezo pela Pearson e um círculo marcando a Kirkland Ellis. A arrogância praticamente escorria da página — o dono original aparentemente achava que, com Harvard no currículo, ir para um escritório como a Kirkland Ellis era “se rebaixar”, um compromisso puro e simples só para ficar em Los Angeles.

“Bem convencido.” Daniel juntou as duas cartas de oferta. “Mas Kirkland Ellis? Esse nome tem presença. Ser advogado é muito melhor do que cobrar ‘proteção’ na rua, qualquer dia.”

Daniel se levantou satisfeito, prestes a ir ao banheiro lavar o rosto e tirar a areia de ontem.

Foi então que, no fundo da mente, aquela voz mecânica e fria, que ficara adormecida a noite inteira, de repente soou nítida e clara.

[Ding—]

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