Capítulo 3
— Duvido muito que a licença do seu advogado seja falsa. — Os olhos injetados de sangue de Taylor se cravaram em Daniel, e a mão áspera foi direto para o coldre na cintura. — Vou levar você para a cela de detenção até a Ordem dos Advogados da Califórnia me dar uma resposta clara.
Daniel franziu a testa. — Oficial, eu tenho licença para advogar.
— Não vem com essa merda! Sou policial a vida inteira — conheço as regras dessas ruas melhor do que você. — Taylor bufou com frieza, erguendo dois dedos grossos. — Primeiro: um formado em Direito em Harvard nunca moraria num cortiço infestado de ratos como este! Segundo: esse Perez aí dentro é um drogado completo! Você, um advogado de elite, correndo por aí e fazendo serviço para um viciado do fundo do poço? Isso é suspeito pra caralho!
Drogado?
O coração de Daniel afundou.
Aquelas duas palavras pareciam tocar num nervo extremamente sensível.
Se fosse verdade, ele simplesmente não podia encostar nesse caso.
A mente dele disparou. Nesse caso, por que não recusar essa incumbência agora mesmo e cair fora?
Ele ia falar quando Taylor, de repente, sacou a arma, o cano escuro apontando direto para o peito de Daniel, e a voz explodiu como um trovão:
— Não se mexe! Mãos pra cima!
O saguão da delegacia ficou em silêncio por um segundo; então, a multidão ao redor irrompeu.
Mark, que estava por perto, se animou na hora. Como uma hiena sentindo cheiro de sangue, gesticulou feito louco para as pessoas ao redor, gritando:
— Tá vendo? O que foi que eu disse! Esse cara com certeza tá escondendo alguma coisa! É um farsante!
Mark cuspiu enquanto falava, apontando de forma debochada para o nariz de Daniel:
— Se ele se formou em Direito em Harvard, então eu me formei nessa porra em Direito em Yale! Olha pra esse coitado — ele ao menos sabe pra que lado abre a porta da frente de Harvard?
Alguém na multidão bufou:
— Ah, para, Mark, até o seu diploma de curso por correspondência tem vergonha de você.
A gargalhada explodiu.
— Todo mundo calado! — Taylor rugiu, a arma firme.
Daniel puxou o ar e ergueu as mãos devagar. Nesse momento tenso, uma voz feminina, fria e penetrante, cortou o burburinho de fora da roda.
— Advogado Mark.
A multidão se abriu automaticamente, e uma mulher de tailleur cinza impecavelmente ajustado e salto alto surgiu.
Ela era alta e esguia, com os cabelos bem arrumados em cachos e olhos afiados como uma lâmina recém-amolada.
Quando Mark viu quem era, a arrogância dele murchou pela metade, o pescoço encolhendo:
— Promotora Miller...
Susan Miller nem olhou para ele; manteve o olhar à frente, num tom que não admitia discussão:
— O caso Thomas… homicídio em segundo grau é homicídio em segundo grau. Sem pelo menos vinte e cinco anos, nem venha falar comigo sobre acordo.
O rosto de Mark ficou na hora como se ele tivesse engolido uma mosca morta.
Daniel observou aquela promotora imponente, confuso.
Quem era ela? De onde tinha saído? E, mais importante: com a identidade que ele estava usando agora… ela tinha vindo para desmascará-lo?
As palmas de Daniel começaram a suar de leve.
Susan se virou, o olhar afiado encontrando diretamente os olhos de Taylor e, em seguida, descendo pelo braço dele até a arma de serviço reluzente.
— Oficial Taylor, o que você está fazendo? — A voz de Susan não era alta, mas cada palavra tinha peso. — Sacando uma arma contra um advogado de defesa? Você consegue justificar isso do ponto de vista do procedimento? O superintendente aprovou? E esse seu relatório escrito cheio de buracos passa pelos seus superiores?
Taylor cerrou os dentes, mas manteve a arma erguida:
— Promotora Miller, tenho motivos razoáveis para suspeitar que a identidade dele é falsa...
— Suspeitar? — Susan riu com frieza, cortando-o na hora. — Eu já vi ele no escritório Pearson Law Firm, em Nova York. Isso elimina a sua suspeita?
Taylor travou. O murmúrio ao redor cessou instantaneamente.
Susan se virou para Daniel, e os olhos antes gelados chegaram a mostrar um traço de provocação:
— Se não me engano, você é o assistente jurídico pessoal de Paul Moore, o advogado estrela mais famoso de Nova York.
Ela se virou para encarar a sala inteira, a voz soando límpida e firme:
— Como todo mundo sabe, o escritório Pearson, em Nova York, só aceita os melhores alunos da Faculdade de Direito de Harvard. Sem exceções.
Um silêncio sepulcral tomou conta do lugar.
Mark, que momentos antes estava pulando de um lado para o outro, agora estava com os olhos arregalados como pires, a boca escancarada a ponto de caber uma lâmpada ali dentro. Paul Moore? Pearson? Eram nomes no topo absoluto da pirâmide jurídica dos Estados Unidos!
Susan mediu Daniel de cima a baixo, com um sorriso brincalhão curvando os lábios:
— Em Nova York, vocês são chamados de “Suits”. Qual é? Por que você não está usando hoje aquele terno italiano sob medida de cinquenta mil dólares?
Todos os olhares se voltaram para Daniel ao mesmo tempo, como se tentassem encontrar nele um buraco de cinquenta mil dólares.
O coração de Daniel martelava, mas seu rosto permaneceu impassível. Ele baixou devagar as mãos que estavam erguidas e alisou as mangas sem um vinco.
— Los Angeles é perigosa demais — disse, seco. — Tenho medo de ser assaltado.
Susan soltou uma risadinha e então se virou para encarar Taylor com frieza:
— Atualize seu banco de dados, oficial. O advogado Daniel agora trabalha no Kirkland Ellis, um dos escritórios de primeira linha da Califórnia. Dá para baixar a arma agora?
O rosto de Taylor passou do vermelho ao branco. Pearson, Harvard, Kirkland Ellis — o peso combinado dessas palavras era muito mais do que um policial velho de fim de linha conseguiria enfrentar com facilidade.
Taylor cerrou os dentes, girou o pulso e, a contragosto, enfiou a arma de volta no coldre, forçando as palavras, duro:
— Já que a promotora Miller garante sua identidade, isso foi um mal-entendido.
— Mal-entendido? — Daniel repetiu, frio, sem deixar que ele escapasse tão fácil.
Taylor puxou um sorriso gelado, inclinou-se para perto de Daniel e disse em voz baixa:
— Advogadão, vai me processar? Vai lá, tenta. Tenho todos os policiais de LA e o sindicato inteiro do meu lado. Vamos ver o tamanho da confusão que você consegue arrumar!
Dito isso, Taylor bufou alto e foi embora.
— Obrigado. — Daniel fez um breve aceno para Susan; quanto mais falasse, mais chances tinha de cometer algum deslize. Só queria acabar logo com aquela farsa.
Susan não respondeu. Apenas o encarou em silêncio por um instante e então seguiu para a área das celas, os saltos estalando no piso.
Quando Taylor e Susan saíram, o saguão voltou a ficar barulhento, e todos os olhares, como refletores, se fixaram em Daniel.
Sussurros cheios de “Harvard” e “cinquenta mil dólares” flutuavam pelo ar.
O rosto de Mark estava cinzento, e um suor frio encharcava suas costas. Ele se arrastou rigidamente até Daniel, e seu rosto antes afiado forçou um sorriso bajulador mais feio do que chorar.
— Doutor Lopez... — Mark esfregou as mãos, curvando-se pela cintura como um camarão cozido. — Aquilo agora há pouco foi tudo um mal-entendido... Por favor, não peça ao tribunal para cancelar minha representação anterior. O Perez é seu cliente — você é o único advogado dele!
Daniel lançou um olhar para ele sem dizer nada e virou em direção ao corredor das salas de reunião.
Mark grudou nele como um parasita, todo sorrisos, curvando-se e se humilhando.
No corredor, a mente de Daniel correu pelas opções. Quando encontrasse esse Perez, bastava confirmar que o sujeito era mesmo um viciado em drogas; então ele daria meia-volta e iria embora sem dizer uma palavra. Quanto a essa confusão, podia jogar tudo nas costas do idiota atrás dele.
Vindo logo atrás, Mark só tinha um pensamento na cabeça: medo.
Como advogado de rua, Mark normalmente cobrava cem dólares por hora nos casos. Mas o sujeito à sua frente? Formado em Harvard, Pearson, advogado sênior no Kirkland Ellis! Esse tipo de figurão começava em dois mil dólares por hora!
Dois mil dólares! O bastante para comprar a vida dele!
Ao pensar que tinha acabado de zombar de um elite do topo, que ganhava vinte vezes mais do que ele por hora, Mark teve vontade de se dar dois tapas na cara. Agora, sua atitude era de uma servilidade extrema quando correu à frente para abrir a porta da sala de reunião para Daniel, dizendo num tom quase rastejante:
— Doutor Lopez, por favor! Cuidado com a soleira!
