Capítulo 5
— Você não pode ser burro a ponto de tentar vender drogas ilegais pro seu próprio padre.
Na estreita sala de interrogatório da 69ª Delegacia, Daniel estava sentado com os dedos entrelaçados, inclinado um pouco para a frente, encarando Perez à sua frente com uma intensidade intimidante.
— Quarenta e cinco gramas. — Daniel cuspiu o número, com o tom pingando deboche descarado. — Essa quantidade não dá nem pra um viciado de verdade passar o dia, quanto mais pra vender.
Perez manteve a cabeça baixa, sem dizer nada, mas a linha tensa do maxilar o denunciava.
— Então a verdade é bem simples. — Daniel tamborilou de leve os dedos na mesa. — Alguém quer te enfiar na prisão. Mas não quer você lá pelo resto da vida. Uma pena de quinze anos cai como uma luva pra esse senso elevado de “misericórdia” de um padre, não cai?
Ao ouvir a palavra “misericórdia”, o corpo inteiro de Perez estremeceu. Ele ergueu a cabeça num tranco, os lábios se retorcendo num sorriso de escárnio que parecia pior do que chorar.
Perfeito. Os olhos de Daniel faiscaram. A reação confirmava a teoria dele — estava no caminho certo.
— Já que ele armou pra você, a gente vai revidar. — Daniel Lopez lançou seu golpe fatal. — Vamos entrar com uma ação. Vamos processar o seu padre.
Mas o brilho nos olhos de Perez se apagou de novo. Ele murchou na cadeira como um balão furado, a voz rouca:
— Tanto faz. Todo mundo no bairro ama ele mesmo. Eu sou só um punk de rua decadente. Em quem o juiz vai acreditar? E além disso... eu não tenho dinheiro pra te pagar.
— Você recupera sua inocência, a justiça é feita — esse é o único pagamento que eu preciso. — Daniel sustentou o olhar dele.
Perez parou, imóvel. Olhou para aquele jovem advogado e, no coração que tinha virado cinza, pareceu que uma rachadura foi aberta à força. Ele ainda não falou, mas a atitude já não era tão resistente quanto antes.
Já basta. Daniel se recostou na cadeira. Enquanto o cliente não sabotasse ativamente as coisas, ele tinha margem pra trabalhar.
A porta rangeu ao se abrir, e Mark se espremeu para entrar carregando três copos de café fumegantes.
— Sr. Lopez, eu estava pensando... — Mark colocou o café na mesa, esfregando as mãos com uma expressão dolorida. — Será que a gente não pode desistir desse caso? Não tem como a gente ganhar!
— Não. — Daniel pegou o café e deu um gole, dando as ordens com clareza. — Vamos dividir assim: você cuida do processo criminal com o promotor; eu cuido de processar o padre do Perez.
— O quê? — A mão de Mark congelou no ar com o copo, encarando Daniel como se estivesse olhando para um maluco.
...
Dez minutos depois, os dois saíram juntos pelas portas da 69ª Delegacia.
— Você tá brincando, né? Processar o padre George? Aquele cara cuja reputação no bairro é praticamente de santo? — Mark apressou o passo ao lado de Daniel, tagarelando sem parar.
— Eu tenho cara de quem tá brincando? — Daniel parou e se virou para Mark, o olhar afiado. — Escuta, Mark. Seu trabalho é continuar se encontrando com a promotoria — negociar, bancar o fraco, enrolar — usar todo truque jurídico possível pra atrasar o julgamento criminal do Perez.
— E você?
— Aí é o campo de batalha principal. — Daniel olhou para o fim da rua com um sorriso frio. — Eu vou convidar todo mundo do bairro pra assistir à audiência pública. Vou fazer aquele padre George, tão cheio de si, admitir na frente de todo mundo que armou pro Perez!
Mark puxou o ar, assustado:
— Você enlouqueceu! Se ele admitir, vai responder por falso testemunho, falsa acusação e posse ilegal de drogas. Essas três acusações juntas dão no mínimo quinze anos! Por que ele admitiria?
— Esse é o problema que eu tenho que resolver. — Daniel deu um tapinha no ombro de Mark e se virou para seguir pela rua. — Fica no plano.
Vendo Daniel se afastar, Mark engoliu em seco. De repente, percebeu que o parceiro, normalmente discreto, tinha uma veia de loucura de gelar a espinha.
Caminhando sozinho pela rua, Daniel franziu levemente a testa.
Ele sabia perfeitamente o quanto seria difícil fazer o padre George recuar. Tinha confiança absoluta nas próprias habilidades no tribunal, mas a fraqueza fatal era o próprio Perez. Traído pelo padre que ele mais amava, Perez estava no fundo do poço mentalmente — até a fé dele tinha desmoronado. Depois de moê-lo na sala de interrogatório, Daniel só tinha conseguido arrancar um único nome.
Para vencer esse caso e obrigar a promotoria a retirar as acusações, ele estava correndo contra o tempo.
Mas havia outro motivo, ainda mais importante, para ele ter se apressado em sair da delegacia.
Na sua mente, o pacote de presente inicial do “Sistema do Advogado da Justiça” já estava piscando havia um bom tempo.
Como alguém que tinha transmigrado para ali, o conhecimento jurídico acumulado pelo seu antecessor estava longe de ser suficiente para lidar com as intensas batalhas de tribunal que viriam pela frente.
Ele precisava desesperadamente que o sistema lhe desse um empurrão — de preferência, baixando diretamente na sua cabeça a memória completa e a expertise jurídica de um dos melhores formandos de Direito de Harvard.
De volta ao seu apartamento temporário, Daniel entrou no banheiro e lavou as mãos com cuidado.
Ele encarou o vazio à sua frente com a expressão reverente de um fiel à moda antiga, entoando em silêncio: “Um advogado é justiça! Abrir!”
“Ding!”
Um lampejo de luz dourada atravessou sua mente, e um disco fantasmagórico se abriu com um estalo.
[Parabéns, Anfitrião! Você obteve a Função Básica: Perfil Simples (inclui um uso gratuito para o caso atual)]
A reverência no rosto de Daniel congelou na hora, e sua boca se contraiu com força.
Perfil Simples? Esse nome é cafona demais! E as memórias de um gênio de Harvard? E as habilidades de litígio de alto nível?
De cenho franzido, ele abriu a descrição da função.
[Perfil Simples: Uma das funções básicas do sistema. Recupera todas as informações publicamente disponíveis sobre indivíduos relacionados ao caso. Os alvos incluem, mas não se limitam a: juízes, advogados de defesa, promotores, testemunhas e membros do júri.]
Daniel ficou imóvel por três segundos.
Sua mente conectou aquela função, num instante, ao combate real no tribunal.
Se ele tivesse informações completas sobre os jurados... se, durante o julgamento, o outro lado chamasse de repente uma testemunha surpresa e ele pudesse puxar na hora o histórico e as preferências dela...
Aquilo não era só um perfil simples — era visão onisciente dentro do tribunal! O que há de mais assustador num litígio? Lacunas de informação! Agora, qualquer lacuna de informação envolvendo “pessoas” seria completamente eliminada para ele!
“Isso é incrível!”
A expressão de Daniel virou do avesso num segundo, e o desprezo de antes foi varrido. Mas, pensando com calma, apesar de aquela função ser poderosa, ela não parecia fornecer diretamente a prova cabal necessária para reverter o caso atual.
“Um sistema de loteria que nem divulga taxa de drop... o Procon devia fechar vocês”, resmungou Daniel, mas, ainda assim, ativou a interface do sistema.
Diante dos seus olhos surgiu uma interface de sistema negra como breu. Só o segundo ícone, com o rótulo “Perfil Simples”, brilhava de leve; todas as outras funções permaneciam bloqueadas, acinzentadas.
Daniel concentrou os pensamentos e digitou quatro palavras na barra de busca: Padre George.
“Vruum—”
A interface saltou instantaneamente para uma nova página, no estilo de um perfil minimalista de rede social.
No canto superior esquerdo havia uma foto de identificação nítida. O homem branco na foto parecia ter uns trinta e poucos anos, com um sorriso gentil e traços suaves. Seus olhos irradiavam uma força tranquilizadora. Ele realmente tinha um rosto bondoso e compassivo, daqueles que fazem as pessoas se sentirem naturalmente próximas.
Abaixo da foto, havia caixas de informação densamente preenchidas.
Daniel passou os olhos por elas e viu que a maioria era rastro que o Padre George deixara em plataformas sociais públicas como Twitter e Facebook. As seções que envolviam sites fechados e fóruns criptografados mostravam apenas URLs seguidas de espaços negros inacessíveis. Era evidente que, para acessar aquilo, seria preciso desbloquear funções avançadas do sistema.
“Como eu imaginava, o sistema não é onipotente.” Daniel se sentiu um pouco decepcionado. Essas informações públicas poderiam ser desenterradas por qualquer hacker competente ou investigador particular, desde que tivesse tempo suficiente.
Com paciência, ele desviou o olhar das longas postagens de redes sociais e voltou para a foto no canto superior esquerdo.
À direita da foto havia uma biografia pessoal do Padre George. As primeiras linhas eram elogios vazios, sem sustância, como “excelente graduado do seminário” e “estrela da caridade comunitária”.
No entanto, quando os olhos de Daniel chegaram à última linha da biografia, seu corpo — que estava recostado com preguiça — se endireitou de repente!
Suas pupilas se contraíram bruscamente enquanto ele encarava aquela linha, fixo, sem piscar!
