Capítulo 1: A Folha de Prata

Capítulo 1: A Folha de Prata

Os dedos de Aria Blackwood dançavam pelas cordas de seu violão surrado, extraindo uma melodia que parecia cintilar no ar fresco do outono. As notas se elevavam acima do barulho da movimentada rua da cidade, entrelaçando-se entre as buzinas e o burburinho dos transeuntes. Uma pequena multidão havia se reunido ao redor dela, atraída pela melodia assombrosa que falava de mundos ocultos e magia antiga.

Quando o último acorde se desfez, Aria abriu os olhos, momentaneamente desorientada. Por um breve instante, ela poderia jurar que os prédios cinzentos e monótonos estavam banhados por uma luz de outro mundo, suas bordas suavizadas e cintilantes como uma miragem. Ela piscou, e a visão desapareceu, deixando apenas a sujeira familiar da cidade.

Uma salva de palmas esparsa a trouxe de volta à realidade. Algumas moedas tilintaram em seu estojo de violão aberto, acompanhadas por murmúrios de elogios enquanto a audiência improvisada se dispersava. Aria esboçou um sorriso cansado, seu olhar alternando entre os ganhos escassos e a placa de "Quartos para Alugar" na vitrine de uma loja próxima.

"Não é suficiente," ela murmurou, escorregando contra a parede de tijolos atrás dela. "Nem de longe é suficiente."

O sol estava se pondo no horizonte, pintando o céu em tons de laranja e roxo. Aria sabia que deveria arrumar suas coisas e ir para casa, mas a ideia de voltar para o pequeno e apertado apartamento que dividia com sua irmã Melody a enchia de pavor. Outra noite procurando algo para jantar, outra discussão sobre contas que não podiam pagar.

Ela suspirou, passando a mão pelo cabelo escuro e embaraçado. "Mais uma música," Aria decidiu, endireitando-se e reposicionando o violão. "Talvez desta vez..."

Seus dedos mal haviam tocado as cordas quando uma rajada de vento varreu a rua, trazendo consigo o cheiro de chuva e algo mais—algo selvagem e verde que parecia fora de lugar no coração da cidade. A cabeça de Aria se ergueu de repente, seus olhos se arregalando ao avistar uma figura se aproximando pela multidão que se dispersava.

O estranho parecia deslizar em vez de andar, cada movimento fluido e gracioso. Aria não conseguia focar direito nas feições; toda vez que tentava, sua visão parecia embaçar e mudar. Mas os olhos—os olhos ela podia ver claramente. Eram de um tom impossível de violeta, brilhando com uma luz interna que enviava um arrepio pela sua espinha.

À medida que a figura se aproximava, o ar ao redor de Aria parecia engrossar, carregado com uma energia que ela não conseguia nomear. Seu coração disparou, cada instinto gritando para ela correr, se esconder, se afastar o máximo possível desse estranho belo e aterrorizante. Mas ela permaneceu enraizada no lugar, suas mãos agarrando o violão como uma tábua de salvação.

O estranho parou diretamente na frente dela, imponente sobre a forma sentada de Aria. De perto, ela podia distinguir mais detalhes—os ângulos afiados de um rosto que não era exatamente masculino nem feminino, o brilho do tecido que parecia ser tecido da própria luz do luar. Quando o estranho falou, sua voz era como música, baixa e melodiosa.

"Você toca lindamente, pequeno passarinho," disse o estranho, com um sotaque que Aria não conseguia identificar. "Tal talento merece uma recompensa adequada."

Antes que Aria pudesse responder, o estranho estendeu uma mão pálida e esguia. Algo brilhou entre seus dedos—uma folha, ela percebeu, mas diferente de qualquer folha que já tinha visto. Era perfeitamente formada, suas bordas delicadamente serrilhadas, e brilhava com uma luz prateada que pulsava no ritmo de seu coração acelerado.

"Eu... obrigada," Aria conseguiu balbuciar, hesitante ao estender a mão para aceitar o presente. Quando seus dedos tocaram a folha, um choque elétrico percorreu seu braço. Por um momento, o mundo ao seu redor pareceu se torcer e distorcer, revelando vislumbres de paisagens impossíveis e criaturas que desafiavam a descrição.

Ela piscou forte, e tudo voltou ao foco. O estranho havia desaparecido como se nunca tivesse estado ali. Apenas a folha prateada permanecia, fria e incrivelmente leve em sua palma.

Aria a encarou, sua mente girando. O que acabara de acontecer? Quem era aquela pessoa estranha e bela? E por que ela tinha a sensação de que sua vida acabara de mudar irrevogavelmente?

Um trovão distante a tirou de seu transe. Nuvens escuras se acumulavam no céu, prometendo uma tempestade. Aria rapidamente guardou seu violão, colocando a folha prateada cuidadosamente no bolso. Enquanto corria para casa, as primeiras gotas grossas de chuva começaram a cair, e ela não conseguia se livrar da sensação de que olhos invisíveis observavam cada um de seus movimentos.


O apartamento estava escuro quando Aria entrou, tateando em busca do interruptor. Um brilho suave iluminou o pequeno espaço, revelando papel de parede descascado e um sofá afundado que já tinha visto dias melhores. Mas era seu lar, para o bem ou para o mal.

"Mel?" Aria chamou, colocando o estojo do violão perto da porta. "Você está aí?"

Um gemido abafado vindo do quarto foi sua única resposta. Franziu a testa e seguiu pelo curto corredor, espiando o quarto que dividia com sua irmã.

Melody estava encolhida na cama, um emaranhado de cobertores envolvia sua figura esguia. Aos dezesseis anos, ela era a imagem cuspida de Aria naquela idade—toda pernas longas e cabelo selvagem, com o mesmo queixo teimoso. Mas agora, seu rosto estava pálido e abatido, um brilho de suor visível em sua testa.

"Ei, você está bem?" Aria perguntou, sentando-se na beira da cama. Ela pressionou a mão na testa de Melody, sibilando ao sentir o calor. "Nossa, Mel, você está pegando fogo."

Os olhos de Melody se abriram, vidrados e desfocados. "Aria?" ela murmurou. "Quando você voltou?"

"Agora mesmo. O que aconteceu? Você estava bem de manhã."

Melody balançou a cabeça fracamente. "Não sei. Me senti bem na escola, mas no caminho de volta..." Ela parou, franzindo a testa. "Havia algo. Uma folha, acho? Prateada. Era tão bonita, eu a peguei, e então..." Ela gesticulou vagamente para si mesma. "Isso."

O sangue de Aria gelou. Lentamente, ela enfiou a mão no bolso e retirou a folha prateada que o estranho lhe dera. "Mel," ela disse cuidadosamente, "parecia com esta?"

Os olhos de Melody se arregalaram, e ela assentiu. "Sim, exatamente assim. Onde você—"

Mas Aria não estava ouvindo. Sua mente estava a mil, conectando pontos que ela nem tinha percebido que estavam lá. O cliente estranho, a folha, a doença repentina de Melody—não podia ser coincidência. Algo estava muito, muito errado.

"Precisamos te levar a um médico," Aria disse, levantando-se abruptamente. "Vamos, eu te ajudo a levantar."

Melody balançou a cabeça teimosamente. "Sem médicos," ela insistiu. "Não podemos pagar, e você sabe disso. Eu vou ficar bem, só preciso dormir."

Aria queria argumentar, mas sabia que sua irmã estava certa. Suas economias já estavam no limite. Uma ida ao pronto-socorro as deixaria completamente sem dinheiro.

"Ok," ela disse relutantemente. "Mas se você não melhorar até de manhã, nós vamos. Não me importa se eu tiver que implorar, pedir emprestado ou roubar para pagar."

Melody conseguiu esboçar um sorriso fraco. "Minha irmã mais velha, a mente criminosa. O que eu faria sem você?"

Aria forçou uma risada, tentando esconder o medo que corroía por dentro. "Provavelmente se meteria em ainda mais encrenca. Agora descanse, ok? Vou trazer água e biscoitos daqui a pouco."

Quando ela se virou para sair, Melody segurou sua mão. "Aria? Você pode tocar para mim? Como fazia quando éramos crianças?"

Por um momento, Aria foi transportada de volta à casa de infância, para noites passadas juntas durante tempestades, seus dedos desajeitados dedilhando melodias simples para distrair sua irmãzinha do barulho. Tanta coisa havia mudado desde então, mas algumas coisas permaneciam as mesmas.

"Claro," ela disse suavemente. "Deixe-me pegar meu violão."

Alguns minutos depois, Aria estava sentada na beira da cama, seu violão acústico surrado no colo. Ela começou a tocar, uma canção de ninar suave que sua mãe havia lhe ensinado há muito tempo. À medida que as notas familiares preenchiam o pequeno quarto, ela viu parte da tensão deixar o corpo de Melody.

Aria cantou baixinho, sua voz se misturando ao violão em perfeita harmonia. Enquanto fazia isso, sentiu aquela mesma energia estranha de antes começar a se acumular ao seu redor. O ar parecia engrossar, cintilando levemente nas bordas de sua visão. E por baixo de tudo, havia um toque daquele cheiro selvagem e verde que havia anunciado a chegada do estranho misterioso.

Os olhos de Melody se fecharam, sua respiração se tornando lenta e regular. Mas enquanto Aria observava, um brilho suave começou a emanar da pele de sua irmã. Ele pulsava no ritmo da música, ficando mais forte a cada momento que passava.

Alarmada, os dedos de Aria vacilaram nas cordas. O brilho imediatamente começou a desaparecer, e Melody se mexeu inquieta em seu sono. Com o coração disparado, Aria se forçou a continuar tocando, observando com uma mistura de fascinação e terror enquanto a luz estranha retornava.

O que estava acontecendo? Ela estava causando isso de alguma forma? E mais importante, isso estava ajudando Melody ou a machucando?

Aria tocou até seus dedos doerem, até a primeira luz da aurora começar a penetrar pelas cortinas puídas. Só então ela colocou o violão de lado, sua mente girando com perguntas que não sabia como responder.

Ela se levantou, alongando músculos rígidos de horas sentada. Melody dormia pacificamente, sua febre aparentemente quebrada. Mas a lembrança daquele brilho de outro mundo persistia, um lembrete de que algo fundamental havia mudado em seu mundo.

Aria foi até a minúscula cozinha, mecanicamente passando pelos movimentos de fazer café. Quando a cafeteira antiga começou a funcionar, ela se encostou no balcão, seu olhar atraído pela folha prateada que agora repousava inocentemente na mesa.

Na luz dura da manhã, ela parecia quase comum. Mas enquanto Aria observava, poderia jurar que a viu pulsar uma vez, um breve clarão de luz prateada que desapareceu tão rapidamente quanto apareceu.

Ela a pegou com cuidado, virando-a nas mãos. Parecia errada de alguma forma, perfeita demais para ser natural. E ainda assim, havia algo inegavelmente belo nela, uma simetria que falava de significados ocultos e segredos antigos.

Os dedos de Aria coçavam para tocar as cordas do violão, para ver se conseguia recriar a estranha magia da noite anterior. Mas o medo a segurava. E se ela piorasse as coisas? E se atraísse a atenção da força que lhe deu a folha em primeiro lugar?

A cafeteira borbulhou ao terminar, assustando-a de seu devaneio. Aria serviu-se de uma xícara, o aroma familiar a ancorando na realidade. Ela precisava pensar, planejar. Melody podia estar se sentindo melhor, mas Aria não conseguia se livrar da sensação de que isso era apenas o começo de seus problemas.

Ela precisava de respostas, e precisava delas rápido. Mas onde poderia começar a procurar? Não era como se pudesse procurar no Google "folhas prateadas mágicas e irmãs brilhantes", afinal.

Enquanto tomava seu café, uma conversa meio lembrada veio à tona em sua mente. Palavras sussurradas em um bar sujo, um amigo de um amigo que conhecia alguém que lidava com... problemas incomuns. Uma bruxa de cerca-viva, a chamavam, embora Aria tivesse descartado como bobagem de bêbado na época.

Agora, porém? Agora ela estava pronta para acreditar em quase qualquer coisa.

Aria colocou sua caneca na mesa com um som decisivo. Ela verificaria Melody, se certificaria de que ela estava realmente melhorando. E então ela se aventuraria nos cantos escondidos da cidade, procurando a bruxa que poderia lançar alguma luz sobre a situação impossível em que se encontravam.

Quando ela se virou para voltar ao quarto, um movimento captou seu olhar. Por um momento, ela poderia jurar que viu um rosto espiando pela janela—belo, inumano, com olhos que brilhavam em um tom impossível de violeta.

Aria piscou, e ele desapareceu. Mas a sensação de estar sendo observada, de estar à beira de algo vasto e desconhecido, permaneceu.

O que quer que estivesse acontecendo, qualquer que fosse a força que havia entrado em suas vidas, Aria sabia uma coisa com certeza: nada jamais seria o mesmo novamente.

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