Capítulo 2: A bruxa Hedge
Capítulo 2: A Bruxa do Jardim
As ruas da cidade assumiam um caráter diferente na luz pálida do amanhecer. Sombras permaneciam nos becos, e o ar tinha um frio que anunciava a chegada do inverno. Aria puxou seu casaco surrado mais apertado em volta de si enquanto apressava-se pelas ruas quase desertas, sua respiração formando pequenas nuvens à sua frente.
O endereço que ela procurava ficava em uma das partes mais antigas da cidade, onde ruas estreitas de paralelepípedos serpenteavam entre prédios que existiam há séculos. Ao virar em um beco mal largo o suficiente para duas pessoas caminharem lado a lado, Aria não conseguia se livrar da sensação de que estava entrando em um mundo completamente diferente.
No final do beco havia uma pequena loja, suas janelas empoeiradas e opacas. Uma placa desbotada pendia acima da porta, as palavras "Curiosidades de Madame Thorne" mal legíveis sob anos de sujeira. Aria hesitou, sua mão pairando sobre a maçaneta de latão manchada. Ela realmente ia fazer isso? Procurar uma autoproclamada bruxa baseada em nada mais do que uma conversa bêbada e seu próprio desespero crescente?
A lembrança do rosto febril de Melody e o brilho estranho que a cercava fortaleceram a determinação de Aria. Ela respirou fundo e empurrou a porta, um pequeno sino tilintando acima para anunciar sua chegada.
O interior da loja era mal iluminado e desordenado, cada superfície disponível coberta com uma variedade eclética de objetos. Cristais brilhavam opacamente ao lado de livros antigos encadernados em couro, enquanto ervas pendiam em cachos do teto baixo, enchendo o ar com um cheiro pungente e terroso. Os olhos de Aria foram atraídos para uma vitrine de vidro nos fundos, onde uma coleção de folhas de prata, idênticas à que estava em seu bolso, estavam dispostas em padrões intrincados.
"Bem, bem," uma voz rouca chamou das sombras. "O que traz uma criança de dois mundos à minha humilde loja?"
Aria girou, seu coração disparado. Uma velha mulher emergiu de trás de uma cortina de contas, seus olhos afiados e conhecedores em um rosto marcado pela idade. Ela se apoiava pesadamente em uma bengala de madeira retorcida, mas não havia nada de frágil na maneira como se portava.
"Eu não... quer dizer, não sei do que você está falando," Aria gaguejou. "Você é Madame Thorne?"
Os lábios da velha se curvaram em um sorriso irônico. "Já me chamaram assim, sim. Entre outras coisas. Mas a verdadeira questão é, quem é você? E que problema você trouxe à minha porta?"
Aria hesitou, de repente incerta sobre como explicar a série bizarra de eventos que a levaram até ali. Finalmente, ela enfiou a mão no bolso e retirou a folha de prata, estendendo-a para Madame Thorne. "Me deram isso," ela disse. "E agora minha irmã está doente, e coisas estranhas estão acontecendo, e eu não sei o que fazer."
Os olhos de Madame Thorne se arregalaram ao ver a folha. Ela a arrancou da mão de Aria com surpreendente rapidez, virando-a em seus dedos nodosos. "Menina tola," ela murmurou. "Você não sabe que não se deve aceitar presentes do Povo das Fadas?"
"O Povo das Fadas?" Aria repetiu, confusa. "Você quer dizer... fadas?"
Madame Thorne a fitou com um olhar fulminante. "Não as coisinhas bonitinhas das suas histórias de infância, menina. Os Fae. Antigos, poderosos e perigosos além da sua imaginação." Ela gesticulou para a vitrine de folhas de prata. "Esses são símbolos do reino deles. Pontes entre mundos. E você abriu uma porta que não sabe como fechar."
A mente de Aria girava, lutando para processar essa informação. Parte dela queria rir, descartar tudo como delírios de uma louca. Mas outra parte, a parte que tinha visto sua irmã brilhar com uma luz sobrenatural, sabia que estava ouvindo a verdade.
"O que eu posso fazer?" ela perguntou, sua voz mal acima de um sussurro. "Como eu protejo minha irmã?"
Madame Thorne a estudou por um longo momento, seu olhar parecendo perfurar a alma de Aria. Finalmente, ela assentiu, aparentemente chegando a uma decisão. "Venha," ela disse, virando-se de volta para a cortina de contas. "Temos muito a discutir e pouco tempo para fazê-lo."
Aria seguiu a velha mulher para um cômodo nos fundos que era marcadamente diferente da loja desordenada. Aqui, tudo estava meticulosamente organizado. Prateleiras alinhavam as paredes, cheias de frascos com substâncias misteriosas e livros cujos títulos Aria não conseguia ler. No centro da sala havia uma grande mesa de madeira, sua superfície esculpida com símbolos intrincados.
Madame Thorne se acomodou em uma cadeira de encosto alto, gesticulando para Aria sentar-se em frente a ela. "Muito bem," ela disse, colocando a folha de prata na mesa entre elas. "Conte-me tudo. Não deixe nada de fora, por mais estranho ou insignificante que possa parecer."
Então Aria contou. Ela falou sobre o estranho etéreo que lhe deu a folha, sobre a súbita doença de Melody e sobre o estranho brilho que cercou sua irmã enquanto Aria tocava. Enquanto ela falava, a expressão de Madame Thorne se tornava cada vez mais grave.
"Você tem um dom," disse a velha mulher quando Aria terminou. "Um toque dos Fae no seu sangue, embora você não soubesse. É por isso que você pôde ver através do glamour, por que sua música tem poder. Mas também é por isso que você está em perigo."
"Perigo?" Aria repetiu, um calafrio percorrendo sua espinha. "De quê?"
"Dos próprios Fae," respondeu Madame Thorne. "Eles não gostam de humanos com poder. Alguns podem tentar usá-la, outros destruí-la. E ao aceitar aquela folha, você chamou a atenção de alguém muito poderoso."
Os pensamentos de Aria corriam, lembrando dos olhos violetas do estranho que lhe deu a folha. "O que eles querem comigo?"
Madame Thorne balançou a cabeça. "Isso, eu não posso dizer. Os motivos dos Fae muitas vezes estão além da compreensão mortal. Mas posso lhe dizer isto: a doença da sua irmã não é coincidência. A folha está drenando a força vital dela, usando-a para fortalecer a conexão entre nosso mundo e o deles."
O horror tomou conta de Aria. "Como eu paro isso?"
"Você não pode, não completamente," disse Madame Thorne. "Uma vez que uma conexão é forjada, nunca pode ser totalmente rompida. Mas podemos enfraquecê-la, proteger sua irmã dos piores efeitos."
Ela se levantou, movendo-se para uma das prateleiras e selecionando um pequeno pote de cerâmica. "Este unguento contém ervas de ambos os nossos mundos," ela explicou, colocando-o na mesa. "Unte a testa, as mãos e os pés da sua irmã com ele todas as noites. Isso ajudará a estabilizar a energia dela e a retardar a drenagem da folha."
Aria estendeu a mão para pegar o pote, mas a mão de Madame Thorne disparou, segurando seu pulso com uma força surpreendente. "Seja avisada," disse a velha mulher, sua voz baixa e intensa. "Usar isso vai torná-la mais visível para os Fae. Eles sentirão a magia e virão procurar sua fonte."
"Eu não me importo," disse Aria ferozmente. "Farei o que for preciso para proteger Melody."
Madame Thorne assentiu, soltando seu pulso. "Como desejar. Mas você deve estar preparada. O conhecimento é sua melhor defesa contra o Povo das Fadas. Você deve aprender a guardar suas palavras, pois eles podem torcer qualquer promessa ou acordo a seu favor. Nunca lhes dê seu nome completo e nunca, jamais, os agradeça diretamente."
A cabeça de Aria girava com esse influxo de informações. Tudo parecia tão surreal, como algo saído de um romance de fantasia. E ainda assim, ela sabia instintivamente que cada palavra era verdade.
"E a minha música?" ela perguntou. "Você disse que eu tenho um dom. Posso usá-lo para me proteger?"
Uma faísca de aprovação iluminou os olhos de Madame Thorne. "Menina esperta. Sim, sua música pode ser uma ferramenta poderosa. Pode acalmar ou agitar, revelar ou ocultar. Mas tenha cuidado. Quanto mais você a usar, mais forte se torna a conexão com o reino dos Fae. É uma espada de dois gumes."
Aria assentiu, sua mente já correndo com possibilidades. Ela pensou na canção de ninar que tocara para Melody, na forma como o ar cintilava enquanto ela cantava. Se pudesse aprender a controlar esse poder...
"Vou ter cuidado," ela prometeu. "Há mais alguma coisa que eu deva saber?"
A expressão de Madame Thorne voltou a ficar grave. "Apenas isto: os Fae são regidos por leis e costumes antigos. Eles não podem mentir descaradamente, mas são mestres da enganação e do desvio. Não confie em nada do que dizem ou fazem pelo valor aparente. E acima de tudo, lembre-se de que o reino deles opera com regras diferentes das nossas. O tempo passa de maneira diferente lá, e o que parece minutos pode ser dias ou até anos no nosso mundo."
Um calafrio percorreu a espinha de Aria ao pensar nisso. Ela imaginou voltar para casa e encontrar Melody envelhecida, ou a cidade mudada além do reconhecimento. "Como evito ser presa lá?"
"Ferro," disse Madame Thorne, movendo-se para outra prateleira e selecionando um pequeno pingente. "É anátema para a maioria dos Fae. Use isso o tempo todo. Não impedirá que eles a levem se estiverem determinados, mas tornará mais difícil, e ajudará você a resistir ao encanto do reino deles."
Ela pressionou o pingente na mão de Aria. Era um design simples, um pequeno disco de ferro gravado com símbolos desconhecidos, pendurado em um cordão de couro. Assim que os dedos de Aria se fecharam ao redor dele, ela sentiu uma sutil mudança no ar ao seu redor, como se um véu que ela não sabia que estava lá tivesse sido parcialmente levantado.
"Obrigada," ela começou, mas se conteve, lembrando do aviso de Madame Thorne. "Quer dizer, eu aprecio sua ajuda."
Os lábios da velha mulher se curvaram em um pequeno sorriso. "Você aprende rápido. Isso é bom. Você precisará de toda vantagem nos dias que virão."
Aria colocou o pingente sobre a cabeça, escondendo-o sob a camisa. O peso dele contra sua pele era reconfortante, um lembrete tangível de que ela não estava completamente indefesa contra o estranho novo mundo no qual havia tropeçado.
"O que eu faço agora?" ela perguntou, de repente se sentindo muito jovem e completamente fora de sua profundidade.
A expressão de Madame Thorne suavizou ligeiramente. "Vá para casa. Cuide de sua irmã. Pratique sua música, mas esteja atenta aos seus efeitos. E observe. Os Fae são atraídos por espaços liminares—crepúsculo, encruzilhadas, as bordas das coisas. Você começará a ver sinais de sua presença agora que sabe o que procurar."
Ela fixou Aria com um olhar penetrante. "Mas, mais importante, esteja preparada. Aquele que lhe deu essa folha vai voltar. Eles a marcaram, reivindicaram você de alguma forma. Quando eles vierem, você terá uma escolha a fazer. Escolha sabiamente, pois o destino de mais do que apenas você pode estar em jogo."
Aria engoliu em seco, assentindo. Ela pegou o pote de unguento e se levantou, de repente ansiosa para voltar para Melody. Quando se virou para sair, um pensamento a atingiu. "Espere," ela disse, virando-se de volta para Madame Thorne. "Quanto eu devo por tudo isso?"
A velha mulher acenou com a mão de forma displicente. "Considere isso um investimento no futuro. Mas se você insistir em pagamento..." Seus olhos brilharam com um toque de malícia. "Uma canção. Não agora, mas algum dia, quando você tiver dominado seu poder. Gostaria de ouvir como a música soa quando faz a ponte entre dois mundos."
Aria conseguiu esboçar um pequeno sorriso. "Seria uma honra," ela disse, e realmente sentia isso.
Enquanto ela fazia seu caminho de volta pela loja desordenada, a voz de Madame Thorne chamou uma última vez. "Lembre-se, criança. Conhecimento é poder, mas também é um fardo. O reino dos Fae é belo além da imaginação, mas também é perigoso. Não se deixe seduzir por ele."
Com essas palavras ominosas ecoando em seus ouvidos, Aria saiu para o beco. O sol já havia nascido completamente, banhando a cidade em uma luz dourada que parecia lavar um pouco da estranheza da última hora. Mas enquanto ela apressava-se para casa, o peso do pingente de ferro contra seu peito lembrava-a de que nada jamais seria verdadeiramente normal novamente.
Sua mente corria com tudo o que havia aprendido, com a enormidade da tarefa que tinha pela frente. Proteger Melody, se guardar contra os Fae, dominar suas novas habilidades—parecia impossível. E ainda assim, enquanto ela segurava o pote de unguento perto do coração, Aria sentiu uma determinação feroz enraizar-se dentro dela.
O que quer que viesse a seguir, quaisquer desafios que o reino dos Fae pudesse lançar contra ela, ela os enfrentaria de frente. Por Melody, por si mesma, e pela música que agora cantava em suas veias com um poder que ela estava apenas começando a entender.
As ruas da cidade pareciam diferentes agora, cheias de perigos ocultos e maravilhas potenciais. Enquanto Aria navegava pelas multidões da manhã, seus sentidos estavam alertas para qualquer sinal do sobrenatural. Um flash de cor impossível em uma vitrine, um fragmento de melodia que parecia vir de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo—o mundo estava se transformando diante de seus olhos, revelando seu coração secreto.
E em algum lugar lá fora, ela sabia, olhos violetas estavam observando, esperando o momento para atraí-la mais profundamente em um jogo cujas regras ela estava apenas começando a compreender.
