Capítulo 2 A descoberta
Alex, o mais velho dos trigêmeos, era inteligente. Inteligente demais para uma criança de cinco anos, segundo seus professores.
Ele conseguia ler livros que crianças com o dobro da idade dele não entendiam. Conseguia fazer contas de cabeça mais rápido do que crianças com calculadoras. Conseguia se lembrar de absolutamente tudo o que ouvia, como se o cérebro dele fosse um computador que nunca apagava arquivos.
Foi por isso que Alex foi quem encontrou aquilo.
Era a manhã seguinte ao sonho com o avião. Molly estava no banho, e as crianças deveriam estar assistindo desenhos animados. Mas Alex se entediava com desenhos. Em vez disso, entrou no quarto da mãe.
A bolsa dela estava no chão, ainda sem desfazer desde o voo. Alex só estava curioso. Ele gostava de olhar as coisas e descobrir como funcionavam.
Dentro da bolsa, encontrou papéis. Papéis velhos, amarelados e enrugados. Documentos do hospital da cidade da família May. Prontuários médicos. Certidões de nascimento.
Os dedinhos de Alex seguiram as palavras. Ele não conseguia ler tudo, mas conseguia ler o bastante.
Pai: Desconhecido
Mãe: Molly May
Data de nascimento: [data exata de cinco anos atrás]
Mas havia mais uma coisa. No verso de um dos papéis, havia um nome escrito à caneta. Uma caligrafia que parecia ter sido feita com raiva ou dor — trêmula e pesada.
Sean Anderson
— Ben! Claudia! Venham aqui! — Alex chamou.
O irmão e a irmã vieram correndo. Claudia estava chupando o dedo, o que significava que ainda estava com sono. Ben estava com a boca toda suja de chocolate do café da manhã.
— O que foi? — Ben perguntou.
— Olhem isso — disse Alex, erguendo os papéis. Mesmo tendo só cinco anos, ele tinha um jeito de falar como se fosse muito mais velho. — A mamãe nunca contou para a gente quem é o nosso pai. Nestes papéis está escrito “pai desconhecido”. Mas alguém escreveu um nome no verso.
Ben se inclinou e leu o nome em voz alta.
— Sean Anderson.
— Quem é Sean Anderson? — Claudia perguntou, tirando o dedo da boca.
— Esse é o nosso pai — Alex disse, simplesmente. — A mamãe só não contou para a gente sobre ele.
As três crianças se entreolharam. Ainda não sabiam, mas tinham acabado de dar início a algo que mudaria tudo.
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Três dias depois, depois que se mudaram para o pequeno apartamento alugado em Northfolk, Alex fez algo muito inteligente.
Usou o computador da mãe enquanto ela estava no trabalho.
Digitou “Sean Anderson Northfolk” no mecanismo de busca, e os resultados apareceram imediatamente. Havia centenas de Sean Andersons, mas só um importava. Só um fazia sentido.
Sean Anderson. CEO da Anderson Industries. Um dos homens mais ricos do país inteiro.
O computador mostrou uma foto. Um homem alto, de cabelos escuros e traços marcantes. Vestia um terno que provavelmente custava mais do que Molly ganhava em um mês. Seu rosto era frio e sério, como se ele não sorrisse muito.
— É ele — Alex sussurrou para Ben e Claudia, que estavam de cada lado da cadeira dele. — Esse é o nosso pai.
— Ele parece malvado — disse Claudia.
— Ele parece rico — disse Ben, o que, naquele momento, era mais importante para ele.
—Ele se parece com a gente —disse Alex. E era verdade. Se você olhasse com atenção para a foto, dava para ver traços dos três filhos no rosto daquele homem. O formato dos olhos. A cor do cabelo. O jeito como o queixo era desenhado.
Alex imprimiu as informações. Depois apagou o histórico de pesquisa para a mãe não descobrir.
—A gente tem que encontrar com ele —disse Alex. Não era uma sugestão. Era um fato, do jeito que ele falou.
—Mas a mamãe disse pra não falar com estranhos —disse Claudia, mordendo o lábio de baixo, nervosa.
—Ele não é um estranho —disse Alex. —Ele é o nosso pai. E eu acho que ele não sabe da gente. Acho que a mamãe nunca contou pra ele.
Os olhos de Ben se arregalaram.
—Talvez ele queira conhecer a gente! Talvez ele fique feliz!
—Ou talvez ele fique com raiva porque a mamãe manteve a gente longe dele —disse Alex, sempre pensando três passos à frente. —Mas a gente precisa saber. E precisa fazer isso sem contar pra mamãe. Ainda não.
Naquela noite, depois que Molly pegou no sono, as três crianças cochicharam juntas no escuro.
—Como a gente acha ele? —perguntou Claudia.
—O escritório dele fica no Anderson Building, no centro —disse Alex. —É na região comercial. Eu vi o endereço no site.
—A gente não pode simplesmente entrar lá —disse Ben. —A gente é pequeno demais. Eles não vão deixar a gente ver ele.
Alex ficou em silêncio por um momento. Então disse:
—A gente vai dar um jeito. A gente sempre dá.
E eles dariam um jeito. Mas, primeiro, precisavam chegar ao escritório dele sem a mãe saber.
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Na tarde seguinte, Molly disse às crianças que teria que trabalhar até mais tarde. Deixou os três num programa de atividades depois da escola e beijou cada um antes de ir embora.
—Comportem-se —disse ela. —Eu pego vocês às seis.
No instante em que o carro dela sumiu na esquina, Alex colocou o plano em ação.
As três crianças esperaram até a coordenadora do programa estar ocupada com outras, e então escaparam pela porta dos fundos. Elas tinham praticado isso. Sabiam exatamente como fazer.
O centro de Northfolk era enorme e assustador, cheio de prédios altos que tocavam o céu. As crianças tiveram que andar por vinte minutos até encontrar o Anderson Building. As perninhas deles se cansaram, e Ben começou a reclamar que os pés doíam.
—Continua —disse Alex. —A gente já está chegando.
Quando finalmente viram o prédio, pararam e ficaram olhando. Era o mais alto da rua. Vidro e aço, brilhante, importante. Havia gente de terno por toda parte, andando depressa e com cara de quem estava ocupada.
—E agora? —sussurrou Claudia.
Alex respirou fundo.
—A gente entra e procura ele.
Eles atravessaram juntos as portas de vidro: três crianças pequenas cercadas por adultos altos em roupas caras. Ninguém prestou atenção neles. As pessoas estavam ocupadas demais com a própria vida.
O elevador era prateado e brilhante. Alex apertou o botão do último andar. Quando as portas se fecharam, Ben sussurrou:
—E se ele for mal com a gente?
—Aí a gente vai saber —disse Alex. —E pelo menos vai saber a verdade.
O elevador subiu, subiu, subiu.
E quando as portas se abriram no último andar, as três crianças saíram para o escritório do pai delas —um homem que nem fazia ideia de que elas existiam.
