Capítulo 3 Cara a cara
O último andar da Anderson Industries não tinha nada a ver com o pequeno apartamento onde os trigêmeos moravam.
Tudo era branco, cinza e prateado. As paredes eram de vidro. Os móveis pareciam ter sido projetados por alguém que achava que conforto era menos importante do que parecer caro. Havia uma mesa enorme onde uma mulher de lábios vermelhos e coque bem apertado estava sentada, digitando muito rápido no computador.
A mulher não reparou nas três crianças pequenas de início.
— Com licença — disse Alex, usando a voz mais adulta que conseguia. — Gostaríamos de ver o senhor Sean Anderson.
A mulher ergueu os olhos. Eles se arregalaram. Ela olhou para as crianças como se tivessem surgido do nada por mágica.
— Seus pais sabem que vocês estão aqui? — perguntou.
— Precisamos ver o senhor Anderson — repetiu Alex. Ele não respondeu à pergunta.
A mulher se levantou.
— Vocês não podem simplesmente entrar aqui. Este é um escritório particular. Como é que vocês...?
— O senhor Anderson está no escritório dele? — interrompeu Ben, apontando para a grande porta de madeira atrás da mesa dela.
— Não, vocês não podem...
Mas Alex já estava indo em direção à porta.
— Espera! Para! — disse a mulher, contornando a mesa. Mas ela era lenta, e as crianças eram rápidas e pequenas.
Alex empurrou a porta e a abriu.
Lá dentro havia um escritório amplo, com janelas que mostravam a cidade inteira. E, sentado atrás de uma mesa enorme coberta de papéis, estava o homem da fotografia.
Sean Anderson.
Ele levantou os olhos do trabalho. Seus olhos eram frios e escuros como um lago congelado. Por um momento, não disse nada. Apenas encarou as três crianças como se fossem um problema que ele precisava resolver.
— Quem diabos deixou vocês entrarem aqui? — ele disse.
— Nós mesmos — respondeu Alex com calma. — Meu nome é Alex. Este é meu irmão Ben e minha irmã Claudia. Nós achamos que o senhor é o nosso pai.
O rosto de Sean Anderson não mudou. Nem um pouco. Ele só ficou encarando os três com aqueles olhos gelados.
— Saiam do meu escritório — disse. Sua voz era baixa, mas muito séria. — Agora.
— A gente não vai embora até o senhor nos ouvir — disse Alex. Ele era pequeno e tinha cinco anos, mas soou mais velho. Soou como alguém que dizia aquilo com convicção.
Sean se recostou na cadeira.
— Eu não sei quem vocês são e não me importo. Seus pais mandaram vocês aqui para me passar a perna, não foi? Eu já vi isso antes. Gente pobre trazendo os filhos para gente rica e pedindo dinheiro. Pois não vai funcionar. Segurança!
Ele apertou um botão na mesa.
— O senhor não conhece a nossa mãe — disse Alex depressa, antes que a segurança chegasse. — O nome dela é Molly May. O senhor a conheceu seis anos atrás.
Algo tremeluzia nos olhos de Sean. Algo que parecia reconhecimento. Mas desapareceu tão rápido que talvez as crianças tivessem imaginado.
— Eu nunca ouvi falar de uma Molly May — disse Sean. Sua voz estava mais dura agora, como se ele estivesse mentindo.
— Claro que ouviu — disse Ben. Ele estava segurando um pedaço de papel — aquele com o nome de Sean escrito no verso do documento do hospital. Ele o ergueu.
O corpo inteiro de Sean ficou rígido. Ele arrancou o papel da mão de Ben.
— Onde vocês conseguiram isso? — exigiu ele.
— Da bolsa da mamãe — Claudia respondeu com honestidade.
Dois seguranças haviam chegado, mas Sean ergueu a mão.
— Esperem do lado de fora — disse a eles. — Fechem a porta.
Quando ficaram sozinhos de novo, Sean olhou para o papel por um longo tempo. Seu maxilar estava muito tenso. Um músculo em sua bochecha se mexia sem parar, como se ele estivesse com raiva, com medo, ou os dois.
— Isso não prova nada — disse ele por fim. — Isso pode ser falso. Vocês mesmos podem ter escrito esse nome.
— Nós temos cinco anos — disse Alex. — Mal sabemos escrever. E olha pra gente. Olha de verdade.
Sean olhou para as crianças. Olhou de verdade, como Alex tinha dito.
E ele não pôde negar o que viu.
Elas tinham os olhos dele. Exatamente o mesmo formato e a mesma cor. Tinham o cabelo escuro dele. Tinham a mesma maneira de ficar em pé, com o queixo levemente erguido e os ombros para trás. Eram como versões em miniatura dele.
— Isso é impossível — disse Sean. — Eu vivi uma vida limpa. Nunca tive contato físico com uma mulher que pudesse resultar em... quer dizer, nunca estive com ninguém.
— Isso é mentira — disse Alex. — E você sabe disso. Você conhece a nossa mamãe. Talvez não se lembre, mas o seu corpo deve se lembrar. Você nos deu o seu DNA. A ciência não mente, e isso é um fato.
Ben assentiu.
— É. DNA é tipo... é tipo prova. Prova de verdade.
Sean se levantou e foi até a janela. Suas mãos tremiam um pouco. Ele ficou olhando a cidade por um longo tempo, sem dizer nada.
— Quanto dinheiro a mãe de vocês quer? — perguntou ele por fim.
— Nós não queremos o seu dinheiro — disse Claudia. — Queremos saber por que você não se lembra da mamãe.
Sean se virou.
— Já chega. Vou chamar a segurança de volta. Vocês precisam sair deste prédio e nunca mais voltar. E, se alguém perguntar, vocês nunca me viram. Entenderam?
— Nós não vamos a lugar nenhum — disse Alex. — Não até você nos contar a verdade. Não até dizer o que aconteceu entre você e a mamãe.
O rosto de Sean ficou vermelho.
— Eu não me lembro de nada porque nada aconteceu! Não há nada para lembrar! Agora saiam daqui antes que eu faça vocês saírem!
Ele apertou o botão em sua mesa novamente.
Mas, quando os seguranças entraram de volta e avançaram em direção às crianças, Alex viu uma coisa. Uma cicatriz minúscula nas costas de Sean, visível onde sua cara camisa branca tinha se aberto.
A mesma cicatriz que Alex havia sentido no sonho de sua mãe.
— A mamãe estava certa — Alex sussurrou para Ben e Claudia enquanto os seguranças os conduziam até a porta. — Ele conhece ela. Só não quer admitir.
Enquanto eram empurrados para fora do escritório, Sean observou os três irem embora. E, por um instante, ele fechou os olhos como se estivesse se lembrando de alguma coisa que tinha se esforçado muito para esquecer.
Algo importante.
Algo que mudava tudo.
