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Se você me perguntar, qual foi o melhor momento da minha vida? Sem hesitação, eu responderia que foi ter te conhecido. Nós éramos dois polos opostos, você, você era um jovem rebelde que sempre ia contra a corrente, nunca se permitia mostrar seus sentimentos, muito menos deixar alguém se aproximar de você, estava sempre na defensiva, sendo direto e ferino com cada um dos seus comentários. Nos seus olhos azuis, aquelas lindas safiras, eu podia ver um traço de tristeza, eu nem sabia ao certo qual era o motivo, você era um mistério... enquanto eu... eu podia ser falante, distraído e sonhador, sempre me metendo em encrencas e sendo repreendido por meio mundo, eu era algo como a dor de cabeça constante da vovó.
Te encontrar naquele barco, já estava predestinado, devo admitir que fui cativado pelos seus lindos olhos, nunca tinha visto nada parecido, quando nossos olhos se encontraram no meio de toda aquela névoa, pude sentir como uma corrente percorria meu corpo, a ponto de me arrepiar. Nunca vou esquecer o quão insolente você foi comigo, assim como nunca vou esquecer sua risada cantada. A vida continuou a nos surpreender quando ambos nos matriculamos na mesma escola, mesmo quando eu tentava me aproximar de você, você sempre se escondia atrás do seu mau humor e insolência, eu sei que você tentou me afastar, e mesmo quando fez tudo humanamente possível para conseguir isso, nunca teve sucesso. Nós dois, mesmo sendo polos opostos, éramos como um ímã, quanto mais você se afastava, mais eu me aproximava, até que chegou um momento em que não havia mais volta, e nós dois decidimos dar um grande passo, aquele que nos marcaria para a vida toda.
Eu já confessei qual foi o melhor momento da minha vida... mas, nunca qual foi a lembrança que tenho de nós dois, que sempre guardarei no meu coração. Ainda com dor, fecho os olhos e começo a evocar aqueles momentos escolares, bons, engraçados e ruins, até a lembrança das nossas últimas férias na Escócia, nosso primeiro passeio, aquele onde você me mostrou como a vida pode ser bela, foi lá que pude deixar para trás a lembrança de Arthur, a ponto de quando falo dele, faço isso com tanto carinho porque finalmente entendi que sua morte não foi minha culpa, como tantas vezes me fiz acreditar. Com um sorriso no rosto, lembro do nosso segundo baile, perto do lago, onde a música era apenas o canto dos pássaros e o som das folhas balançando ao vento. Até... o toque dos seus lábios nos meus, ainda posso senti-lo, eu era tão ingênuo, para entender o que realmente sentíamos um pelo outro, até que aconteceu, aquele acidente de Cecil, não consigo evitar chorar com amargura, por ter te deixado, por ter renunciado a você, mesmo te amando, como ainda amo até hoje. Gostaria de esquecer tudo o que vivemos, gostaria de te esquecer... mas é impossível para mim, agora só peço a Deus nosso Senhor que cuide de você e ilumine seu caminho... Armand, talvez algum dia...
Essas foram as palavras que Juliet conseguiu escrever em seu diário, antes de alguém bater na porta. Depois de fechar aquele pequeno caderno coberto de couro e enxugar as lágrimas, ela correu para abrir a porta. Diante dela estava um Alexander muito preocupado, que, ao vê-la com o nariz vermelho e um olhar apagado, apenas a abraçou, para que ela soubesse que não estava sozinha. Já faziam seis anos, seis anos desde aquela triste separação, e mesmo quando ela tentava ser serena, não conseguia completamente, porque aquelas pessoas que a conheciam perfeitamente sabiam da dor que ela tentava esconder. Alexander sentia falta daquela jovem impertinente e vivaz, ele já havia tentado duas vezes fazer com que sua irmãzinha e seu melhor amigo se encontrassem novamente, mas tudo tinha sido em vão. Ela ainda era teimosa em não procurá-lo, algo que, para ele, era muito estranho e, quando ele tentava investigar mais, ela sempre conseguia fugir do assunto.
— Não vou perguntar o motivo das suas lágrimas — disse ele em um sussurro, acariciando suas costas.
— Alex, eu...
— Menina, lembre-se que eu te conheço muito bem, tão bem que você não pode negar para mim que não estava chorando. Jul — ele interrompeu, afastando-se um pouco e levantando seu queixo, fazendo com que seus olhares se encontrassem. — Você não pode continuar assim, não é saudável se matar de trabalhar só para manter a mente ocupada. Até a vovó está preocupada, ela não quer que você fique doente e os meninos, eles... eles não sabem mais o que inventar para te fazer rir como antes. O Thom sugeriu aos outros que talvez um cruzeiro te faria bem. Até eu estou considerando isso.
— Alex, eu estou bem — disse ela tentando soar convincente, como fez tantas vezes antes.
— Sua boca pode dizer uma coisa, mas sua atitude e expressão dizem outra, elas clamam por ajuda.
— Eu não tenho tempo para tirar férias agora, não quando a clínica está no seu melhor momento, temos tantos pacientes para cuidar... Eu não posso fazer isso com o Dr. Alister.
— Eu sei que você ama sua profissão, porque não foi à toa que você conseguiu se destacar como a melhor pediatra do país, mas...
— Por favor, Alex — interrompeu a loira.
— Tudo bem — ele disse, em um tom cansado. — Só peço que você reconsidere, é hora de pensar em você.
— Eu vou — disse ela, sorrindo aquele doce sorriso.
— Tudo bem, agora é melhor você se preparar para o almoço, você sabe que a vovó não gosta de impontualidade.
— É verdade e eu não quero ser repreendida, não agora que estamos começando a nos dar bem.
— A propósito... eu esqueci de te contar que vamos contar com a presença do Robert.
— Ele voltou da Alemanha? — perguntou surpresa.
— Isso mesmo, ele finalmente conseguiu fechar um ótimo negócio, então não me surpreenderia se em muito pouco tempo a fortuna dos Smiths igualasse a nossa, mas você sabe que eu odeio falar de negócios, já que não estou acostumado a ser o chefe da família. Bem, pequena, apresse-se, te vejo em uma hora.
— Como você disser, senhor — disse ela em um tom divertido, antes de fechar a porta.
Era verdade que Robert havia mudado muito, agora ele era educado e muito centrado, sem dúvida ter se afastado da má influência de sua irmã o ajudou bastante, a ponto de ter se desculpado sinceramente com Jul, pelo seu mau tratamento e truques sujos, criando uma amizade cordial e sincera entre os dois.
Deixando sua dor de lado por um momento e como quase sempre, ela se apressou para selecionar um vestido adequado para a ocasião. Ela deu uma olhada rápida em seu armário, que estava cheio de roupas delicadas que combinavam com a moda do momento, e a responsável por isso tinha sido sua avó, que depois de conviver mais com a jovem, pôde ver por si mesma o quão generosa e nobre a loira era, decidindo assim tomá-la sob sua proteção e eventualmente transformá-la em uma perfeita dama da sociedade, embora com um pouco de dificuldade, ela estava conseguindo.
— Eu vim te ajudar, Jul — interrompeu Samantha, entrando no quarto.
— Sam, você sabe que isso não é necessário.
— São ordens da sua avó — protestou, aproximando-se dela. — É melhor nos apressarmos, você não quer ser repreendida por ela, quer?
— Você está certa — disse ela, derrotada, entregando o vestido que havia escolhido segundos antes.
— Esse vestido vai ficar ótimo em você, além disso, se conseguirmos domar seus cachos e colocar uma fita fina de seda como uma tiara. Tenho certeza de que você ficará perfeita — terminou, empurrando a jovem para o vestiário, onde a ajudou a vestir um lindo vestido rosa claro com mangas curtas e um decote discreto.
— Sabe de uma coisa, Sam?
— Diga.
— Às vezes sinto falta das minhas roupas simples — confessou a loira, que estava sendo penteada pela amiga e empregada.
— Você sabe, isso não é mais sensato.
— Eu sei, e é por isso que às vezes gostaria de poder voltar no tempo um pouco para poder...
— Jul, precisamos aprender a deixar o passado para trás, é necessário seguir em frente — encorajou a jovem, notando a voz triste e a expressão de sua querida amiga. — Sorria e viva a vida ao máximo e se há algo que você realmente deseja... então lute por isso, é hora de pensar em você pela primeira vez, esqueça os outros — terminou, justamente quando terminou de colocar a fita de seda nela. — Você está linda, agora, não se esqueça de sorrir, você sabe que isso te cai muito bem.
— Eu não sei como agradecer por tudo que você faz por mim, Sam — refletiu, indo abraçá-la.
— Apenas seja feliz e viva. Agora, não vamos ficar sentimentais, porque eu não quero ser forçada a te maquiar.
Ao ouvir o que a empregada disse, Juliet fez uma cara de horror, pois ainda não estava acostumada a ser maquiada, apenas quando se tratava de acompanhar Alex a eventos públicos ou quando pessoas importantes vinham à casa para jantar, seja por negócios ou para tentar cortejá-la. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a voz de Patrick do outro lado da porta se fez ouvir.
— Jul, posso entrar? — perguntou o homem de cabelos castanhos claros.
— Entre, Patrick.
— Obrigado, a vovó me mandou te buscar — refletiu sem olhar para ela ainda, até que... — Sublime! Maravilhosa! Você está radiante — elogiou, aproximando-se dela e girando-a.
— Acho que você está exagerando, Patrick.
— Estou dizendo a verdade e tenho certeza de que os outros vão concordar comigo. Agora, deixe-me te acompanhar até a sala de jantar, pois estão nos esperando.
— Eu agradeço — disse a loira, aceitando o braço que ele lhe ofereceu. — Robert, ele já chegou? — perguntou, enquanto os dois saíam do quarto.
— Há cerca de cinco minutos. É irônico como a vida é, antes não nos suportávamos e agora, agora somos quase como irmãos, embora eu esclareça, ele seria o adotado.
— Ah, Patrick, não seja tão rude — a loira o repreendeu.
— É inevitável para mim não fazer uma piada com ele. Tê-lo longe por quase três anos foi esmagador para mim, já que não é a mesma coisa fazer piadas com ele por cartas ou por telefone.
— Vocês nunca vão mudar, né?
— Receio que não, e você tem que nos entender.
— São tão teimosos — finalizou, descendo o último degrau e entrando na grande sala bem iluminada.
— Quem você está chamando de teimoso? — rosnou Robert, levantando-se de seu assento e caminhando até ela.
— Robert! — exclamou a loira euforicamente, abraçando-o com força.
— Eu também senti muito a sua falta, Jul... — disse ele quase sem fôlego, devido à falta de ar. — Você se importaria de não tentar me matar?
— Desculpe... eu... — desculpou-se quase instantaneamente, enquanto suas bochechas começavam a tingir-se de carmesim, fazendo com que Patrick, Thom, Josephine, Alex e Anne caíssem na gargalhada, após o infortúnio de Robert.
— Chega! — a avó os repreendeu. — Juliet, você deve aprender a modular suas demonstrações de afeto. Não é próprio de uma dama.
— Sim, vovó — refletiu envergonhada.
— Vovó, por favor, não seja tão severa com Jul, é natural a reação dela, já que todos sentimos falta do Robert — interrompeu Thom.
— Thom está certo, vovó — disse Robert finalmente, que estava tentando regularizar sua respiração. — Devo confessar, se eu estivesse no lugar de Jul, teria feito a mesma coisa.
— Que coisa escandalosa de se dizer, Robert — refletiu a velha senhora, escandalizada.
— Por favor, não comecemos uma discussão — interveio Alex. — Estamos todos felizes por você estar de volta, Robert. Seja bem-vindo.
— Obrigado, primo.
— Jul, você está linda, os anos estão sendo cada vez melhores para você.
— Vamos, não seja mentiroso. É óbvio que há mulheres muito mais bonitas do que eu.
— Mas nenhuma que supere sua beleza — elogiou o moreno. — Vovó, seria pedir demais alguns minutos para conversar com Jul? É que eu quero dar a ela em particular um pequeno presente que trouxe.
— Vá em frente, então — disse a velha senhora.
— Eu agradeço, venha, Jul — disse ele, oferecendo seu braço e conduzindo-a até a biblioteca, onde, uma vez a sós, tirou um pequeno saco do bolso do casaco. — Espero que goste.
— Você não deveria ter feito isso — refletiu, pegando o saco e ficando sem palavras ao puxar seu conteúdo. — Robert, eu...
— Você sabe que meus sentimentos por você não mudaram, eu ainda te amo e é por isso que...
— Eu aceito — interrompeu a loira, dando-lhe um sorriso caloroso.
— Jul, você não sabe o quanto me faz feliz — respondeu ele, colocando o anel em seu dedo anelar e depois dando um beijo tímido em seus lábios. — Eu juro que você não vai se arrepender.
— Tenho certeza disso — ela respondeu, sentindo um frio na barriga.
— Agora, vamos voltar para a sala de jantar e contar as boas notícias aos outros.
