Capítulo 1

POV da Diana

— Sra. Kane, a senhora tem absoluta certeza? A senhora tem direito à metade de tudo.

Meu advogado de divórcio me fez essa pergunta pela terceira vez. Era óbvio que ele não entendia a minha escolha.

— Eu só quero a guarda da minha filha. O resto não importa.

Fiquei olhando para os papéis do divórcio à minha frente, que diziam que eu abria mão voluntariamente de todos os direitos sobre bens, exceto pela guarda da Vera.

— Sra. Kane, uma decisão desse tipo...

— Não tem mais nada pra discutir. — Eu o interrompi. — O Leonard vai concordar. Afinal, aos olhos dele, eu e a minha filha somos só um peso.

Seis anos atrás, eu me casei com Leonard Kane por causa do último desejo da avó dele. A senhora estava deitada no leito do hospital, segurando a minha mão e dizendo: “Diana, por favor, cuide do meu neto.”

Eu aceitei o pedido final daquela mulher tão bondosa.

Mas o Leonard sempre acreditou que eu estava me aproveitando da situação, tentando subir na vida. Ele dizia que eu tinha manipulado os sentimentos da avó dele.

Durante seis anos, ninguém soube que nós éramos casados, nem que a gente tinha uma filha de cinco anos.

Afinal, quem acreditaria que o renomado Dr. Kane e uma enfermeira comum eram marido e mulher? E quem imaginaria que eu tinha estado secretamente apaixonada por ele esse tempo todo?

Mas nada disso importava mais. Estava tudo prestes a acabar.

Guardei os documentos na bolsa e fui direto para o hospital.

No estacionamento de funcionários, o Leonard estava se preparando para ir embora, com o jaleco branco pendurado no braço.

— Leo, a gente precisa conversar...

Ele franziu a testa no instante em que me viu.

— Seja o que for, pode esperar. Eu estou com pressa.

Eu tentei segurar o braço dele, mas ele se desvencilhou na hora.

— Não esqueça do nosso acordo, Diana.

O nosso acordo de casamento secreto. Nada de intimidade no hospital.

Por seis anos, eu segui esse acordo à risca. E tudo o que eu ganhei foi a frieza dele, cada vez pior.

Nesse momento, um carro esportivo prateado encostou e parou bem na nossa frente.

Celeste desceu e foi direto no Leonard, abraçando-o e beijando-o.

— Leo, meu amor! Eu estou te esperando há uma eternidade. Você NÃO PODE faltar à comemoração da minha estreia.

Celeste tinha sido o primeiro amor do Leonard. Ela era uma bailarina famosa, tinha ido morar fora por causa da carreira e terminado com o Leonard alguns anos atrás.

Agora ela tinha voltado. E o Leonard era mais gentil com ela do que com qualquer outra pessoa.

Eu assisti àquela demonstração de intimidade sentindo uma dor aguda no peito.

Celeste me notou.

— E ela é...?

O Leonard nem olhou na minha direção.

— Esta é a Diana. Ela trabalha aqui. Só uma colega.

Celeste deu uma risadinha e entrelaçou o braço no do Leonard.

— Então vamos. A comemoração já vai começar.

O Leonard assentiu e entrou no carro com ela.

Eu vi os dois irem embora e pensei comigo mesma: “Diana, o que você acha que ainda está esperando?”

“Você já devia ter entendido faz tempo que ele nunca vai te amar.”

Peguei o celular e mandei uma mensagem para o Leonard: Amanhã à noite, às 19h, a Vera tem apresentação da aula de dança.

Fiquei encarando a tela, esperando uma resposta.

Como sempre, não veio nada.

Guardei o celular no bolso, respirei fundo e caminhei em direção ao prédio do hospital.

No dia seguinte, depois do trabalho, eu fui buscar a Vera na aula de dança.

Ela veio correndo, toda empolgada, assim que me viu.

— Mamãe! Hoje é o dia da apresentação das famílias! Eu vou dançar “O Pequeno Cisne”!

Ao olhar para a minha menina tão preciosa, meu coração se aqueceu, e parecia que todas as minhas preocupações sumiam.

— Hoje você está mais linda do que nunca, meu amor!

— Mamãe, o papai vai mesmo me ver dançar? — Vera me olhou, cheia de esperança.

Ela nunca tinha visto o pai aparecer em nenhuma atividade dela.

Minha garganta apertou.

— Tenho certeza de que ele vai fazer o possível, meu bem.

Eu menti. Mas eu não consegui contar a verdade.

Às sete da noite, nos bastidores do teatro.

Vera estava com um tutu branco de balé, treinando os passos repetidas vezes diante do espelho.

— Mamãe, eu tô bonita? O papai vai gostar, né?

— A princesinha mais linda do mundo.

— Que horas ele chega? — Vera não parava de olhar para a porta.

— Já, já, filha.

Outros pais foram chegando aos poucos, com as crianças animadas, segurando as mãos das mães e dos pais. Só a Vera ainda estava esperando.

O celular do Leonard finalmente tocou.

— A cirurgia atrasou. Vou chegar assim que der.

Vera pulou de alegria quando ouviu.

— Viu? O papai tá vindo!

Ela ajeitou a fantasia, toda animada.

— Mamãe, eu vou dançar mais lindo do que NUNCA!

A apresentação começou.

Primeiro ato, segundo ato, terceiro ato...

E o Leonard ainda não tinha aparecido.

Estava quase na hora de Vera entrar. Ela ficou na lateral do palco, procurando sem parar alguém na plateia.

— Mamãe, o papai tá sentado onde?

— Espera mais um pouquinho. Talvez ele esteja preso no trânsito.

— Diana, é a vez da sua filha — a professora me lembrou.

Vera olhou, desanimada, para a plateia sem ele.

— Mamãe… o papai não vai conseguir vir mesmo, né?

Eu me agachei e a abracei.

— Tá tudo bem, meu amor. A mamãe vai te assistir lá da plateia.

Os olhos de Vera se encheram de lágrimas, mas ela forçou um sorriso.

— Tá… ter a mamãe já basta.

Ela entrou no palco e começou a dançar.

Eu me sentei na plateia, assistindo à minha pobre filha.

Leonard nunca tinha aceitado reconhecer a existência da Vera. Depois do nosso casamento, a gente manteve uma distância respeitosa, até uma noite, um ano depois, em que Leonard chegou em casa bêbado e eu cuidei dele. Naquela noite, nós concebemos a Vera.

Mas quando Leonard ficou sóbrio, ele achou que eu tinha feito de propósito, que eu tinha embebedado ele para prender ele com um filho. A partir daí, ele também ficou frio com a Vera.

Peguei o celular para tentar falar com Leonard de novo.

Uma notificação do Instagram da Celeste apareceu na tela.

Fotos de um baile beneficente. Leonard, de smoking preto, estava ao lado de Celeste, brindando com ela de um jeito íntimo, as taças se tocando.

A legenda dizia: “Noite perfeita com a pessoa mais importante.”

Então não tinha cirurgia atrasada nenhuma. Leonard simplesmente escolheu acompanhar Celeste ao evento.

No palco, Vera terminou a apresentação inteira sozinha. Sem aplauso de pai, sem abraço de pai.

Depois do espetáculo, ela desceu correndo e se jogou nos meus braços.

— Mamãe, eu dancei bem?

— O cisnezinho mais incrível.

— Uma pena que o papai perdeu. — A voz dela saiu baixinha, mas sem reclamar.

Eu a apertei com força, com as lágrimas quase caindo.

Em casa, tirei os papéis do divórcio da bolsa e assinei meu nome na última página.

Próximo Capítulo