Capítulo 2
POV da Diana
Às três da manhã, Leonard finalmente chegou em casa.
Ele empurrou a porta e, cansado, tirou o paletó do terno. Na sala, só um abajur de mesa ainda estava aceso, com uma luz fraca iluminando a mesinha de centro.
O troféu de dança da Vera estava ali.
Leonard parou e ficou encarando o troféuzinho dourado. Um bilhete ainda estava preso nele: Para o meu papai mais amado.
Um lampejo de culpa atravessou o rosto dele.
— Desculpa, surgiram umas coisas urgentes que me atrasaram...
Eu ri amargamente por dentro. Coisas urgentes? Um encontro com a Celeste?
Eu saí detrás do sofá, com uma pasta nas mãos.
Leonard se jogou no sofá, exausto, esfregando as têmporas.
— Diana, sobre hoje à noite...
— Tudo bem. — eu o interrompi. — A Vera ficou em primeiro lugar. Ela ficou muito feliz.
E era verdade. A Vera ficou em primeiro, mesmo sem os aplausos do pai.
Leonard levantou os olhos para mim, com um desconforto tremeluzindo no olhar.
— Eu vou arrumar um tempo pra compensar ela.
Respirei fundo e estendi a pasta para ele.
— Esta é a atualização do plano de saúde da Vera. Você precisa assinar—
Leonard mal tinha pegado os documentos quando o celular dele tocou de repente.
O nome da Celeste brilhou na tela.
Leonard atendeu na hora.
— Celeste? Tá tão tarde, aconteceu alguma coisa?
A voz dela, chorosa, veio pelo telefone:
— Leo, meu tornozelo! Acho que eu torci. Eu tenho apresentação amanhã!
Leonard se levantou num pulo.
— O quê? Tá doendo quanto? Onde você tá agora?
— Em casa... Eu tô com medo. Dói demais pra eu me mexer...
— Não se mexe. Eu tô indo agora.
Depois de desligar, Leonard rabiscou o nome dele às pressas na última página e saiu correndo porta afora.
E foi assim. Ele assinou.
Sem nem olhar.
Eu peguei os papéis do divórcio assinados e fiquei em silêncio perto da porta.
O som do motor dele foi se afastando aos poucos, e eu fiquei sozinha na casa de novo.
Eu me lembrei daquela noite, cinco anos atrás.
Eu estava grávida de oito meses e, de repente, senti uma dor forte na barriga. Liguei para o Leonard incontáveis vezes, mas ele nunca atendeu.
Depois eu soube que ele estava fora do país naquela noite, consolando a Celeste depois de ela perder uma competição. Mas ele me disse que tinha uma cirurgia de emergência no hospital e que não podia atender o celular.
Eu peguei um táxi e fui sozinha para o hospital, quase desmaiando de dor na emergência.
A Vera nasceu prematura. Como ela não recebeu atendimento a tempo, os pulmões não se desenvolveram direito, e desde então ela sofria de asma.
Quando Leonard voltou e viu a filha deitada na incubadora, ele só disse, frio:
— Você devia ter ido ao hospital mais cedo.
Ele nunca pediu desculpas por aquela noite.
Agora, por causa de um tornozelo torcido da Celeste, ele conseguia sair correndo às três da manhã.
Que ironia.
Eu olhei para os papéis do divórcio nas minhas mãos, com a assinatura torta do Leonard.
Era isso. Tinha acabado de verdade.
Apaguei o abajur, e a casa mergulhou na escuridão.
Leonard Kane, agora você podia, enfim, amar quem você quisesse.
E eu podia finalmente parar com esse jogo de amor de mão única.
— Dr. Kane, o senhor queria falar comigo? — Empurrei a porta do consultório do Leonard.
Leonard me entregou uma caixa de presente elegante.
— Isto é um presente de compensação pra Vera.
Eu abri a caixa. Dentro, tinha um frasco de perfume francês importado, com um vidro rosa cheio de cristais, com cara de ser bem caro.
— Menininhas adoram perfume, não é?
Eu sorri amargamente por dentro: ele não conhecia a própria filha.
A Vera tinha asma. Qualquer cheiro forte deixava ela com dificuldade para respirar.
E esse homem — esse suposto médico, esse pai — não sabia esse fato básico.
— Leonard, a Vera não pode usar perfume.
Ele me olhou, confuso.
— Por quê?
— Ela tem asma.
Leonard ficou imóvel por alguns segundos. Aí pareceu se lembrar de alguma coisa.
— Ah, é. Eu esqueci.
Esqueceu. Ele esqueceu da condição da própria filha.
Eu fechei a caixa e devolvi para ele.
— Obrigada pela intenção.
Leonard pegou a caixa, meio sem graça.
— Então eu compro outra coisa.
— Não precisa. — Eu me virei para sair. — Ela não precisa disso.
No fim de semana, eu levei a Vera ao teatro municipal para assistir a um balé.
Depois de o Leonard ter faltado ao recital dela da última vez, apesar de a Vera não ter dito nada por fora, eu sabia que aquilo tinha mexido com ela.
Eu queria animá-la, mostrar que, mesmo sem o pai por perto, nós duas ainda podíamos passar um tempo maravilhoso.
Depois do espetáculo, saímos do teatro. A Vera ainda comentava, empolgada, sobre a apresentação.
— Aquela princesa cisne foi incrível! As piruetas dela foram...
De repente, eu vi figuras familiares.
Leonard e Celeste saíram pela saída VIP.
A Vera também viu e, animada, se soltou da minha mão.
— Papai—
