Capítulo 1
POV da Audrey
Todo mundo acha que eu sou a ovelha negra da família, a que nunca vai entrar na linha.
O Blake é o jovem rei do mundo dos negócios — racional, frio, sempre naqueles ternos perfeitamente cortados.
Mas toda noite ele me deixa presa debaixo dele, sussurrando meu nome entre uma respiração e outra.
Ele disse que eu era dele, mas nunca me deixava ver a luz do dia. Até ela voltar — a filha da amante do meu pai, de vestido branco, sorrindo como um anjo.
No meu aniversário, ele foi buscá-la no aeroporto. Quando o lustre despencou, ele a carregou pro hospital e me deixou sangrando no chão. Quando ela quebrou a relíquia de família da minha mãe, ele me fez pedir desculpas de joelhos. Disse que ela era frágil, que precisava de cuidado; disse que eu era forte o bastante pra entender.
Aí eu ouvi os dois na minha cama, ela gemendo o nome dele.
Então eu fui embora. Casei com um homem que me amava de verdade. E ele enlouqueceu.
A luz da manhã entra pelas janelas do chão ao teto. Eu observo o Blake abotoando a camisa.
— Não vai ficar mais um pouco?
— Tenho um almoço importante. — Ele nem levanta os olhos.
Eu me sento na cama. As mãos do Blake hesitam, mas ele volta a arrumar a gravata.
— Que almoço?
— Parceiro de negócios. Você não conheceria.
O celular dele vibra. Ele confere, e lá está — aquele sorriso suave que ele nunca me dá. Então ele se inclina e deposita um beijo rápido na minha testa.
— Tô saindo.
A porta se fecha. Eu encaro o teto e dou risada.
Três anos já é tempo demais.
Eu disco o número do meu pai.
— Eu aceito. Vou me casar com alguém da família Thompson. Mas eu tenho condições.
Dois segundos de silêncio, e então ele mal consegue se conter.
— Fala!
— Quero que o senhor me corte legalmente. Rompa o vínculo de pai e filha.
— Audrey, por que você—
— Para de teatro. — Eu interrompo. — Você colocou um preço em mim no segundo em que me mandou pra ele, não colocou?
— Do que você tá falando? Isso é tudo pela família—
— Pela família? — Eu rio. — Ou por eles? A mamãe morreu, você enfiou aquela mulher e a filha dela dentro da nossa casa, me empacotou como se eu estivesse à venda… Você já tinha planejado isso desde o começo, né?
A voz dele esfria.
— Tem certeza disso?
— Transfere o acordo direto pra minha conta. Aí acabou.
Eu desligo e fecho os olhos.
Tudo volta de uma vez.
Três anos atrás, meu pai me arrastou até a empresa do Blake.
— Esta é minha filha. Ela vai aprender gestão empresarial com você. — O sorriso do meu pai era pura puxação de saco. — Ela é imatura demais. Por favor, cuide dela.
O Blake estava sentado à mesa de reunião, analisando documentos, aqueles olhos frios mal se levantando. Ele olhou pra mim uma vez, depois assentiu pro meu pai.
E pronto. Fui despachada pra casa desse homem.
Nos primeiros meses, eu tentei de tudo pra tirar ele do sério. Contestei as decisões dele nas reuniões do conselho, invadi o escritório dele de noite pra fuçar arquivos, escondi contratos importantes.
Ele nunca ficava realmente bravo.
Uma vez eu interrompi uma reunião da diretoria. Ele só disse: “Ela ainda é jovem”, e mandou o assistente me acompanhar pra fora.
Naquela noite, ele foi ao meu quarto buscar os documentos.
Eu me apoiei no batente da porta.
— Você não tá com raiva?
Ele me encarou por um tempo infinito.
— Vai dormir.
Naquela época, eu achei que ele estava se segurando. Achei que ele se importava de verdade.
Tudo mudou numa noite.
O Blake fechou um contrato enorme e, pela primeira vez, trouxe vinho pra casa.
— Bebe comigo. — Foi a primeira vez que ele pediu.
Luz baixa. Ele tirou os óculos, massageou as têmporas, falou do estresse do trabalho.
Eu me aproximei devagar. Ele não me afastou.
O álcool, o clima, toda aquela tensão acumulada… simplesmente aconteceu.
Na manhã seguinte, eu acordei achando que ele ia dizer alguma coisa.
Em vez disso:
— Não conta pra ninguém sobre ontem à noite.
Eu convenci a mim mesma de que ele só não sabia demonstrar o que sentia, que estava protegendo nós dois.
Meu aniversário matou essa fantasia de vez.
Preparei todo aquele jantar à luz de velas, planejando finalmente dizer pra ele o que eu sentia.
Esperei até dez da noite. A comida ficou completamente fria.
Liguei a TV. E lá estava o Blake no aeroporto, buscando uma garota de casaco branco.
Laurel Rose. A filha da amante do meu pai, aquela que esteve no exterior todos esses anos.
Nunca passou pela minha cabeça que o Blake conhecia ela — muito menos que iria buscá-la pessoalmente. Na imagem, ele sorria — um sorriso quente que eu nunca tinha visto nele.
Eu destruí tudo. Blake chegou tarde em casa, viu a bagunça, e o rosto dele ficou assustadoramente calmo.
— Por que você me deu bolo hoje?
— Ela acabou de voltar. Está doente. Precisa de alguém pra cuidar dela.
— E eu?!
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— Você e ela são diferentes.
Ele chamou a governanta pra limpar tudo e me disse:
— Amanhã a gente repõe tudo.
Naquele instante, eu finalmente entendi — esse tempo todo, eu estava encenando um espetáculo solo.
Eu tenho que sair daqui. Se eu ficar mais, vou perder o pouco de dignidade que me resta.
Voltei pra pegar minhas coisas. Meu pai estava na sala, rindo com a garota do vestido branco.
Laurel parecia ainda mais magra do que na TV, mostrando pro meu pai presentes de fora.
Meu pai me viu, ficou sem graça por meio segundo.
— Você voltou? Mesmo que a gente tenha cortado relações, sangue é sangue... Laurel, você já viu fotos, né? Essa é a sua irmã.
Minha madrasta se intrometeu, sorrindo.
— Agora somos todos uma família.
Família? Eu olho pro canto: minhas coisas jogadas perto do depósito, enquanto as malas da Laurel estão bem no meio, em destaque.
Laurel vem até mim, me avaliando de cima a baixo.
— Irmã, você é ainda mais bonita ao vivo. Ouvi dizer que você vai casar? Parabéns. Ah, e o tio falou que o seu quarto pega a melhor luz, então vou ficar lá por enquanto. Você não se importa, né?
Eu ignoro e vou direto pro que costumava ser o meu quarto. As coisas da minha mãe estão enfiadas no fundo do armário. Eu só pego o colar, o diário dela e aquela única foto de família.
Quando estou saindo, Laurel chama da escada, com uma preocupação toda falsa:
— Irmã, você vai ficar onde? Quer que eu reserve um hotel pra você?
Eu me viro e encaro ela.
— Aproveita a casa. Agora é toda sua.
Eu me hospedo num hotel no centro e enfio o pé na jaca usando a conta de relações públicas da empresa do meu pai.
Dez vestidos sob medida, um carro esportivo de edição limitada, quadros de leilão, um ano inteiro de pacotes de spa.
O motivo é simples: casar com gente rica exige parecer rica.
À noite, a ligação do meu pai vem berrando do outro lado.
— Você enlouqueceu? Cinco milhões em um dia!
— E daí? — eu mexo o café devagar. — Você não disse que eu sou sua filha? Estou me preparando pro casamento. Não era isso que você queria? Fica tranquilo: quando o acordo sair, eu te pago de volta — se você ainda tiver coragem de aceitar.
Eu desligo. O telefone toca de novo.
Mensagem do Blake: “Você está onde? Você não tá em casa.”
Eu encaro a tela por um tempão e respondo com duas palavras: “Tô ocupada.”
“Ocupada com o quê?”
“Coisas pessoais.”
Ele não responde.
No dia seguinte, nenhum dos meus cartões passa.
O gerente do hotel aparece, todo educado.
— A empresa do seu pai cancelou o seu acesso. Você vai precisar acertar a conta agora, senão...
Eu ligo pro meu pai. A voz dele é gelo.
— Já que não somos mais família, fique longe do dinheiro da família. Peça pro seu noivo pagar.
— E o acordo?
— Ainda não saiu. E isso é patrimônio da família, não é dinheiro seu.
Eu desligo e dou risada.
Então, desde o começo, ele nunca planejou me deixar ficar com aquele dinheiro.
Eu estou no saguão com a minha mala, rolando os contatos atrás de alguém pra ligar. Mas todos aqueles nomes parecem de estranhos — esses “amigos” só ligavam pro sobrenome da família. Agora que eu tô na pior, quem é que vai atender?
Anoitece. Começa uma garoa fina.
Eu fico na rua, olhando as pessoas passarem.
Então é isso que o nada parece.
