Capítulo 2
POV da Audrey
A chuva cai com força. Eu arrasto minha mala pela rua, a água encharcando minhas roupas, um frio de congelar.
O céu está ficando escuro. Os prédios ao meu redor estão cada vez mais caídos aos pedaços. Acabei indo parar na parte velha da cidade.
Estou me virando para ir embora quando alguns caras saem de um beco.
— Ei, moça… é bem perigoso pra uma mulher ficar sozinha por aqui a essa hora. — O da frente olha para a minha mala. — Deixa a gente te dar uma carona.
— Tô bem.
— Não faz assim. — Outro tenta agarrar minha mala. — O que tem aí, afinal? Parece caro.
Eu seguro firme. Na disputa, alguém me empurra e eu caio no chão. Meu joelho bate no asfalto e eu engasgo com a dor.
Alguém corre e chuta o cara que está tentando pegar minhas coisas.
Blake está de pé na chuva, encharcado, com o olhar gelado.
— Cai fora.
Eles veem os seguranças dele logo atrás e saem correndo.
Blake olha pra mim no chão.
— Você tá aqui fora, sem ter pra onde ir, e não me ligou?
Eu viro o rosto.
— Se eu não tivesse rastreado sua localização… — Ele para. — O que você estava planejando fazer?
Eu mordo o lábio. Não digo nada.
Blake solta um suspiro.
— Esquece. Vamos te colocar lá dentro.
A cobertura dele está igualzinha de sempre. Uma empregada me entrega um roupão limpo. Quando eu saio do banho, minha mala está do lado de fora da suíte principal.
Eu arrasto a mala direto para o quarto de hóspedes mais afastado.
Já é tarde da noite. Meu joelho lateja. Eu estou deitada, sem conseguir dormir.
A porta se abre, devagar, sem barulho.
Blake entra e se deita como já fez tantas vezes, me puxa para os braços dele.
Meu corpo fica rígido.
— O que ela é sua?
— Uma amiga do colégio. — A voz do Blake é calma. — Ela salvou minha vida uma vez. Eu venho pagando o tratamento dela no exterior todos esses anos. Ela acabou de voltar.
Ele faz uma pausa.
— Não tem mais nada entre a gente.
Eu rio no escuro.
— Mas eu preciso que você deixe ela em paz.
Protetor demais com ela.
— Você ao menos sabe de quem ela é filha?
Blake não diz nada por um bom tempo.
— Eu também só descobri agora.
Eu me viro num impulso.
— Então como você ainda consegue me dizer pra deixar ela em paz? Você sabe como a minha mãe morreu? Foi por causa deles! Por causa daquela mulher e da filha dela!
Minha voz treme.
— O que exatamente você espera que eu sinta por ela?!
Blake fecha os olhos. Fica em silêncio por um momento.
— Olha… isso também não foi escolha dela. Ela é inocente nisso tudo.
Ele abre os olhos e me encara, sério.
— Eu não estou pedindo pra você ser gentil com ela. Só não vá atrás dela. Ela não está bem. Ela não aguenta estresse.
Eu encaro ele por um longo tempo e, depois, aos poucos, me viro de volta.
Então, na cabeça dele, até a morte da minha mãe importa menos do que a saúde frágil daquela mulher.
Blake ainda me segura apertado. A respiração dele se acerta, fica tranquila.
Eu fico ali, olhando para a escuridão. Eu não estou mais lutando. Não estou mais esperando nada.
Só esperando o dia em que eu vou poder ir embora.
Na noite seguinte, uma empregada traz um vestido.
Não tem nada a ver comigo. Macio demais, delicado demais. Como se alguém tivesse escolhido para outra pessoa.
Sete horas, Blake está esperando na sala. “Hoje à noite tem um jantar de negócios. Você vai comigo.”
No carro, eu pergunto: “Que jantar?”
“Evento beneficente da associação do setor.” Blake mantém o olhar fixo à frente. “Seu pai e... ela também vão estar lá.”
Eu entendo na hora.
Quando a gente chega ao salão do hotel, tem uma tela na entrada passando “Bem-vinda de volta, Laurel”.
Eu travo.
Não é só um jantar beneficente qualquer. É praticamente uma festa de boas-vindas pra ela.
Blake vê a minha cara e explica, como se não fosse nada: “Ela sugeriu juntar a volta dela com o evento. Contribuição pra família, essas coisas.”
No segundo em que a gente entra, Laurel vem na nossa direção com um vestido longo branco, maquiagem impecável.
“Blake!” Ela entrelaça o braço no dele e depois olha pra mim com aquela expressão de “surpresa”. “Ah, Audrey, você também veio?”
As pessoas ao redor viram pra olhar.
Laurel solta o braço do Blake e vem até mim. “Como você tem passado? Eu ouvi dizer que...”
Ela deixa a frase morrer, os olhos ficando vermelhos. “A culpa é toda minha. Se eu não tivesse voltado, você e o tio não teriam...”
Perto dali, começam os cochichos.
“Ouvi dizer que rolou um drama na família. A filha foi expulsa de casa.”
Laurel se apressa em “explicar”. “Não! Ela quis ser independente...”
O que só confirma os boatos.
Eu afasto a mão dela antes que encoste no meu ombro. “Já terminou com esse teatrinho?”
As lágrimas começam a descer pelo rosto da Laurel. Ela olha pro Blake, toda coitadinha.
Blake se aproxima, me lança um olhar de aviso e então se vira pra Laurel. A voz dele amolece. “Não chora. O jantar nem começou ainda. Você vai estragar a maquiagem.”
Ele tira um lenço e limpa os olhos dela com cuidado.
Eu fico ali, parada. Algo se retorce no meu peito.
Quando a gente se senta, eu fico enfiada num canto, longe da mesa principal.
Laurel senta bem ao lado do Blake. Meu pai do outro. Eles parecem uma família feliz.
O jantar inteiro, eu vejo o Blake cuidando dela.
Puxando a cadeira. Escolhendo os pratos por ela. Quando Laurel diz que está com frio, Blake tira o paletó na hora e coloca sobre os ombros dela. Quando a alça do vestido escorrega, Blake se inclina com naturalidade pra ajeitar, os dedos roçando o ombro dela.
Eu fico longe, os nós dos dedos brancos em volta do meu copo.
“Os dois ficam tão bem juntos.”
“Pois é, ouvi que ele cuida dela há anos.”
“Aquela filha ali tá bem patética...”
“Patética? Ouvi dizer que ela tem um temperamento horrível.”
Começa a dança.
O apresentador anuncia com um sorriso: “Seguindo a tradição, convidamos o senhor Blake Parker para abrir a pista. Então, quem ele vai escolher como par?”
As luzes diminuem. Um holofote cai sobre Blake.
Depois, outro holofote encontra Laurel. Ela baixa os olhos, tímida.
Um terceiro holofote cai em mim.
Eu travo.
O salão inteiro fica em silêncio. Todo mundo olhando pro Blake.
Blake se levanta. Os olhos dele alternam entre os dois holofotes.
Meu coração parece parar.
Eu sei a resposta. Mas ainda estou agarrada a esse restinho patético de esperança.
Nem que seja por educação. Nem que seja só pra manter as aparências.
Blake hesita só por um instante, então dá um passo à frente.
