Capítulo 3
POV da Audrey
Blake está ao lado da Laurel, estendendo a mão para ela. A sala explode em aplausos e gritos de comemoração.
Eu me viro e vou até o bar no canto.
De volta à pista, de volta a eles, viro taça após taça de champanhe. As borbulhas estouram na minha garganta, mas não conseguem anestesiar o vazio no meu peito.
Não sei há quanto tempo estou parada aqui quando uma voz fala: “Com licença, você gostaria de dançar?”
Um homem que eu nunca vi antes está diante de mim. Bem-vestido, sorriso educado.
Estou prestes a dizer não, mas noto um movimento na pista. Blake e Laurel acabam de terminar a música. Ele parece perceber para este lado, as sobrancelhas se juntando. Ele solta a mão da Laurel e começa a vir na minha direção.
Laurel segura a mão dele, se inclina bem perto para sussurrar alguma coisa.
Blake para. Olha para mim uma vez, depois faz que sim com a cabeça e volta para a Laurel.
Eu me viro para o desconhecido, os lábios se curvando num sorriso. “Claro.”
A música começa. Ele pega minha mão e me conduz até a pista. Ele é um cavalheiro, mantendo a distância certa.
Mas eu sinto os olhos de alguém queimando em mim.
Blake parou de dançar faz um tempo. Ele está parado na beirada da pista, a raiva estampada no rosto.
Eu sorrio de propósito para o meu par. Ele parece desconfortável. “Aquele cara parece estar te encarando.”
“Ignora ele.”
Quando a música termina, Blake vem a passos largos e agarra meu pulso.
“Vem comigo.”
Ele me puxa até uma varanda mais silenciosa. O ar da noite é frio, mas a raiva dele é mais quente.
“O que você está fazendo?”
Eu arranco minha mão. “Dançando. Você viu.”
“Você ao menos conhece aquele cara?”
“Não.” Eu sustento o olhar dele. “Mas você pode dançar com ela e eu não posso dançar com outra pessoa?”
Blake fica imóvel, o rosto se fechando. O celular dele toca. Ele olha para a tela e respira fundo.
“Fica aqui.” Os olhos dele me avisam para me comportar. “Não sai daqui.”
Então ele se afasta para atender.
Saltos ecoam pela varanda. Laurel aparece, sorrindo docemente. “Você dança muito bem.”
Eu não respondo.
“Pra falar a verdade, eu fiquei preocupada quando vi você chegando hoje à noite.” Os olhos dela descem sobre mim. “Mas agora eu me sinto melhor. Você viu, né? Sempre que eu preciso dele, ele volta.”
Eu encaro ela. “Onde você quer chegar?”
Laurel se inclina, baixando a voz. “Estou dizendo que você é só o projeto de caridade dele. Para de se enganar.”
Eu chego a rir. “Você está tão desesperada pra me dizer isso tudo. Parece que a insegura aqui é você.”
O rosto da Laurel muda.
Bem nessa hora, um rangido vem de cima.
Eu olho para cima. Um enorme lustre de cristal está balançando de um jeito perigoso, bem sobre nós.
Eu me mexo para recuar num salto, mas Laurel tropeça de repente, o corpo batendo no meu enquanto ela me empurra.
Eu perco o equilíbrio.
O lustre despenca. Vidros se estilhaçam por todo lado.
Uma dor aguda me atinge. Algo quente escorre pela minha testa. Eu estou no chão, com gritos ao meu redor.
No meio da poeira, Blake vem correndo. Ele para na minha frente, se agacha.
“Chamem uma ambulância!”, ele grita para o assistente.
Mas a voz fraca de Laurel interrompe tudo. “Blake... eu tô machucada...”
Blake vira a cabeça. Laurel está sentada a alguns metros dali, com o braço ralado e sangrando, o rosto pálido.
“Eu tô com tanto medo...” Lágrimas escorrem pelo rosto dela.
Blake hesita por um segundo. Então se levanta, anda rápido até Laurel e a pega no colo.
“Não fica com medo.” A voz dele é tão suave. “Eu tô aqui.”
Ele diz ao assistente: “Leva ela pro hospital”, e então carrega Laurel para longe.
Eu fico deitada no chão, vendo aquela figura desaparecer.
Minha visão começa a embaçar. As lembranças voltam como uma enxurrada: o olhar gelado nos olhos dele quando nos conhecemos, o jeito como ele falou meu nome na primeira vez em que ficamos juntos, todas aquelas noites em que ele me dizia “você é minha”.
Eu achei que eu fosse diferente.
Vendo ele se apressar para ir embora, eu fecho os olhos e afundo na escuridão.
No fim, eu nunca fui.
Quando eu acordo, minha cabeça está enfaixada.
A primeira coisa que eu vejo é Blake. Ele está sentado ao lado da cama, com os olhos vermelhos, barba por fazer.
“Você finalmente acordou.” A voz dele sai áspera. “O médico disse que você ficou desacordada por mais de dez horas. Eu...”
Ele pega minha mão. “Eu fiquei com muito medo de você não acordar.”
Eu puxo minha mão de volta. “Então por que você salvou ela primeiro?”
Blake fica em silêncio por um instante. “Eu pedi pro meu assistente te levar pro hospital. A ambulância chegou em três minutos. Mas o corpo dela é fraco. Eu fiquei com medo de ela não aguentar o choque.”
Ele olha pra mim. “Eu sabia que você ia aguentar. Você sempre foi forte.”
Eu rio. “Então porque eu sou forte, eu mereço ser deixada pra trás?”
“Não foi isso que eu quis dizer.”
“Tanto faz. Não importa.” Eu fecho os olhos. “Eu tô cansada.”
Nas horas seguintes, Blake fica no quarto. Ele me serve água, ajusta a inclinação da cama, testa a temperatura do meu almoço.
Mas eu continuo distante.
A noite chega. Quando eu acordo, Blake não está ao meu lado. Eu ouço a voz dele do lado de fora da porta. “Sim, eu tô aqui.”
É Laurel ao telefone. “Blake, obrigada por ter me escolhido lá atrás. Eu sei que deve ter sido difícil...”
“Não fala isso. Aconteça o que acontecer, eu sempre vou te proteger primeiro.”
“Mas a Audrey não vai te culpar?”
“Ela vai entender. Ela sabe por que eu fiz essa escolha.”
A voz de Laurel falha. “Blake, eu tô com tanto medo de ficar sozinha... você pode vir me fazer companhia?”
“...Tá bom. Já vou.”
Blake volta para o quarto. “Surgiu uma coisa urgente no escritório. Eu preciso ir resolver. Descansa um pouco.”
Eu não abro os olhos. Não respondo.
Ele suspira e vai embora.
Eu espero até o som dos passos sumir, então me levanto e visto minha jaqueta.
Eu vejo ele entrar no elevador, vejo o elevador parar no último andar. Aí eu vou atrás.
As portas do elevador se abrem para um mundo completamente diferente. Carpete grosso, quadros nas paredes. Duas enfermeiras passam, cochichando:
“Aquela garota é muito sortuda. O namorado dela alugou o andar inteiro.”
“Eu ouvi dizer que ele trouxe três especialistas de fora do país. Ela só ralou o braço um pouquinho. Pra que esse escândalo todo?”
“Shh, fala baixo. Qualquer um vê o quanto aquele homem mima ela...”
Eu fico na esquina do corredor, observando Blake empurrar e abrir aquela porta.
