Capítulo 4
POV da Audrey
Caminho até a porta e olho pela janelinha.
O pai está sentado na cama descascando uma laranja para a Laurel, colocando cada gomo num potinho. “Vai com calma, o médico disse que você precisa de mais vitaminas.”
Quando eu ficava doente na infância, ele nunca aparecia.
O Blake está perto da janela, ajustando as persianas. “Tá muito claro pra você?”
Laurel balança a cabeça, fraca. Ele vai até a cama, ajusta a inclinação e ajeita o cobertor ao redor dela.
Minha madrasta entra com uma garrafa térmica. “Meu bem, a mamãe fez uma sopa pra você.”
O pai pega e ele mesmo dá na boca dela.
Os olhos da Laurel se enchem d’água. “Obrigada, pai, obrigada, mãe… e Blake.”
O pai sorri. “Você é nossa filha agora. Essa família é sua.”
Blake sorri também. “Agora foca em melhorar.”
“E a Audrey, como ela tá?” Laurel pergunta.
O tom do Blake é seco. “Ela tá bem. Quarto padrão.”
“Ela não vai ficar sozinha lá?”
“Não se preocupa com isso. Ela prefere ficar sozinha.”
O pai solta uma risadinha pelo nariz. “Agora ela aprendeu a ficar quieta.”
Minhas unhas cravam nas palmas das minhas mãos até sair sangue.
Então é assim que uma família é. Só que nunca foi a minha.
Eu me viro e volto pro meu quarto.
Uma enfermeira entra. “Cadê sua família?”
“Não tenho.”
O Blake aparece de vez em quando, mas sempre distraído, mexendo no celular. Eu continuo fria com ele. Com o tempo, ele para de vir.
No dia em que eu recebo alta, estou ao telefone.
“Eu entrei em contato com a família Thompson. Eles vão te mandar a passagem em alguns dias.” A voz dele é gelada. “Não arruma confusão. Você não é mais minha filha. Esse noivado não pode desandar.”
Desligo. A porta abre e o Blake entra. “Que passagem?”
“Aniversário de uma amiga.”
“Desse jeito que você tá agora?”
“Não é da sua conta.”
“Pronta pra ir? Eu te levo.”
Quando o carro entra na casa do Blake, eu travo.
Na sala, Laurel está sentada no sofá, com a minha madrasta ao lado.
“O que ela tá fazendo aqui?”
“Ela não tá bem. É mais fácil cuidar dela se ela ficar aqui.” O Blake fala como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
“E eu?”
“Você não é a mesma. Ela precisa de mais cuidados.”
“Então eu só tenho que entender?”
Blake franze a testa. “Não seja irracional. Você já é adulta.”
Laurel me vê. “Você também saiu do hospital!”
Minha madrasta segura Laurel. “Cuidado.”
“Desculpa por estar tomando seu espaço… mas o médico disse que eu não posso morar sozinha…”
Eu arrasto minha mala escada acima.
Os três dias seguintes são um pesadelo.
Eu chego no meu quarto e vejo minha maquiagem enfiada no canto, com as coisas dela cobrindo a penteadeira. Jogo tudo no corredor.
No jantar, os olhos da Laurel estão vermelhos. “A Audrey não gosta que eu use as coisas dela? Desculpa, eu achei que a gente fosse família…”
Blake me lança um olhar.
No dia seguinte, ela quer meu vestido.
“Ele é tão lindo. Posso experimentar?”
“Não.”
Blake passa por perto. “É só um vestido.”
“É meu.”
“Ela só quer experimentar. Para de implicar.”
Eu cedo no fim. Quando ela devolve, tem manchas de vinho por todo o vestido.
Na terceira noite, bato na porta do escritório do Blake.
A Laurel também está lá. Blake está ajudando ela com uns papéis.
“Você precisava do Blake pra alguma coisa?”
Eu observo o quanto ele está concentrado nela. “Não.”
Na manhã do quarto dia, a família Thompson já deve estar chegando. Eu começo a arrumar minhas coisas e abro a caixa de joias da minha mãe.
Dentro tem um relógio de bolso antigo. No fundo, está gravado: Para minha filha mais querida, com todo o meu amor.
Há uma batida.
Laurel empurra a porta e os olhos dela vão direto pro relógio. “Que lindo!”
Eu fecho na hora. “Era da minha mãe.”
“Uma coisa que ela deixou… posso ver?”
“Não.”
“Só uma olhadinha…”
“Não.”
Ela vai embora. Dez minutos depois, Blake entra.
“Deixa ela ver o relógio.”
“O que você acabou de dizer?”
“Ela só quer olhar. Deixa ela ver.”
“É a única coisa que a minha mãe me deixou.”
“Ela só quer olhar, não vai roubar. Precisa mesmo ser tão egoísta?”
“Egoísta?”
“Ela perdeu tanta coisa. Você não consegue ceder uma vez? Você nunca pensa em ninguém além de você.”
Laurel aparece na porta. “Blake, esquece… a culpa é minha… desculpa, eu só fiquei com inveja porque você tem lembranças da sua mãe…”
Ela começa a chorar.
Minha madrasta vem correndo. “Deixa ela olhar! Por que você tá sendo tão mesquinha!”
Todo mundo fica me encarando.
“Dá o relógio pra ela.” A voz do Blake é um gelo.
Eu aperto o relógio com força e balanço a cabeça, dizendo não.
Blake vem até mim e agarra meu pulso. “Solta.”
A mão dele é forte.
Eu tento segurar, mas ele começa a forçar meus dedos a abrirem.
“Não—”
Ele abre todos os meus dedos à força e pega o relógio.
Eu tento pegar de volta, mas ele me empurra. Eu caio no chão e vejo ele entregar o relógio pra Laurel.
Laurel pega, com um brilho de vitória nos olhos.
Blake olha pra mim de cima. “Levanta. Para de agir como criança.”
Eu nem consigo proteger o que a mamãe deixou pra mim.
Depois que todo mundo sai, eu fico sentada sozinha até escurecer.
À noite, eu me deito na cama, e a cena do Blake forçando meus dedos a abrirem passa sem parar na minha cabeça, misturada com imagens do sorriso suave da mamãe.
Não. Eu não posso simplesmente desistir assim.
Eu desço e bato na porta da Laurel.
Ela está sentada no sofá, de pijama, mexendo no relógio como se não fosse nada.
Ela me vê. “Acordada até essa hora?”
Eu encaro o relógio. “Me devolve.”
“Mas o Blake disse que eu podia pegar emprestado por uns dias.”
“Eu quero agora.”
Ela dá uma risadinha. “Não vai rolar.”
“Eu troco por outra coisa.”
“Tipo o quê?”
“Eu tenho um carro. Joias…”
“Eu não preciso de dinheiro.”
“Então o que você quer?”
Ela inclina a cabeça. “Eu quero que você se ajoelhe.”
“E implore.”
Eu olho pro relógio na mão dela. Por fim, começo a dobrar os joelhos.
Bem na hora em que meus joelhos estão quase encostando no chão, o relógio escorrega da mão dela.
E se espatifa.
Eu fico paralisada, olhando pros pedaços no chão.
Laurel se levanta. “Ops, mão de manteiga. Mas tanto faz, é só tralha mesmo.”
Minhas mãos tremem quando eu tento juntar os pedaços, mas não tem como montar de novo.
“Sua mãe te deixou um lixo desses?” Laurel ri atrás de mim. “Mas acho que faz sentido. Ela era bem inútil. O marido traiu e ela só sabia chorar. Aí morreu de depressão.”
“Sabe por que ela morreu? Porque ela era patética. Não conseguiu segurar o homem. Então só sofreu e morreu sozinha.”
“Ela mereceu.”
“E você é igualzinha a ela. O Blake gosta de mim. Seu pai me ama mais. Você não compete comigo em nada. Você é uma perdedora.”
“Você acha que o Blake te ama? Acorda! Você não é nada pra ele. Só alguém com quem ele transa—”
No segundo seguinte, eu me lanço pra cima dela, agarro o cabelo dela e bato a cabeça dela na parede.
TUM.
Ela desaba no chão, segurando a testa sangrando, gritando.
