Capítulo 5

POV da Audrey

Blake entra no quarto como um furacão. Laurel está no chão, chorando, com sangue escorrendo pela testa.

— O que aconteceu? — a voz dele dava pra cortar vidro.

Estou ajoelhada no chão, segurando pedaços do relógio. Ergo o olhar pra ele. — E o que parece que aconteceu?

Blake olha pros pedaços quebrados, depois pra Laurel. A expressão dele vacila por um segundo, as sobrancelhas se juntando como se ele estivesse pesando alguma coisa.

Mas Laurel solta outro gemido de dor.

O rosto dele endurece. — Levem ela pro hospital.

A segurança entra e ajuda Laurel a se levantar com cuidado.

Blake se vira pra mim, os olhos gelados. — Fica onde está.

No dia seguinte, me chamam pro escritório dele.

Blake está sentado atrás da mesa, com uma expressão neutra. — Vou te mandar pro Riverside Recovery Center por alguns dias.

Eu travo. — Pra onde?

— Um lugar que ajuda com controle de raiva. — O tom dele soa normal, quase preocupado. — Você precisa aprender a se controlar.

— Isso é castigo?

— Estou te ajudando. — Ele pega uma caneta e assina uns documentos sem levantar os olhos. — Já falei com eles. Vão cuidar de você. Eu te trago de volta em alguns dias.

Cada palavra soa razoável, como se ele fosse um responsável consciente.

Eu encaro o rosto dele, procurando qualquer sinal de sinceridade.

Não tem nada.

O Riverside fica nos arredores. Prédios cinzentos, portões de ferro trancados com força.

Um funcionário me leva até um quarto pequeno. Sem janelas. Só uma cama e uma mesa.

— O Blake disse—

— Eu sei o que ele disse. — o cara me interrompe com um sorriso frio. — A gente vai cuidar muito bem de você.

Nos três dias seguintes, eu aprendo o que é o inferno.

Às cinco da manhã, eles me arrancam da cama pra eu ficar em pé por horas. Sem falar, sem me mexer. O jantar é pão e água.

No segundo dia, me obrigam a escrever cartas de desculpas sobre como eu machuquei a Laurel, sobre como eu sou ingrata. Eu não posso dormir até terminar.

No terceiro dia, me trancam numa sala completamente escura. “Terapia de isolamento emocional”, eles chamam. Seis horas sozinha, sem enxergar nada. O medo me afoga.

Antes de cada punição, eles dizem a mesma coisa: — Instruções especiais do Sr. Parker. Pro seu próprio bem.

Pro meu próprio bem.

A ironia.

Três dias depois, Blake manda um carro me buscar.

No carro, o assistente dele me diz: — O Sr. Parker falou com a Srta. Laurel. Ela voltou a morar na casa do seu pai.

Eu olho pela janela e não digo nada.

— A Srta. Laurel se machucou bem feio. Oito pontos na testa. O Sr. Parker espera que você pare de ir atrás dela.

Eu viro a cabeça e sorrio.

De volta à casa, eu vou direto pro meu quarto e me jogo na cama, encarando o teto.

Tudo que eu consigo ver são aqueles três dias. A sala escura. O pão frio. As desculpas sem fim.

E ele achou que estava me ajudando.

De repente, me dá enjoo. Olhar pra essa casa, pra essa cama, pra tudo aqui me dá vontade de vomitar.

Anoitece. Meu celular toca. É meu pai. — A família Thompson mandou o contrato e a passagem. O voo é hoje à noite. Vem buscar agora.

Eu desligo e encaro meu reflexo exausto no espelho.

Finalmente. Eu posso ir embora.

Eu pego um táxi até a casa do meu pai. Uma empregada diz que ele está no escritório.

Caminhando pelo corredor, passo pelo meu antigo quarto e ouço vozes lá dentro.

Eu paro.

A porta está entreaberta. A voz de Laurel escapa, doce e manhosa. “Blake, obrigada. Por ter ido atrás dela naquela época. Por ter se vingado pela minha mãe.”

Meu coração para.

A voz de Blake sai baixa. “Você salvou minha vida uma vez. Ela humilhou sua mãe. Eu tinha que fazer alguma coisa.”

“Mas você ficou com ela por três anos...” O ciúme pinga das palavras de Laurel.

“Isso acabou.” Blake diz. “É você que eu estava esperando.”

Eles estão se beijando.

Roupas caindo no chão.

Laurel ofega. “Não... aqui...”

“Ninguém vai aparecer.”

A cama começa a ranger. Os gemidos dela ecoam pelo quarto.

Eu tampo a boca com a mão, com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.

Minhas mãos tremem tanto que mal consigo me manter de pé.

As palavras continuam repetindo na minha cabeça.

Então era tudo falso. Ele nunca, nunca me amou de verdade.

Os sons dos dois juntos ficam mais altos.

Eu me viro e saio correndo na direção do escritório do meu pai.

“O Blake pediu ao senhor o direito de me controlar, não pediu?” Eu empurro a porta e abro de uma vez.

Meu pai paralisa.

“Me responde!”

Ele fica em silêncio por um instante. “...Sim.”

“Ele trocou um negócio de milhões de dólares pela permissão de controlar você. Claro que eu disse que sim.”

Eu rio. Rio até as lágrimas caírem.

Eu vou até a mesa dele, pego a passagem e o contrato e, então, me viro e saio.

De volta ao apartamento do Blake, eu fico na sala olhando em volta. Para onde eu olho, tem lembranças nossas.

Agora tudo parece uma piada.

Eu entro no quarto e começo a puxar tudo o que Blake me deu. Vestidos, relógios, colares, bolsas.

Jogo tudo no chão, formando um monte.

Aí eu começo a quebrar.

Eu despedaço tudo como se tivesse perdido a cabeça, até a sala e o quarto ficarem completamente destruídos.

Meu celular toca. É o Blake.

Eu atendo. “Fala.”

“Tenho um negócio pra resolver. Não vou voltar por uma semana.” A voz dele está calma como sempre. “Fica em casa e descansa. A gente conversa quando eu voltar.”

Eu quero rir.

Ele acabou de ficar com a Laurel e agora quer que eu espere em casa.

Eu desligo e sussurro: “Eu não vou esperar.”

Arrumando minhas malas, eu só levo o que é meu.

Eu organizo tudo direitinho no centro da sala e coloco um bilhete por cima.

Só duas palavras: Adeus.

Arrastando minha mala para fora de casa, eu olho para trás uma última vez.

Três anos. Três anos de mentiras. Três anos me enganando.

Acabou.

Eu entro num táxi. “Aeroporto.”

Eu costumava achar que a frieza dele significava que ele não sabia se expressar.

Eu costumava achar que a distância dele vinha de responsabilidade demais.

Eu costumava achar que, se eu só amasse ele o bastante, um dia ele acabaria me amando de volta.

Mas agora eu entendo.

Não é que ele não saiba amar.

Ele só nunca me amou.

O calor que ele me deu era só um caçador tendo pena da própria presa.

E eu fui burra o bastante pra achar que era amor.

O aviso de embarque soa.

Eu arrasto minha mala em direção ao portão.

Eu não olho para trás.

Porque tudo o que ficou atrás de mim já não importa mais.

O avião decola, subindo por entre as nuvens. Eu olho pela janela enquanto as luzes de Nova York ficam cada vez menores, até desaparecerem na escuridão.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo