Capítulo 3 A incrível oferta
Ria:
Eu tinha saído para fazer compras com a Cin. A Beth tinha uma visita em casa por causa dos meninos, então a gente se ofereceu para fazer a compra do mercado. Então, quando chegamos em frente à casa, não ficamos alarmadas ao ver um carro desconhecido na garagem. Eu estacionei na minha vaga de sempre, e eu e a Cin começamos a descarregar as sacolas.
— Espera… aquilo é uma Mercedes. Que assistente social do Conselho Tutelar anda numa porra de uma Mercedes? — a Cin perguntou, olhando para o carro, incrédula.
Eu dei de ombros, encarando o carro sem entender, enquanto carregava sacolas plásticas cheias de compras para dentro. A Cin apoiou uma das sacolas no chão e testou a maçaneta; estava destrancado, então ela abriu a porta. Entramos para deixar as sacolas na cozinha antes de voltar para pegar o resto. Quando chegamos ao corredor, a sala integrada já ficava ali, à vista. Sentados no sofá estavam a Beth, o Elijah e o Marcus. Numa poltrona de encosto alto, havia um senhor mais velho usando um terno impecável. Eu sabia que, quem quer que ele fosse, com certeza não era do Conselho Tutelar.
— Ótimo, vocês meninas chegaram. Ria, este cavalheiro veio de Cornell. — Eu deixei cair as sacolas que estava carregando, certa de que tinha ouvido errado.
— Desculpa… o quê que você disse?
— Ele veio de Cornell para falar com você. Que tal eu, a Cin e os meninos cuidarmos das compras, pra vocês dois conversarem?
Com isso, a Beth veio e pegou as sacolas que eu tinha deixado cair. Por um segundo, eu pensei, apavorada, que tivesse quebrado alguma coisa. Aí eu fui até a sala e me sentei no sofá, onde a Beth e os meninos estavam segundos antes. Uma parte da minha cabeça registrava minha família indo e vindo, carregando sacolas. A parte maior estava totalmente focada no homem sentado na nossa sala.
— Tenho certeza de que isso é um choque, senhorita Dragoi, mas como o tempo era um fator, decidiu-se que eu viria pessoalmente.
Ele sorria de leve, mas eu não sabia o que pensar dele.
— É Ria, por favor. Senhor…?
— Ah, minha nossa, me desculpe. Meu nome é Victor Bogdan. Fui enviado para falar com você em nome da Universidade Cornell.
Eu pisquei algumas vezes.
— Bom, senhor Bogdan, eu estou confusa sobre por que uma universidade tão prestigiada mandaria o senhor até aqui para falar comigo.
— Ria, eu estou aqui para lhe dizer que você foi aceita na universidade, com mensalidade, livros e moradia no alojamento pagos integralmente, além de uma ajuda de custo generosa para alimentação.
Ele simplesmente parou por aí, enquanto eu tentava fazer minha cabeça voltar para o lugar e meus pulmões lembrarem como funcionava.
Eu devia estar com cara de peixe, abrindo e fechando a boca, tentando achar alguma coisa para dizer.
— Senhor Bogdan… eu estou… sem palavras com tamanha generosidade, mas eu preciso perguntar: como eu fui escolhida para isso?
— Você foi indicada para avaliação pela senhora Jennifer Montgomery. Nós oferecemos essa bolsa para jovens que cresceram no sistema de acolhimento e, ao completar a maioridade, estão tentando entrar na faculdade.
Aquilo até fazia sentido. Eu podia ligar para a Jennifer e confirmar, e provavelmente era algum abatimento enorme de imposto para a universidade.
— O senhor tem alguma documentação que eu possa ver?
Ao ouvir isso, o senhor Bogdan pegou uma pasta de couro que estava ao lado dele na poltrona e a estendeu para mim.
Quando abri a pasta, encontrei informações com o brasão da Universidade Cornell. Tinha a lista de disciplinas e informações sobre o dormitório. Um detalhamento do que a bolsa cobria. Estava tudo ali. Era de verdade — meu Deus do céu, era de verdade.
— Se você aceitar a bolsa, precisa assinar os formulários. Depois, vai ter que se matricular imediatamente nas matérias que quiser cursar, mas dá para fazer isso pela internet. Você deve se apresentar na Universidade e planejar a mudança para o dormitório até o dia 24 de agosto, já que as aulas começam no dia 27.
Pensei naquilo; não era muito tempo — menos de um mês, na verdade.
— O senhor tem uma caneta, senhor Bogdan?
Ele sorriu de verdade, em vez daquele sorriso educado que vinha usando. Enfiou a mão no bolso do colete e tirou uma caneta chique. Peguei e assinei imediatamente os formulários dentro da pasta. Depois, entreguei os papéis e a caneta ao senhor Bogdan.
— Obrigado, minha querida. Vou garantir que isso seja processado o quanto antes. Nos veremos em breve. Se tiver perguntas, ligue para o número que está no envelope. Tenha uma ótima noite.
Com isso, ele se levantou, ajeitou o paletó, fez uma leve inclinação de cabeça e saiu pela porta. Fiquei sentada no sofá, atônita, encarando a bomba de informação que tinha explodido na minha cara. Minha família entrou, andando com cuidado, e se sentou em lugares ao redor da sala.
— Quanto disso vocês ouviram?
Cin bufou para mim.
— O que você acha? Eu não ia te deixar sozinha com ele, então ouvi tudo.
Eu sorri para ela. É, eu já tinha imaginado que eles não tinham ido longe.
— Pegaram todas as compras?
Beth estendeu a mão e deu um tapinha no meu joelho.
— Sim, querida, pegamos tudo e já guardamos.
Eu assenti sem pensar, ainda zonza com a reviravolta.
— Então, você assinou e aceitou, como com toda certeza deveria ter feito. Agora, temos trabalho a fazer. Você só tem mais 22 dias para deixar tudo pronto.
Beth fez que sim para mim, deu um tapinha no próprio colo e se levantou. Depois saiu apressada para começar a organizar as coisas.
Mais tarde naquela noite, eu estava deitada, sem conseguir dormir. Minha cabeça estava ocupada demais, pensando em tudo o que eu precisava resolver. A porta rangeu baixinho ao abrir, e eu virei o rosto para ver Cin espiando pela fresta.
— Eu imaginei que você não ia estar dormindo. Eu também não.
Ela entrou, e eu me sentei na cama, me arrastando para trás para encostar na cabeceira. Cin subiu na cama e se sentou ao meu lado, também apoiada na cabeceira.
Eu observei o rosto dela, sabendo que aquilo era difícil para ela. Para mim também. Ia ser uma mudança enorme para todo mundo.
— Eu me sinto uma puta egoísta, mas uma parte de mim não quer que você vá. Eu sei que você tem que ir, mas eu vou sentir sua falta pra caralho.
Vi uma lágrima descer pelo rosto dela.
— Eu também vou sentir sua falta, mas não é pra sempre. Eu volto nos feriados e no verão. E, além disso, a gente pode fazer chamada de vídeo, dá pra se ver.
Ela assentiu, mas ficou em silêncio.
— E você só tem mais um ano. Talvez eu consiga dar um jeito, puxar uns contatos, e te colocar na lista pra uma bolsa.
Ela sorriu.
— Eu ia gostar disso. Você consegue imaginar nós duas juntas numa faculdade chique dessas? A gente ia escandalizar aquele povo.
Nós duas rimos. Encostei a cabeça no ombro dela, e ela apoiou a cabeça na minha. Ficamos assim, sem dizer nada, só servindo de apoio uma pra outra. Passei esse tempo organizando o que eu precisava. Tinha muita coisa que eu só ia conseguir depois que chegasse lá. Eu tinha decidido usar a passagem de avião que vinha incluída. Eles tinham mandado um monte de informações sobre o transporte público disponível. Então, resolvi deixar meu carro. Ia ajudar a Cin no vai e vem da escola e no que ela precisasse pra ajudar a Beth. Eu usaria o carro sempre que viesse pra casa. Fazia mais sentido.
Isso significava que eu só podia levar o que coubesse em duas malas: uma despachada e uma de mão. Qualquer outra coisa eu teria que comprar quando chegasse. Fiz questão de passar tempo com todos eles. Joguei videogame, brinquei de Lego e joguei futebol com os meninos. Cozinhei, fiz bolo e cuidei das flores com a Beth. Passei dias fazendo compras, indo ao spa, vendo nossos filmes preferidos, comendo besteira e fofocando com a minha irmã, a Cin. Quando eu vi, já estava no aeroporto, fazendo o check-in. Eu tinha me despedido em casa. Não queria uma despedida grande e cheia de emoção na frente de desconhecidos.
O aeroporto mais perto da gente era pequeno. Eu embarcaria num avião menor e, depois, pegaria a conexão saindo de Columbus. Aí eu voaria pra Washington, D.C. e, depois de uma escala curta, pegaria o voo pra Ithaca. Depois de pousar, tinha shuttle que ia até a Universidade. Então, ainda hoje à noite, eu vou estar no meu novo dormitório. Eu era um nó de emoções. Estava animada, mas também com medo e nervosa. Já fazia um tempo desde que eu tinha ficado sozinha nas ruas, mas uma parte de mim sentia que deixar minha família era como voltar pra aquela incerteza e aquele perigo. Pela lógica, eu sabia que isso era errado, mas eu não conseguia manter minhas emoções estáveis.
O dia foi exaustivo, passando por aeroportos, procurando portões e embarcando em avião atrás de avião. Quando eu finalmente pousei em Ithaca, eu só queria sair dali. Peguei minha mala despachada e fui pra fora procurar transporte. Consegui pegar um shuttle até a Universidade. Me deixaram em frente ao prédio da administração. Eu já tinha o número do meu dormitório, mas precisava pegar meu documento de estudante e o cartão-chave do meu quarto.
Depois de tudo isso, já eram quase seis da tarde, e eu estava acabada. Segui o mapa e cheguei ao meu dormitório. Quando abri a porta, dei de cara com um ambiente que parecia uma sala de estar. Eu via um sofá, uma mesa de centro e uma TV. Havia outras três portas. Notei uma plaquinha do lado de fora de uma delas, então deduzi que aquele era o quarto que a minha nova colega de quarto tinha escolhido. Abri outra porta e encontrei o banheiro. Aí entrei no meu quarto.
Tinha uma cama de solteiro, um guarda-roupa e uma escrivaninha com cadeira. Eu tinha uma janela que dava pro pátio interno do campus. Larguei as malas e me sentei na cama. Fiquei surpresa por o colchão ser realmente confortável. Eu tinha imaginado algo perto de uma maca de prisão, mas, enfim, uma universidade da Ivy League devia oferecer coisa melhor. Eu ainda ia precisar comprar roupa de cama e outras coisas pro quarto. Eu não achava que tinha tempo — nem ânimo — pra fazer isso hoje. Eu ia dormir no colchão pelado mesmo, com o travesseiro que tinha ali. Eu não era exigente. Depois que você dorme na rua, você para de frescura quando tem um colchão e uma cama de verdade.
Ouvi umas batidinhas na minha porta. Levantei e abri. Do outro lado estava uma garota da minha idade, bem alta. Eu já era mais alta que a média, com 1,73 m, então ela devia ter por volta de 1,78 m. Tinha cabelo loiro curto, terminando um pouco acima dos ombros, com uma ondinha. Os olhos castanhos pareciam cheios de travessura. Aquele brilho me lembrou a Cin.
Ela estava sorrindo e estendeu a mão na minha direção. — Oi, eu sou a Natalia Balaur e vou ser sua nova colega de quarto.
Apertei a mão dela. Ela tinha um sotaque que eu tentava identificar. Estava de short e regata, descalça. — Eu sou Adriana Dragoi, mas pode me chamar de Ria.
Ela passou por mim e entrou no meu quarto. Eu não tinha certeza se tinha gostado disso, mas resolvi deixar pra lá por enquanto. Ela olhou ao redor do meu quarto completamente vazio. — Você precisa de ajuda pra organizar as coisas? — parecia empolgadíssima só de pensar nisso.
— Não, agora não. Eu vim de avião de Ohio, então só consegui trazer duas malas. Amanhã vou ter que ir comprar o resto das coisas que eu preciso.
Ela fez bico, parecendo chateada. — Ah, não… Você quer pegar emprestado uns lençóis e um cobertor? Eu só tenho um edredom, mas tenho cobertores extras.
Pensei por um instante. Ia ser mais confortável, e eu só pegaria emprestado por uma noite. — Quero sim, ia ser ótimo. Muito obrigada.
Ela sorriu e foi até o quarto dela, voltando com um jogo de lençóis lilás e dois cobertores. Ela me ajudou a arrumar a cama, mesmo quando eu disse que não precisava. Os cobertores que ela trouxe eram muito macios, e os lençóis pareciam chiquérrimos. Ela disse que a comida do refeitório devia ser boa. Então fomos juntas procurar algo pra comer. Surpreendentemente, tinha uma boa variedade de opções. Nós duas escolhemos pizza e ficamos conversando sobre as aulas enquanto comíamos.
Ela estava planejando fazer Administração. — Meus irmãos tocam vários negócios, e eu queria trabalhar com eles, então Administração pareceu a melhor escolha.
— Eu quero fazer Psicologia, mas preciso ver a possibilidade de eliminar algumas matérias básicas por prova.
— Você já fez essas matérias?
Eu não ia deixar ela saber que eu sou uma esquisita, então só falei: — Fiz muita coisa online.
— Ah, que legal… seria tão bom poder pular essas matérias.
Assenti e mudei de assunto. — Você falou de irmãos… quantos você tem?
— Tenho quatro. — Ela fez uma pausa e soltou um suspiro. — Às vezes eles são superprotetores, mas a gente se dá bem.
— Eu tenho uma irmã e dois irmãos. Tecnicamente, são de adoção, mas a gente nem faz essa distinção. A gente é só família.
Voltamos pro dormitório. Eu estava cansada, então desejei boa noite pra ela. Deitei na cama naquela noite pensando na minha família. Eu tinha mandado mensagens dizendo que tinha chegado bem. De manhã, vou ligar pra eles e contar sobre o meu dormitório e sobre minha nova colega de quarto. Acho que este ano pode ser o começo de algo incrível.
