Capítulo 5 Fazendo um balanço

Ria:

Eu estava falando com a Cin por vídeo no meu laptop. A gente já conversava fazia alguns minutos.

Por fim, ela perguntou: “Então me conta mais sobre sua colega de quarto e esses irmãos.”

“Bom, eu já te disse que ela me lembra um pouco você. Ela é toda animada e extrovertida. Não existe desconhecido pra ela.”

Fiz uma pausa, e ela disse: “Tá, continua.”

Eu ri um pouco. “Ela tem quatro irmãos mais velhos: Drago, que é o mais velho, depois vem Ash, Cinder e Cole.”

“Os pais deles eram tipo bombeiros ou alguma coisa? Porque qual é a desses nomes?”

“Não sei, Cinnamon Sugar.”

Ela riu. “Ok, ponto pra você. E como eles são?”

“Bem, eu só fui lá uma vez. Eles pareceram de boa. Pelo menos não eram intrometidos pra caramba.”

Parei por um instante. “Você já viu minha colega de quarto.”

“Já.” Ela deu de ombros. Tinha entrado numa chamada de vídeo uns dias depois de eu chegar aqui.

“Então, ela não se parece em nada com eles. Eles são todos bem altos, fortes, com cabelo escuro e olhos azuis ou cor de avelã. Ela é loira, com olhos castanhos. Eles podem ser meio-irmãos ou algo como a gente, mas eu não sei.”

“Você perguntou alguma coisa pra eles?”

Dei de ombros. “Não. Eu nem sabia direito o que eu queria saber. A Natalia basicamente despeja qualquer coisa, absolutamente tudo. Ela fala deles o tempo todo. Não me entenda mal, eu gosto dela, mas pra mim acaba ficando demais.”

“Eu sei, amiga. Você não é a diva social que eu sou. Eu sinto sua falta, porra, todo mundo sente sua falta. A Beth tem assado coisas, e eu juro que já ganhei cinco libras.” A Beth tinha a mania de assar um monte quando ficava triste ou estressada.

Eu ri tanto com isso que até enxuguei as lágrimas de tanto rir e olhei pra ela. “Eu também sinto sua falta. Estou contando os dias até as férias de inverno.”

“Então, o que aconteceu com os testes?”

“Meu Deus, foi incrível. Quando eu fui lá primeiro pra falar com eles sobre isso, a orientadora estava toda metida, como se eu fosse uma dor no cu dela só por perguntar.”

Cin assentiu e fez um hummm de quem entendia.

“Bom, depois das provas, eu fui ao escritório na segunda-feira pegar os resultados.”

De novo o hummm e o aceno. “Eu quase ri alto quando ela abriu as notas e eu gabaritei tudo. Eu queria esfregar na cara dela com tanta força, mas me controlei.”

Cin riu de verdade. “Você contou pra eles que você é tipo um supercérebro ou algo assim?”

“Porra nenhuma. Eu não quero que as pessoas me tratem como se eu fosse uma aberração. Você já viu acontecer antes. Eu odeio essa merda do caralho.”

“Eu sei, querida, mas você não é uma aberração. Você só é inteligente pra cacete, e seu cérebro não esquece. Que nem um elefante.”

“Meu Deus. Você acabou de me chamar de elefante?”

Ela estava rindo. “Não, sua idiota. Você conhece aquele ditado, elefante nunca esquece. Foi isso que eu quis dizer.”

— Eu sei que eu só estava te enchendo, é meu dever sagrado como sua irmã.

Ela revirou os olhos.

— Sem dúvida.

— Então, me conta da escola. Como é a sensação de estar no último ano do ensino médio agora?

Eu ouvi a Cin me entreter com todas as aventuras dela no colégio. Uma parte de mim odiava estar perdendo aquilo, mas outra parte amava estar aqui e viver algo tão normal.

Não havia muito de normal na minha vida, e ter isso agora era como respirar ar fresco. Tá, essa coisa da bolsa integral com algo a mais era esquisita, mas estar aqui — estar aqui de verdade — fazia eu me sentir só uma garota normal de dezoito anos. Eu amava cada segundo.

A Natalia estava fora, num laboratório que precisava fazer, então, depois que desliguei com a Cin, decidi aproveitar o silêncio e tomar um banho. Depois, talvez eu olhasse de novo minhas novas opções de disciplinas. Eu precisava entregar aquilo até, no máximo, sexta-feira, e já era quarta. Eu sabia o que todo mundo dizia; eu estava tendo um debate interno.

Consegui tomar um banho bom, demorado e relaxante, até ouvir a porta se fechar. A Natalia devia ter voltado.

Saí e me sequei. Eu não gostava de ter que ficar no banheiro para secar o cabelo. Demorava demais, e eu odiava a sensação de estar monopolizando o espaço.

Bem na hora em que eu ia ligar o secador, Natalia apareceu na porta.

— Ei, colega de quarto, meus irmãos querem levar a gente pra jantar. Eles querem ajudar a comemorar você ter passado em todas as suas provas.

Eu fiquei ali olhando, pasma.

— Ah… como eles ficaram sabendo disso, e por quê?

— Ué, claro que eu vou me gabar de você. Eles sabem que você não tem família aqui e, já que a gente é amiga, eles querem ser seus amigos também. Amigos fazem coisas legais uns pelos outros.

Eu fiquei sentada pensando. Eu não era a melhor juíza do que era normal. Eu viraria uma ermitã se dependesse de mim, mas até eu sei que isso não seria bom. A Cin não achou estranho ir à casa deles, então isso parecia entrar na mesma categoria.

— Ah… tá, claro. Deixa eu me arrumar; é tipo informal, né?

Ela sorriu.

— Sim, totalmente. Vou estar de jeans, e eles provavelmente também. Eles chegam em uma hora. Dá tempo?

— Ah, dá sim, com certeza. Preciso secar o cabelo e vestir alguma coisa.

Ela sorriu pra mim e voltou pro próprio quarto. Eu terminei de secar o cabelo e fiz uma trança. Depois vesti um jeans, uma blusa azul-escura bem decente e minhas Doc Martens.

Os irmãos dela ligaram quando chegaram, e nós saímos para encontrá-los. A Natalia tinha me garantido que eles tinham um carro grande o bastante pra todo mundo e, dito e feito, era um SUV de luxo alongado. Eu não sou muito de carro, então não sabia que modelo era, mas era bonito. Nós duas entramos atrás e fomos embora.

Acabamos indo parar num daqueles restaurantes de rede que têm um pouco de tudo. O que foi ótimo, porque provavelmente seis adultos — quatro deles grandalhões — precisam de variedade.

A recepcionista nos acomodou, obviamente babando nos caras o tempo todo. Ou eles já estavam acostumados com isso, ou escolheram ignorá-la.

Não é como se eu não entendesse o apelo. Eles são todos muito gostosos. Eu tenho dificuldade de passar por cima das minhas travas pessoais, então eu não namoro muito.

Eu tentei depois que fui morar com a Beth, mas eu sempre tinha ataques de pânico, ou então simplesmente não estava interessada. Então desisti. Achei que, se fosse pra ser, algum dia apareceria alguém que me deixasse à vontade e tivesse paciência pra me ajudar a superar meus problemas.

Depois que uma garçonete veio e anotou nosso pedido de bebidas, estávamos todos encarando o cardápio quando Drago disse:

— Parabéns por ter arrebentado nas provas. Então, o que você faz agora?

Ergui os olhos do cardápio pra ele.

— Bem, eles me deram uma lista de matérias disponíveis que eu posso fazer pra substituir as que eu dispensei com a prova. Tenho que escolher e entregar na administração até sexta-feira.

Ele assentiu, e Cinder completou:

— Você já tem ideia de quais vai escolher?

— Mais ou menos. Eu basicamente reduzi pra seis, e preciso escolher três. Então, pensei que entre hoje à noite e amanhã eu tomo a decisão final.

Ash olhou pra mim.

— Você acha que vai ser difícil entrar numa turma nova que já está rolando há quase três semanas?

Sorri de leve e me virei pra ele.

— Não, na verdade não. Normalmente eu sou bem boa em colocar as coisas em dia. Fiz boa parte da minha escolaridade praticamente por conta própria, então fiquei boa em estudar sozinha. Também leio bem rápido, então, com isso, ajuda a alcançar o resto.

— Bem, a administração provavelmente não teria sugerido essas matérias se não achasse que você dá conta — acrescentou Cole, baixinho.

Cole era o irmão mais quieto até então. Ele me lembrava o ditado: “águas calmas são profundas”. Parecia personificar isso.

Cinder era o mais parecido com a Natalia, com aquela personalidade animada, empolgada. Parecia o tipo de cara que é a alma da festa.

Ash era quieto, mas não no sentido de tímido; era mais aquele silêncio vigilante de um predador. Tinha algo definitivamente predatório nele. Ele não me assustava nem me fazia me sentir ameaçada; eu só reconhecia a vibração.

E aí tinha o Drago. Ele parecia o protetor de todo mundo. Assumia a responsabilidade pela família, pela segurança e pela felicidade deles. Dava pra sentir que ele carregava muito peso nos ombros. Ele era doce e curioso, mas, ao mesmo tempo, como um enorme pedregulho sustentando todo mundo, a base deles.

Eles pareciam se equilibrar bem, mas, honestamente, eu não os conhecia havia tanto tempo. Dava para sentir que eles se importavam uns com os outros. As brincadeiras descontraídas naquela noite na casa tinham mostrado isso.

Eu sabia que eles estavam tentando me incluir. De certa forma, eu era grata, porque sentia falta da minha própria família, mas tinha receio de confiar nas pessoas. Quero dizer, naquele momento, as motivações deles pareciam corretas, mas eu sabia que isso podia mudar. Então eu teria que esperar para ver.

Eu não era contra passar tempo com eles. Eu preferia fazer isso em família, com Natalia como uma presença reconfortante. Se eu ficasse a sós com qualquer um dos irmãos, isso poderia mudar completamente a dinâmica. Não que eu estivesse planejando ficar sozinha com eles, mas coisas acontecem o tempo todo, e fazia parte da minha natureza avaliar situações o tempo inteiro.

A garçonete veio e anotou nosso pedido. Depois, eles conversaram entre si por um tempo, aparentemente para me ajudar a ficar mais à vontade.

Quando a comida chegou e todos começamos a comer, Drago olhou para mim e perguntou:

— Você conseguiu contar para sua família sobre os testes?

Eu assenti.

— Sim. Na verdade, eu estava em uma chamada de vídeo com a minha irmã mais cedo hoje à tarde, e a gente falou sobre isso. — Eu sorria, tentando não rir, por causa do que eu tinha contado para Cin.

Drago inclinou a cabeça e me observou por um instante.

— E esse sorriso? Parece que você estava pensando em alguma coisa específica que te divertiu.

Pensei um pouco e então contei:

— Eu estava falando para o Cin sobre a orientadora com quem eu tive que falar para marcar os testes. Ela foi super condescendente e metida com tudo isso. Aí, quando eu fui ao gabinete dela pegar os resultados, ela quase engoliu a língua quando viu que eu tinha passado em tudo. Eu queria ser uma babaca e esfregar na cara dela, mas me contive.

Todos riram comigo.

— Você já fez testes assim antes? — perguntou alguém.

Eu olhei para Cole e decidi responder a ele. Talvez aquela fosse uma forma de testar se eles eram sinceros na maneira como lidavam comigo.

— Na verdade, sim. Eu fiz provas de eliminação de quase todo o ensino médio, então me formei aos catorze. Houve alguns problemas para conseguir meu diploma por causa de questões familiares. Então demorou um pouco para eu pegar ele de fato e deixar tudo oficial.

Eles ficaram de todo tipo de jeito, sem palavras, só me encarando. Eu esperei para ver o que diriam.

— Uau, isso é impressionante pra caramba. — Cinder me olhava com um pouco de admiração no rosto.

Todo mundo à mesa assentiu, mas deixaram por isso mesmo. Fiquei feliz que não fizeram um escândalo nem me olharam como se eu fosse uma aberração. Fiquei feliz que tinha sido relativamente normal.

Eu estava descobrindo que eu gostava muito, muito de normal.

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