Capítulo 3
POV da Evangeline
— O que você está fazendo?!
Damien rugiu, avançando e empurrando os empregados para o lado. Ele desamarrou rápido as cordas que me prendiam e arrancou a mordaça da minha boca.
— Evangeline, o que aconteceu? Quem te machucou?
Ele me puxou para os braços com cuidado, dando tapinhas leves nas minhas costas para me acalmar.
No instante em que encontrei alguém em quem me apoiar, eu não aguentei mais e desatei a chorar.
Damien sempre me amou, sempre me tratou tão bem, nunca aceitou que eu sofresse nem a menor injustiça.
Uma semana depois do nosso casamento, mandaram ele para trabalhar na filial de Valen City. No começo, ele voltava toda semana para me ver; depois, conforme o trabalho foi ficando mais pesado, passou a vir só uma vez por mês.
Toda vez que voltava, ele me levava para sair e me enchia de presentes, com medo de eu ficar triste naquela mansão enorme.
Nos dias em que ele ficava longe, eu fantasiava inúmeras vezes que, quando a carreira dele se estabilizasse, ele me levaria para morar em Valen City. Nossa pequena família de três viveria uma vida comum, feliz.
Dessa vez, fui eu quem tinha pedido para ele voltar.
Depois que Damien conseguiu me acalmar o suficiente para eu não estar mais soluçando tanto, ele levantou a cabeça e encarou todos os presentes com raiva.
— Pai, mãe, a Evangeline é a sua nora. Como vocês puderam tratar ela desse jeito?!
O olhar dele foi para Gabriel, e a decepção era clara no tom de voz.
— Gabriel, você e a Ophelia sempre trataram a Evangeline como uma irmã. Como você pôde ficar do lado do meu pai e da minha mãe e ajudar a humilhar ela?
Gabriel não respondeu; só ficou em silêncio, parado de lado.
Marcus soltou uma risada fria.
— Ela está grávida.
— Grávida? — Damien travou e, em seguida, os olhos dele brilharam de alegria. — Isso é maravilhoso! Eu e a Evangeline vamos ter um—
Clarissa o interrompeu, estendendo o celular.
— Olha isso primeiro.
Meu coração se apertou. Por instinto, eu quis arrancar o celular da mão dele e quebrar, mas, antes que eu conseguisse me mexer, Damien já tinha pegado.
Na tela, Ophelia estava ajoelhada dentro da capela, com uma expressão de tristeza, as mãos juntas, murmurando alguma coisa.
Eu vi as pupilas de Damien se contraírem de leve. O olhar dele mudou.
Eu tremi inteira, apavorada. Segurei o rosto dele com as duas mãos, forçando Damien a olhar para mim.
— Damien, não olha. Por favor...
Eu ainda guardava um fiapo de esperança.
Damien me amava tanto. Uma vez, ele tinha se colocado na frente de um caminhão em alta velocidade para me salvar, quase perdendo a vida. Ele não podia, de jeito nenhum, me obrigar a abortar o nosso bebê por causa da Ophelia.
Mas, sob o meu olhar esperançoso, ele disse a mesma coisa que todos os outros.
— Evangeline, aborta o bebê.
Aquelas palavras me atingiram como um trovão, me despedaçando por dentro.
Meu último fiapo de esperança se quebrou de vez.
Um tapa estalado acertou o rosto dele. Eu atirei o exame do pré-natal nele, exigindo, em completo desespero:
"Damien, esse filho é seu, do seu sangue! Ele está saudável — não tem nada de errado com ele! Que direito você tem de matar ele!"
Damien lançou um olhar para o laudo, a testa franzida, mas ainda assim disse, frio: "Eu já te falei, essa criança não pode ficar."
Ao ouvir aquela resposta, senti como se toda a força tivesse sido sugada do meu corpo.
Não consegui evitar de rir — uma risada amarga, miserável. "Damien, você sabe? Esse bebê na minha barriga é o nosso terceiro filho."
"O primeiro, o segundo... seus pais me obrigaram a abortar os dois."
Ao ouvir isso, Damien ergueu a cabeça num sobressalto; choque e incredulidade cintilaram nos olhos dele.
Ele me encarou atordoado, os lábios tremendo de leve.
Eu não tinha contado a ele sobre as duas primeiras gestações. Eu nem sequer tinha mencionado que estava grávida.
Eu queria esperar até vê-lo para dar a notícia maravilhosa pessoalmente.
Mas, em todas as vezes, meu bebê não viveu para ver o dia em que ele voltava para casa.
Eu escondi isso dele, com medo de que, se soubesse, ele rompesse com os pais.
Eu até fantasiava, ingenuamente, que quando esse bebê nascesse, ele me tiraria daqui e me levaria para Valen City, e nós começaríamos uma vida nova como uma família de três.
Mas agora parecia que tudo não tinha passado de ilusão minha.
"Damien, eu te odeio..."
Antes que eu conseguisse terminar, uma dor aguda atingiu a parte de trás da minha cabeça.
Minha visão escureceu, e eu perdi a consciência.
...
Quando acordei de novo, já era madrugada.
Eu estava deitada num quarto de hóspedes da mansão, uma dor oca se espalhando pelo baixo-ventre.
Com as mãos tremendo, coloquei a palma sobre a barriga. Estava lisa de novo — o bebê tinha sumido.
As lágrimas escorreram em silêncio pelo meu rosto, encharcando o travesseiro.
Virei o rosto e vi Damien dormindo no sofá ao lado da cama, a testa franzida, como se estivesse tendo um pesadelo.
Eu não o acordei. Arrastei meu corpo fraco para fora da cama, em silêncio. Eu precisava encontrar Ophelia e perguntar a ela, cara a cara, o que exatamente ela queria.
Abri a porta e vi uma figura conhecida caminhando em direção aos fundos da mansão.
Ao luar, a silhueta de Ophelia parecia tão frágil, mas os passos dela estavam estranhamente decididos. Como se eu estivesse enfeitiçada, eu a segui.
Pelo jardim, contornando a fonte, a antiga capela parecia ainda mais sinistra na noite.
Ophelia empurrou a pesada porta de madeira e entrou. Eu fui atrás, em silêncio, me escondendo atrás de um pilar de pedra, prendendo a respiração.
Dentro da capela, a luz das velas tremeluzia. Ophelia se ajoelhou diante da estátua da Virgem Maria, as mãos unidas, e começou a rezar em voz baixa.
Naquele instante, meu sangue gelou.
Eu finalmente soube por que a família inteira do meu marido tinha me obrigado a abortar três bebês.
