Capítulo 2

~MARLOWE~

Meus dedos não se apressaram. Eu disse pra mim mesma que era porque eu queria aproveitar. Verdade? Eu estava enrolando.

Se eu me mexesse rápido demais, ia parecer que eu precisava disso. Como se eu tivesse esperado ele voltar. Como se eu não tivesse passado as últimas três noites pensando se ele ainda estava respirando em algum lugar da estrada.

Então apoiei a mão no peito dele como se fosse rotina. Como se eu fizesse isso com qualquer homem com dinheiro suficiente e um ego. O peito dele estava quente, firme. Debaixo do meu toque, ele não se mexeu. Não disse meu nome. Nem se remexeu.

O pensamento, talvez ele não tenha me reconhecido, se esgueirou pela minha mente.

A iluminação era baixa. Minha maquiagem, pesada. Mystique não sorria do jeito que a Marlowe sorria. Mystique não se importava.

Mais decidida, me movi em volta dele devagar, deixei meus dedos passearem: por cima do músculo, do calor. Pelas costas dele.

Deus. Ele era gostoso. Gostoso demais.

Eu não devia querer tocar nele assim. Mas eu tinha querido mesmo assim. Há anos. Desde antes de entender que, nesse mundo, querer alguém significava que a pessoa podia usar isso contra você.

Minhas unhas subiram pela coluna dele até o cabelo, onde apertei o polegar na base. Ele inalou. Rápido.

Isso não foi reconhecimento. Foi reação.

Um arrepiozinho idiota correu por mim. Tá. Você me sente.

Voltei pra frente dele. Perto o suficiente pra minhas coxas encostarem nos joelhos dele. Ainda nada. Nenhum lampejo de surpresa. Nenhum “Marlowe”.

Senti a decepção me invadir. Ele me olhava do jeito que homem olha pra mulher que paga pra fazer um show: distante. Faminto. Avaliando. Isso doeu mais do que eu esperava.

Tá bom. Se é só isso que eu sou nessa sala, então eu vou te dar algo que valha o seu dinheiro.

Com esse pensamento emperrado na cabeça, minhas mãos desceram pelo peito dele, depois, devagar, pela barriga.

Minha pulsação estava estranha. Alta nos meus ouvidos. Minha pele arrepiada, como se eu tivesse tomado café demais, eu pensei.

Me sacudi por dentro, ignorando a sensação e, me enfiando entre os joelhos dele, mexi o quadril uma vez. Nada dramático. Só o suficiente.

O maxilar dele enrijeceu, mas ele ainda não me tocou.

Por que ele não me tocava? Porque não sabia? Ou porque sabia?

Me levantei de novo, roçando nele no caminho, deixando meu peito pairar perto do rosto dele.

Se ele soubesse que era eu, ele ia parar com isso. Não ia?

“Ainda me vê como a garotinha do Stye?”, murmurei antes de conseguir me segurar.

Idiota.

A garganta dele mexeu.

Aí. Reconhecimento. Sutil. Mas tá ali.

Meu estômago virou, mas eu disfarcei passando a perna por cima da coxa dele e me acomodando no colo.

O contato fez o calor atravessar meu corpo direto. Ele estava duro: pela dançarina. Pela Mystique. Não por mim.

Uma risada estranha, amarga, quase saiu da minha boca.

Tudo bem.

Rolei o quadril uma vez. Devagar, cuidadosa, ao mesmo tempo em que enlaçava os braços em volta do pescoço dele.

Se ele ia fingir que eu era só mais um corpo na sala, então eu ia fazer ele sentir.

Me inclinei e rocei o canto da boca dele com a minha.

Ele não me parou. Também não me puxou pra mais perto. Mas as mãos dele agarraram a cadeira.

Ainda se segurando. Ainda escolhendo distância.

Isso doeu mais do que se ele tivesse me empurrado.

Escorreguei do colo dele e me inclinei entre os joelhos, passando a língua pelo lábio inferior dele.

Os lábios dele se entreabriram, e as mãos deram um espasmo com o gesto.

— Me toca — sussurrei. Soou errado. Não era brincadeira. Não era provocação. Era carência. E eu odiava isso.

As mãos dele se fecharam em punhos e algo mudou no olhar: fome.

Dessa vez eu subi totalmente no colo dele, de frente, encaixando as pernas dos dois lados. Depois, me inclinando pra trás, esfreguei meu corpo no dele.

— Eu não sou uma criança — eu disse, ofegante.

Aquilo bastou. As mãos dele subiram rápido, apertando minhas costelas e me puxando pra perto. A boca dele bateu na minha. Sem cuidado. Sem cautela. Rude. Como se ele tivesse segurando aquilo fazia tempo.

A mão dele se enroscou no meu cabelo e ele se mexeu contra mim com força suficiente pra me fazer arfar.

— Porra, eu te quero, Marl — ele rouquejou.

Essas palavras abriram alguma coisa dentro de mim. Eu queria ouvir isso desde os quinze anos, quando andava atrás dele como uma sombra.

Meu corpo reagiu antes de o meu cérebro alcançar.

De repente, ele parou. Não completamente. Só o suficiente.

O jeito que ele me segurava mudou, e a boca dele se afastou da minha.

Os olhos dele ficaram mais atentos e ele rosnou:

— O que foi que ela te deu?

As palavras não faziam sentido.

— O quê? — perguntei, tentando acompanhar com a cabeça.

O polegar dele pressionou debaixo do meu queixo.

— O que foi que ela te deu, Marl?

O quarto pareceu ficar um pouco torto, e eu balancei a cabeça, afastando aquela suspeita.

— Eu não tomei nada — menti, mas até eu ouvi a demora na resposta.

Minha língua parecia pesada. Meu equilíbrio, instável, enquanto eu tentava escorregar do colo dele.

A expressão dele enrijeceu. Não contra mim, mas contra outra coisa.

— Filha da puta — ele rosnou. Depois, em vez de só se levantar, ele explodiu pra cima, a cadeira raspando com violência no chão.

Eu cambaleei quando as mãos dele soltaram de mim. Só um pouco, mas o suficiente pra ser visível.

— Torin… — comecei.

Ele agarrou meu braço, me firmando quando meu salto prendeu no tapete. Foi aí que eu percebi que não estava firme. Não era exatamente bêbada. Só… estranha.

Ele me examinou, o maxilar travado.

A música ainda martelava nas caixas de som e, esticando o braço por cima de mim, ele desligou tudo com um único apertão.

O silêncio caiu pesado e brusco.

— O que você tá fazendo? — murmurei, confusa e tentando me soltar.

Ele não respondeu. Em vez disso, foi até a porta, me puxando junto. Urgente.

A maçaneta girou, a porta se escancarou e a luz do corredor feriu meus olhos.

Darius quase trombou na gente.

— Que porra é essa… — ele começou.

Torin cortou, rosnando:

— Sai.

— Tor, o Stye não vai gostar… — Darius tentou de novo.

— Foda-se o Stye — Torin cuspiu. Não alto. Mortalmente calmo.

Darius olhou pra mim então. Olhou de verdade, e eu me senti exposta sob a luz do corredor. Quente demais. Ciente demais de como meu corpo parecia responder com atraso.

Torin percebeu, e o braço dele passou firme pela minha cintura. Antes que eu pudesse reclamar, ele me ergueu.

— O que você tá fazendo? — sibilei, agarrando nele porque eu me sentia sem equilíbrio.

— Acabou pra você — ele disparou.

— Acabou o quê? — consegui perguntar.

— Isso — ele respondeu.

Darius tentou segurá-lo.

— Você não pode simplesmente…

Torin virou a cabeça devagar.

— Duvida?

Foi suficiente. Darius recuou, e Torin me carregou pelo corredor sem dizer mais nada.

O aperto dele em mim aumentava cada vez que eu me mexia, e em algum ponto entre o quarto e o final do corredor, algo pesou no meu peito. Aquilo não era ele perdendo o controle. Não era ele me querendo. Era outra coisa. E o que quer que tivesse acabado de acontecer? Não tinha a ver com a dança. Tinha a ver com o meu pai.

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