Capítulo 4

~MARLOWE~

— Por favor. Torin. Só um pouco. — Eu nem reconheci a minha própria voz. Soava fina. Como se viesse de algum lugar atrás de mim em vez de sair da minha boca.

— Eu não consigo... eu só preciso de um pouco — supliquei.

Minhas pernas não paravam de se mexer, e eu ficava mudando de posição, levantando, sentando, depois levantando de novo. Minha pele parecia errada, apertada demais, barulhenta demais; como se não fosse minha.

Tudo doía. Eu nem chamaria de dor muscular. Nem de cansaço, era mais fundo que isso. Quase como se meus ossos estivessem tentando virar do avesso. Até meus dentes doíam... meus malditos dentes. Quem é que sabia que isso era possível?

Dezesseis horas; eu tinha contado. Aí parei de contar e comecei de novo. Dezesseis horas e meu corpo estava entrando em rebelião.

Torin estava sentado à mesa. Notebook aberto. Eu ouvia o tec-tec das teclas.

O som tinha se enfiado no fundo do meu crânio.

Ele parecia... normal. Como se aquilo fosse controlável. Como se eu não estivesse tremendo tanto ao ponto de meus dedos não conseguirem se fechar direito.

— Você pode olhar pra mim? — disparei.

Minha voz saiu alta demais e quebrou no meio da frase.

Ao ouvir, ele ergueu os olhos, as sobrancelhas subindo levemente. E então eu espirrei. Forte.

Uma vez. De novo. E de novo.

Não parava. Meu corpo inteiro sacudia com aquilo. Meu nariz escorria, meus olhos lacrimejavam e, quando passei a mão no rosto, percebi que só estava piorando.

— Jesus — murmurei, tropeçando na direção dos lenços de papel.

Minhas mãos não colaboravam, peguei lenço demais, derrubei metade e apertei o resto contra o rosto, mas mesmo aquele bolo enorme não dava conta.

Por cima de tudo, minha pele formigava. Essa era a pior parte: parecia ter formigas por baixo da superfície, arranhando e cavando pra sair.

Eu queria que aquela sensação parasse. Não aos poucos. Agora.

Senti que estava quebrando, e então os braços dele passaram ao meu redor por trás — quentes, firmes — e eu desabei por meio segundo antes de me segurar.

Não se apoia nele, eu me ordenei. Não faz isso.

— Eu não dou conta disso — sussurrei.

Saiu em pedaços. — Eu não dou — repeti.

O queixo dele desceu e encostou perto da minha têmpora. Eu sentia a respiração mais do que ouvia as palavras, enquanto ele tentava acalmar:

— Tô aqui com você.

Não. Não tá. As palavras sussurraram dentro da minha cabeça.

De repente, meu estômago travou tão forte que eu dobrei ao meio.

— Cólica — arfei, me desvencilhando dele.

Mal consegui chegar ao banheiro antes de despencar no vaso, curvada, suando. Minhas mãos não paravam de tremer. Parecia que meu coração queria fugir do peito.

— O que eu posso fazer? — ele chamou do lado de fora da porta.

— Me arruma alguma coisa! — eu gritei.

— Você quer ajudar? Então vai pegar alguma coisa pra mim! — o desespero na minha voz só me deixava com mais raiva.

Silêncio.

— Não vai? — gritei. — Então me mata. Juro por Deus, só me mata.

— Não vou te arrumar droga — ele rebateu.

Havia aço na voz dele. — Eu vou te deixar limpa.

— Eu sou uma viciada! — eu berrei pro azulejo. — É isso que eu sou. Aceita!

— Não. — Só isso. Depois ouvi ele se afastar.

— Vai se foder — sussurrei.

~~

O tempo ficou esquisito depois disso. Esticava, dobrava, se virava do avesso.

Eu suava até encharcar o lençol. Chutava o lençol pra longe. Passava frio. Puxava o lençol de volta. Suava de novo.

Vomitei até não sair mais nada além de amargor.

Chorei porque doía. Chorei porque não doía o bastante.

Ele trouxe água. Eu afastei com um tapa. Trouxe panos frios, eu joguei do outro lado do quarto.

Disse que odiava ele. Ele não foi embora. Isso só fez eu odiar ainda mais.

Com o tempo, meu corpo parou de tremer tanto, e eu consegui ficar de pé sem o quarto girar.

Pareceu uma vitória. Aí senti cheiro de comida. Bateu no meu estômago como um soco.

— Não — soprei, e me virei, tentando ir pelo corredor. Não consegui.

Caí de joelhos no meio do caminho e vomitei no chão.

Foi violento, feio, barulhento, e quando acabou, fiquei ali. Eu não tinha forças pra me mexer.

O que aconteceu com você? O que aconteceu com a garotinha cheia de sonhos grandes? Eu não consegui evitar pensar.

As lágrimas escorreram e se misturaram com a sujeira debaixo do meu rosto, mas nem me dei ao trabalho de enxugar, nem mesmo quando ouvi os passos do Torin na madeira, a vergonha queimando quente dentro de mim.

Ainda assim eu não me mexi, nem quando ele se ajoelhou do meu lado.

Ele não disse nada, e não hesitou: deslizando os braços por baixo de mim, me levantou, me apoiando contra o peito. Ignorando o fato de que eu estava coberta de vômito. Depois, jogou uma toalha por cima da bagunça e me levou pro banheiro.

Poucos instantes depois, quando chegou na porta, empurrou com o ombro pra abrir. Em seguida, foi até o chuveiro. Ajoelhou, me mantendo firme no colo, e se inclinou pra frente. Girou os registros, ajustando a temperatura da água. Então se endireitou, ficou de pé de novo e me sentou na tampa fechada do vaso, tirando minha camiseta.

Logo em seguida, me puxou de volta pra ficar em pé e empurrou meu shorts pra baixo, fazendo sinal pra eu sair dele.

Tirando a própria calça jeans e a camiseta, ele me ergueu de novo nos braços e entrou comigo embaixo do chuveiro, deixando a água quente cair sobre nós dois.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo