Capítulo 6

Horas depois, eu estava trabalhando no bar, limpa de qualquer droga e me sentindo melhor do que tinha me sentido em muito tempo, enquanto servia bebidas, sanduíches e frituras. A maioria dos membros que não tinha ido na corrida com os outros era mais velha, mas não velha o bastante pra não conseguir cuidar dos negócios se fosse preciso.

Eles tinham servido à causa e conquistado uma vida mais fácil. Ainda usavam seus coletes, mas os reflexos mais lentos, os ossos doloridos e a vista ruim tinham garantido pra eles um ritmo mais tranquilo, protegendo o galpão em vez de estarem no meio das corridas intensas e perigosas.

O Charter do meu pai movimentava muita mercadoria, de armas a drogas, então, na maior parte das vezes, eram os membros mais novos que faziam esse tipo de corrida. Eu tinha acabado de encher um copo de chope quando ouvi um alvoroço do lado de fora do bar e, enquanto eu deslizava o copo na direção do Jerky — chamado assim porque ele amava jerky de carne —, o Dillon e alguns dos membros empurraram a porta e entraram no bar. Meus olhos foram direto pras manchas de sangue nas roupas deles.

Quase pulando por cima do balcão, saí correndo até o Dillon. Eu via o olhar meio insano nos olhos dele quando finalmente focaram em mim. A umidade tomou conta ali, e então, dando um passo na minha direção, ele me puxou contra o peito, a voz saindo num choro rouco:

— Eles não saíram de lá, Mar… O pai e o Torin não conseguiram sair daquela porra.

O mundo não girou, não rodou, só… parou.

Meus ouvidos zuniram tão alto que eu não ouvi o resto do que o Dillon estava dizendo. Os braços dele estavam ao meu redor, me mantendo de pé, mas minhas pernas já não eram minhas.

— Não — eu disse. Saiu seco, pequeno.

O peito do Dillon subia e descia contra a minha bochecha, e as mãos dele apertaram a minha camisa.

— O galpão explodiu — ele arfou. — Não sobrou nada, Mar. Nada—

— Não — repeti. Dessa vez, saiu mais cortante.

Ao nosso redor, o bar tinha ficado em silêncio. Nenhum copo batendo, nenhuma cadeira arrastando. Só respirações, pesadas, contidas: do jeito que homem respira quando tenta não desabar na frente dos outros.

Meu pai. Torin.

Os nomes não se ligavam a rostos, não se ligavam a lembranças… flutuavam, sem significado.

— Eles tinham que voltar — eu sussurrei.

Dillon se afastou o suficiente pra me encarar. Os olhos dele estavam vermelhos. Não só cheios d’água. Vermelhos.

— Eles não voltaram — ele soprou.

Algo dentro do meu peito afundou, e eu o empurrei pra longe.

Não lembro de ter me mexido, mas de repente eu estava do lado de fora. O pátio era um borrão de motos, homens e o cheiro de fumaça ainda grudado no couro.

Torin tinha beijado meu ombro. Depois a gente conversa, ele tinha sussurrado.

Cambaleei na direção do limite do terreno, em direção às árvores. Alguém chamou meu nome. Eu não respondi.

Eles não conseguiram sair.

Eu me curvei pra frente e vomitei na terra, de novo e de novo, até não sobrar nada.

Meu pai. Torin. Os dois homens que moldaram o meu mundo. Foram embora no mesmo fôlego.

Caí de joelhos. O chão estava sólido sob as minhas mãos. Sólido demais.

Se isso fosse real, a terra não devia ter se rachado? Alguma coisa não devia ter se partido? Mas o céu continuava azul. O sol ainda estava lá em cima. Os homens ainda se mexiam. A vida ainda acontecia.

Pressionei a testa contra a terra.

— Levanta — sussurrei pro universo. — Só levanta. Volta por aquele portão.

Mas nada se moveu.

Nenhum motor. Nenhuma bota. Nenhum Torin.

O som que saiu de mim então não parecia humano. Veio rasgando de um lugar fundo e cru e não parou até minha garganta queimar.

Mãos acabaram me encontrando. Braços me ergueram. Vozes murmuraram palavras que não significavam nada.

Herói. Sacrifício. Território.

Nada disso importava.

~~

Naquela noite, fiquei deitada na cama encarando o teto. O galpão estava quieto demais. Nenhum passo soou do lado de fora da minha porta. Nenhuma sombra passou pela fresta embaixo dela. Nenhuma batida chegou aos meus ouvidos.

Rolei de lado. O travesseiro extra ainda cheirava a ele. Fumaça. Couro. Suor. O leve traço do sabonete que ele fingia não ligar. Afundei o rosto ali e inspirei até doer.

Se eu respirasse fundo o bastante, talvez conseguisse manter ele aqui. Talvez cheiro contasse como prova. Talvez lembrança pudesse substituir carne e osso.

Meu peito apertou e, por um segundo insano, eu quase me sentei. Quase saí lá fora. Quase esperei no portão feito uma garota idiota que acredita que motores desfazem a morte. Mas o pátio continuou vazio. A escuridão permaneceu parada e, por mais que eu ouvisse, nenhuma moto cortou o silêncio.

Me encolhi ainda mais em volta do travesseiro, os dedos cravados no tecido, como se ele fosse desaparecer se eu afrouxasse o aperto.

O amanhã devia chegar. Não chegou e, em algum ponto entre uma respiração e outra, eu entendi uma coisa terrível.

A última vez que ele beijou meu ombro… tinha sido a última vez.

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