Capítulo 7
QUATRO ANOS DEPOIS
Pousando o copo de bourbon com coca na superfície lisa do balcão, empurrei-o na direção do homem sentado à minha frente. Virando-me, peguei uma garrafa de tequila, Curaçao e suco de limão. Depois de despejar a mistura sobre o gelo em um copo baixo com borda de sal, peguei um mexedor e enfiei dentro da Margarita. Em seguida, coloquei um guardanapo e o drink na bandeja que esperava e me virei para o homem no bar ao meu lado.
— Jess, você já me perguntou a mesma coisa uma dúzia de vezes. Uma dúzia de vezes eu já disse que não — preciso mesmo transformar isso em treze? — questionei.
Jess Thompson, ex-analista de alvos da CIA, piscou para mim.
— Não, desta vez você pode dizer sim — respondeu ele e, em seguida, torcendo a tampinha de três garrafas de Corona, enfiou uma rodela de limão na boca de cada uma. Depois, colocou as cervejas na mesma bandeja do drink que eu tinha acabado de preparar, empurrou tudo para a garçonete que aguardava e se virou de volta para mim.
— O que você faria se eu dissesse sim? — provoquei, ocupada limpando o balcão.
— Sairia correndo pra bem longe e o mais rápido possível — aquele filho da puta durão aí teu cortaria minha garganta num piscar de olhos — resmungou ele.
Não me dei ao trabalho de corrigir o jeito como ele se referia ao Rook como “meu”. Em vez disso, guardei o pano, apenas ri e murmurei:
— Nada, o Rook é um ursão de pelúcia gigante! Falando no Rook, tô caindo fora.
Segundos depois, saí de trás do bar e parei quando meu reflexo no espelho da parede chamou minha atenção. Encarei a mulher que vi ali. O cabelo castanho-escuro dela era longo e liso. Várias mechas do lado direito exibiam fios azul-marinho ao longo do comprimento e seus olhos, de um azul profundo, eram levemente puxados nas laterais enquanto me encaravam de volta.
A maquiagem dos olhos era um tanto dramática — esfumado, com muito delineador preto e rímel — um toque que realçava cílios que já eram grossos e longos, sem ajuda artificial.
Na sobrancelha esquerda, ela usava uma pequena argola, e um pequeno ponto de diamante enfeitava a curvinha da narina esquerda. Um conjunto extra de pequenas argolas ocupava o lado do lábio inferior. A orelha esquerda exibia um piercing daith e, na direita, um helix.
Balancei a cabeça enquanto examinava meu reflexo, me perguntando se algum dia eu ia me acostumar a me ver tão diferente. Minha nova imagem era muito mais sensual, muito mais sexy do que a antiga eu jamais tinha sido.
Quando saí, o ronco grave de uma moto chegou aos meus ouvidos enquanto ela vinha descendo a rua na minha direção. À medida que o piloto diminuiu a velocidade, enfiou a moto num pequeno espaço vazio bem à minha frente, até parar. A vaga era apertada, porque na verdade nem era vaga de estacionamento, e sim um vão entre dois carros parados.
Balançando a cabeça, um sorriso foi surgindo nos meus lábios e deixei meus olhos passearem pelo homem sem capacete sentado na moto. O fato de ele estar sem proteção na cabeça não me surpreendia. Perigoso pra caralho? Sim. Surpreendente? Não.
James Anderson, também conhecido como Rook, era um filho da puta bonito pra caramba. Os traços dele eram rudes, o cabelo, de um preto profundo e intenso, era cortado bem curto. A pele tinha um tom naturalmente oliva, nada incomum para alguém com aquela cor de cabelo, e os olhos eram de um azul-céu vibrante e impressionante, salpicado de estrias de azul mais escuro nas profundezas. Os globos azuis eram emoldurados por cílios escuros e longos o suficiente pra deixar qualquer mulher com inveja.
Quando meus olhos continuaram percorrendo a beleza absurda do homem na minha frente, Rook me encarou de volta, arqueando uma sobrancelha. Um sorriso lento e safado se espalhou pelos lábios dele, e ele murmurou:
— E aí, gostosa.
Dei um passo até a moto e deslizei pra trás dele no banco.
— E aí, gato — respondi na maior naturalidade.
Depois que eu me acomodei, a voz áspera de cigarro do Rook veio por cima do ombro.
— Espero que você não tenha planos.
— Não. Que foi? — perguntei, mexendo um pouco a perna, enquanto ele mexia a dele e usava a ponta da bota pra botar a moto de volta na marcha.
— Pensei em te levar pro clube — respondeu, como se nada demais.
O choque atravessou meu corpo, e na hora pensei: que porra é essa? Eu e Rook nos conhecíamos há quase quatro anos, e uma vez eu tinha perguntado pra ele sobre a família do clube, se algum dia eu ia conhecer o pessoal. Ele tinha dado de ombros, murmurando alguma coisa sobre o Satan, o vice-presidente do motoclube, ter dito que já tinha muita vadia rondando o clube e que não precisava de mais nenhuma. Claro que aquilo não tinha descido bem, e eu rosnei:
— Ele me chamou de vadia?
Rook só riu na cara da minha indignação antes de acalmar:
— Sossega e não leva pro lado pessoal. Isso é o Satan, tá?
Saindo daquele flashback, percebi que eu provavelmente devia estar preocupada com o convite, mas não estava. Não, eu ainda estava puta meses depois de saber que tinham me chamado de vadia e esperava ter a chance de ficar cara a cara com o vice. Tinha umas coisinhas que eu queria muito dizer praquele babaca.
Ajeitando melhor a bunda no banco, enrosquei os braços na cintura enxuta do Rook e perguntei:
— Tamo esperando o quê?
~~
Alguns minutos depois, Rook conduzia a moto pelas ruas e eu não consegui evitar deixar a Mãe Natureza me acalmar. O vento fazia carícias de seda na minha pele, sussurrando sua canção de amor nos perfumes que carregava no sopro, e eu me permiti relaxar um pouco pela primeira vez em muito tempo. Os últimos quatro anos tinham sido pesados, e eu sentia falta dos poucos membros da minha antiga família com quem eu tinha me aproximado, e sentia falta do Dillon. Eu não tinha tido alternativa a não ser entender que não havia volta. Marlowe Mills estava — pra todos os efeitos — morta. Uma situação que até hoje me deixava zonza. Dillon tinha me chutado pra fora do complexo e mandado eu nunca mais voltar. Até hoje, eu ainda não tinha uma explicação do porquê.
Eu tinha finalmente chegado a algum tipo de aceitação da minha situação atual. Mas aceitar a perda do Torin? Não — isso ainda não, e eu nem sabia se um dia ia acontecer.
Como é que alguém aceita perder uma parte da própria alma? Aceitar saber que nunca mais vai ver aquela pessoa, nunca mais ouvir a voz dela, nunca mais sentir o toque dela? Tudo aquilo ia muito além do que eu achava que seria capaz de aguentar, e por um tempo eu temi que não fosse. Tive medo de desaparecer dentro da minha própria cabeça e do meu coração quebrado. Mas, com o tempo, comecei a cicatrizar. Não, eu não superei a perda dele, e nunca vou, mas aprendi a lidar. Aprendi a botar um pé na frente do outro de novo, a aceitar cada dia do jeito que ele vinha.
Com o tempo, eu até voltei a apreciar o sol nascendo toda manhã e o aparecimento da lua toda noite.
