Capítulo 3
Um coquetel sufocante de antisséptico e ferro enjoativo me arrancou do nevoeiro da inconsciência.
Acordei num sobressalto, com um suspiro agudo, e só então percebi que estava deitada numa cama, em um dos quartos de hóspedes da mansão.
Alexander Sterling estava de pé sobre mim; seus olhos azul-gelo — o mesmo par que um dia sussurrara intermináveis palavras doces ao meu ouvido — haviam sido despidos de qualquer resquício de calor, frios e vazios.
— Pare de bancar de morta se está acordada. — Ele puxou a gravata, com a voz carregada de impaciência, sem nem tentar disfarçar.
Meu primeiro instinto foi fugir. Mas, no segundo em que me mexi, uma fisgada ardente atravessou meu baixo-ventre. Levei a mão à barriga por reflexo.
A curva suave que havia se avolumado com meu bebê de cinco meses tinha sumido, plana e estéril sob minha palma.
Um zumbido ensurdecedor explodiu dentro do meu crânio, afogando qualquer pensamento racional.
— Meu bebê… Onde está a minha filha?! — agarrei os lençóis até os nós dos dedos ficarem brancos, a voz se partindo num grito cru, agonizante.
— Ela morreu. — Alexander largou as duas palavras num tom distante, desdenhoso, como se estivesse comentando o tempo.
— O médico limpou tudo direitinho. Aquele erro de feto subdesenvolvido agora não passa de lixo hospitalar.
— AHHH! — Eu me atirei direto nele num frenesi, unhas à mostra, arranhando com selvageria na direção do rosto dele. — Foi você! Você e aquela vagabunda mataram ela! Alexander, era seu próprio sangue! Como você pode ser tão cruel?!
O olhar dele ficou cortante e glacial num instante. Ele agarrou meus pulsos e me empurrou com violência contra a cabeceira, sem o menor pingo de misericórdia.
— Você perdeu a porra do juízo, Chloe?
O nojo marcou as feições impecáveis dele.
— Quando o Grupo Harrington quebrou, seus pais se jogaram de um terraço como cães vadios desesperados. Eu tirei você daquele desastre sozinho e paguei suas dívidas astronômicas em Wall Street. É assim que você retribui ao seu salvador? Fazendo um escândalo histérico e me repugnando com suas birras mesquinhas?
As palavras dele cortaram meu peito como uma lâmina enferrujada e cega, retorcendo sem parar dentro do meu coração destruído.
Então era assim que ele me via o tempo todo. Nunca como uma esposa amada — apenas um brinquedo barato de quem ele teve pena e comprou para se divertir, uma prisioneira disfarçada de cônjuge.
Meu coração virou cinzas dentro do peito; até a última lágrima secou por completo. Cerrei os dentes, tremendo, e articulei cada palavra com uma determinação fria e inflexível.
— Eu quero o divórcio, Alexander. Eu vou embora deste lugar repulsivo.
A porta do quarto se abriu antes que ele pudesse responder.
Victoria entrou desfilando com um andar sinuoso, retorcido, de serpente. Ela nem sequer me lançou um olhar, derretendo-se direto nos braços de Alexander de um jeito descaradamente coquete.
— Querido, você finalmente pôs as mãos na Lágrima da Sereia? O Baile de Natal da elite de Manhattan está logo aí, e eu preciso, preciso usar isso para ofuscar todo mundo.
Alexander arqueou uma sobrancelha elegante; seu olhar deslizou até mim com desprezo escancarado quando as peças se encaixaram.
— Então a lunática que brigou com você pelo colar hoje era ela.
Ele se voltou para mim e estendeu a mão, num tom tão indiferente quanto o de alguém dando ordem a um cão desobediente.
— Entregue o colar. Peça desculpas à Victoria.
Eu prendi as duas mãos com força sobre a caixinha de veludo escondida no bolso do meu casaco — era tudo o que me restava, o último pedaço da minha mãe.
— Só por cima do meu cadáver! — eu urrei, rouca. — Isso é uma relíquia da minha mãe! Ninguém vai tirar isso de mim!
Victoria revirou os olhos, com escárnio, e caminhou até a beira da cama, apontando o dedo bem na minha cara.
— Não banca a superior, Chloe. Sua mãe falida está apodrecendo no chão há anos.
Eu já demonstrei uma contenção imensa ao deixar você se agarrar ao título de Sra. Sterling. É só um colar sem valor — com que direito você discute comigo? Passe isso aqui, agora.
— Sai de perto de mim! Não encosta em mim! — eu disse, balançando o braço para empurrá-la.
Meus dedos nem chegaram a roçar a roupa dela quando Victoria soltou um grito estridente, teatral. Ela se jogou para trás num arco exagerado e caiu com força sobre o carpete de lã.
— Ai… Tá doendo… — Lágrimas grossas e brilhantes brotaram em seus olhos num piscar, enquanto ela soluçava, fraca. — Alexander, ela me empurrou. Minha barriga dói tanto…
A expressão de Alexander escureceu na mesma hora. Ele correu até ela e a recolheu cuidadosamente nos braços, com uma delicadeza sem igual.
A cena absurda e enjoativa diante de mim estalou o pouco de sanidade que ainda me restava. Eu explodi numa risada histérica, a garganta arranhando em carne viva e a boca se enchendo do gosto metálico de sangue.
— Alexander, você não passa de um tolo cego e idiota! E eu fui a maior idiota por um dia ter te amado — por não enxergar que tipo de escória vil e inútil você realmente é!
Pá!
Um tapa brutal estalou no meu rosto, virando minha cabeça com violência para o lado.
Alexander se ergueu sobre mim, os olhos tão escuros e venenosos que parecia disposto a me despedaçar membro por membro.
Ele enfiou a mão sem piedade no bolso do meu casaco e arrancou a caixinha de veludo que guardava a Lágrima da Sereia.
— Uma mulher desequilibrada e ingrata como você não merece ter algo tão requintado. — Sua voz se suavizou drasticamente ao colocar a caixa com ternura nas mãos de Victoria. Em seguida, ele elevou a voz para dar uma ordem ríspida aos guardas do lado de fora da porta: — Trancem este quarto. Não deem a ela nem uma gota de água sem a minha autorização expressa.
A porta bateu e fez um clique ao ser trancada por fora.
A noite caiu sobre a Mansão Sterling. Lá embaixo, no grande salão de baile, melodias de jazz se misturavam ao tilintar de taças de cristal e às gargalhadas despreocupadas.
O baile semanal de fim de semana da família tinha começado oficialmente.
Pela estreita grade de ventilação, a voz de Victoria chegou fraca pelo corredor.
— Alexander, você tem certeza de que devemos deixar ela trancada lá em cima, sozinha? E se ela fizer alguma loucura? Talvez você devesse ir ver como ela está.
A resposta de Alexander veio sem a menor pausa ou hesitação, fria e sem emoção:
— Deixa apodrecer. Os Harrington já morreram há muito tempo, e ela não tem um centavo nem lugar nenhum no mundo para ir. Depois de alguns dias com fome, ela vai sair rastejando de joelhos para implorar perdão à Victoria.
Os passos deles se perderam ao longe.
Eu desabei no chão gelado, a dor pulsante no abdômen e a ardência latejante na bochecha inchada como lembretes constantes e brutais do inferno que eu tinha suportado.
Implorar perdão?
Eu, Chloe Harrington, preferia morrer a baixar a cabeça para os dois assassinos que se deleitavam com o meu sofrimento.
Eu me arrastei cambaleante até ficar de pé, o olhar preso na garrafa de bebida forte no canto do quarto.
Se Alexander achava que eu estava presa, sem para onde fugir, então eu abriria um caminho direto para a ruína com as minhas próprias mãos.
Girei a tampa da garrafa sem pensar duas vezes e encharquei as cortinas e o carpete com o líquido ardente. Risquei um fósforo e o joguei, sem vacilar, no tecido encharcado de álcool.
FWOOSH—
Chamas gigantescas explodiram na mesma hora, devorando cada detalhe do quarto com uma ganância voraz. Fumaça densa e sufocante e o fedor acre de queimado inundaram o quarto de hóspedes em poucos segundos.
Girei sobre os calcanhares e escancarei as janelas francesas do chão ao teto que davam para a noite escura. Rajadas violentas uivaram para dentro, embaraçando-se no meu cabelo desgrenhado.
Eu me inclinei para a frente e me joguei para fora da borda, um pássaro de asas quebradas se entregando por completo à noite infinita e negra.
