Capítulo 2

A nuca latejava.

Era como se alguém tivesse cravado um prego grosso e enferrujado fundo na minha carne, fazendo os nervos ligados à parte de trás da minha cabeça espasmar numa dor ofuscante.

Arregalei os olhos para uma escuridão total. Por instinto, tentei levar a mão até trás para tocar o ferimento, mas descobri os braços presos atrás das costas. Algemas de metal frio travavam meus pulsos com força. A corrente era curtíssima, mantendo minhas mãos coladas uma à outra, de um jeito que eu não conseguia mexer nem um centímetro.

O piso metálico sob mim tremia violentamente. O rugido ensurdecedor de um motor pesado preenchia meus ouvidos.

Na hora caiu a ficha — eu estava deitada na carroceria de um caminhão de transporte pesado, disparado em alta velocidade.

O compartimento de carga estava completamente vedado. Sem ventilação, era difícil respirar.

— Tem mais alguém vivo? — chamou uma voz trêmula de algum lugar não muito à minha esquerda. Parecia um garoto adolescente.

— Onde a gente tá... eu quero ir pra casa... — uma mulher choramingou baixinho do canto direito.

Pelos sussurros espalhados e pela respiração fraca, concluí que havia pelo menos uma dúzia de outras pessoas trancadas comigo naquele contêiner sem nenhuma luz.

Encostei na parede de ferro gelada, sem me mover, sem responder. Eu sabia muito bem que aquelas pessoas, assim como eu, estavam com as mãos amarradas e sendo levadas para fora da cidade.

Eu já sabia exatamente para onde estávamos indo.

Pouco antes de Serena me apagar, eu vi aquela planilha: Lista da cota de biomassa deste mês.

Agora, eu era só mais um nome naquela lista.

Como eu tinha esbarrado no segredo da elite — alimentar zumbis com seres humanos vivos —, Serena simplesmente aproveitou a oportunidade para me transformar em consumível. Desde que eu fosse despejada para fora das muralhas e devorada pela horda, o segredinho sujo deles continuaria a salvo.

O caminhão continuou rasgando a estrada. Eu ouvia o vento uivando com força lá fora.

De repente, um som estranho atravessou as paredes de metal.

TUM!

Alguma coisa pesada caiu com força sobre o teto. Em seguida veio um guincho de garras raspando no metal, acompanhado de rosnados baixos e guturais, espremidos de gargantas secas.

— O que é isso aí fora? Parece que tem alguém batendo nas portas! — o garoto gritou, em pânico.

Eram os zumbis.

O comboio tinha entrado direto em território infectado. Eles sentiram o cheiro da carne fresca lá dentro e estavam perseguindo o caminhão como loucos. Os mais rápidos já tinham saltado no veículo e estavam rasgando a caixa de ferro com as mãos deformadas.

Pelas regras distorcidas dos figurões, aqueles zumbis estavam ali para “recolher a mercadoria”.

De repente, o chiado de uma freada brusca rasgou o ar. O caminhão deu um tranco e parou de forma violenta, e o impulso enorme arremessou todo mundo lá dentro, amontoando as pessoas num emaranhado de corpos.

Logo depois, um clac mecânico ecoou da parte da frente do veículo.

A carroceria daquele transporte pesado, como um vagão de trem, podia ser destacada e deixada para trás de forma independente. O motorista nem precisava descer.

Seguro dentro da cabine blindada, ele apertou o botão de liberação da carga e afundou o pé no acelerador.

Através das paredes de metal, ouvi o motor berrando enquanto a cabine se afastava em disparada. O ronco foi ficando cada vez mais fraco, até sumir por completo.

No ermo lá fora, só restou aquela caixa de ferro abarrotada de humanos vivos.

Dentro do contêiner, havia um silêncio de morte, quebrado apenas pela respiração pesada e apavorada das pessoas amontoadas umas nas outras. Do lado de fora, porém, o verdadeiro pesadelo começou.

Incontáveis passos cercaram o contêiner. Alguns segundos depois, os zumbis lá fora começaram a desmontar as portas.

Bum! Clang! Uma força descomunal golpeava o exterior, amassando as grossas placas de ferro para dentro, de novo e de novo.

Aquelas portas não os segurariam por muito tempo. Em menos de cinco minutos, eles as arrebentariam de vez.

— Socorro! Alguém abra as portas! Me deixem sair!

— Eles vão quebrar a porta!

— O que está acontecendo?! Quem amarrou a gente?!

As pessoas lá dentro não conseguiam ver o que se passava do lado de fora, mas o terror instintivo as colocou de pé, pisoteando umas às outras para se enfiar no canto mais fundo da caixa.

Eu estava sentada no canto mais próximo das portas, apoiada contra a parede de aço, o coração martelando contra as costelas.

Eu não podia morrer aqui. Foi exatamente assim que enfiaram Maya numa caixa, a largaram no deserto e a despedaçaram com esses monstros.

Eu tinha que sobreviver. Minha única chance de escapar estava encostada bem no meu peito.

Antes de sair do laboratório, eu tinha enfiado aquele frasco de soro no bolso interno. Contanto que eu o bebesse, eu poderia sobreviver à infecção viral e manter minha sanidade humana. Mesmo que meu corpo sofresse mutações, pelo menos eu não perderia minhas memórias. Pelo menos eu não morreria aqui fora, no deserto.

Mas não ia ser fácil. Minhas mãos estavam algemadas com força atrás das costas. Meus dedos nem sequer alcançavam a borda da minha jaqueta.

Não havia tempo para encontrar algo que quebrasse as algemas.

Inclinei o corpo para a frente, abri a boca sobre o bolso interno no meu peito e cravei os dentes com força no tecido.

Mordendo com toda a força, puxei a cabeça violentamente para trás.

Como um cachorro faminto, rasguei minhas próprias roupas em desespero. O tecido se abriu, expondo o estojo protetor de metal, do tamanho de um isqueiro.

Prendi o estojo entre os dentes de cima e de baixo, joguei a cabeça para cima e o puxei completamente para fora do bolso.

O estojo era mantido fechado por um ímã. Não era difícil de abrir. Forçando com a mordida, um frasco de vidro, grosso como um dedo, deslizou para fora.

Exatamente naquele instante, um estrondo ensurdecedor explodiu no ar.

As portas de ferro finalmente cederam sob a força combinada de dezenas de zumbis arrancando e puxando. As dobradiças estouraram, e as pesadas placas de metal despencaram no chão arenoso.

A pálida luz da lua se derramou para dentro, iluminando toda a caixa de carga sem nenhum obstáculo.

E, junto com a luz, veio um fedor sufocante — o cheiro de carne podre.

Sete ou oito zumbis bloqueavam a entrada.

Os olhos deles eram esbranquiçados e opacos, encarando diretamente os humanos vivos lá dentro.

Atrás dos que estavam na frente, o chão de areia estava tomado por eles. Num relance, tinha que haver pelo menos cem dessas criaturas lá fora.

O zumbi bem na frente se mexeu. Ele não andava sobre duas pernas como um humano. Caiu de quatro, correu pela placa do piso como uma aranha gigantesca e se lançou direto no adolescente mais perto de mim.

— Aaaah!

O garoto gritou e se arrastou para trás, mas o zumbi era rápido demais. Enterrou os dentes bem no ombro dele. O resto da horda avançou logo atrás. Um caos completo explodiu dentro do contêiner, preenchido pelos sons horríveis de carne sendo rasgada e gritos de gelar o sangue.

Senti dentes se fecharem no meu tornozelo um segundo depois. Fechando os olhos, encostei as costas no canto, mordi o pequeno frasco de vidro que eu tinha na boca e o esmaguei.

Crac!

O estalo seco do vidro se partindo ecoou dentro da minha boca.

Fragmentos afiados de vidro perfuraram minha língua e a parte de dentro das minhas bochechas.

Eu não cuspi. Inclinei a cabeça para trás e engoli os cacos junto com o líquido azul. Eu já não me importava com a dor.

No instante em que o soro atingiu meu estômago, uma reação violenta se desencadeou.

Meu coração disparou, batendo tão alto que eu conseguia ouvi-lo por cima dos gritos. Batia cada vez mais rápido, enquanto o soro se ligava ao vírus de forma brutal.

Eu escorreguei pela parede de metal e desabei no chão. Meu corpo inteiro começou a convulsionar, fora de controle.

O zumbi que mastigava meu tornozelo parou e me encarou diretamente.

Fiquei ali, ardendo como uma fornalha. Minhas mãos ainda estavam presas atrás de mim. Eu nem tinha força para me levantar, quanto mais para correr. Tudo o que eu podia fazer era assistir, impotente, enquanto ele se aproximava.

O zumbi deslocou a mandíbula, mirando direto no meu pescoço. Uma fração de segundo antes de arrancar minha garganta...

Afasta!

Eu bradei as palavras na minha mente.

Eu não tinha energia para vocalizar. Impulsionado pelo desespero puro de não ser morto, eu gritei mentalmente, ordenando que ele parasse, exigindo que recuasse.

Então, algo impossível aconteceu.

O monstro, a um palmo de me arrancar a garganta, de repente congelou.

Foi como se alguém tivesse latido “Sentido!”. A bocarra aberta e ensanguentada pairou a menos de dez centímetros do meu rosto, o corpo inteiro travado, rígido no lugar.

Eu fiquei atônito.

O que acabou de acontecer?

No começo, achei que ele tivesse sentido a mudança em mim. Eu tinha me fundido completamente com o vírus. Talvez, aos olhos dele, eu agora fosse um deles. Zumbis não comem os da própria espécie. Presumi que ele só tivesse percebido que eu não era mais comida.

Mas o que aconteceu em seguida destruiu por completo a minha compreensão de biologia.

O zumbi não apenas interrompeu o ataque. Ele recuou lentamente dois passos.

Então, de fato curvou a coluna rígida e mutante e abaixou a cabeça. O gesto não era só não agressivo; parecia exatamente um lobo comum se curvando diante do alfa.

E não parou por aí.

Ao redor do contêiner, uma dúzia de zumbis parou de rasgar e mastigar. Eles se viraram em uníssono, fixando seus olhos mortos, leitosos, no meu canto.

Em seguida, como se recuassem diante de algo absolutamente aterrorizante, eles se retiraram em silêncio, voltando até saírem completamente da caixa. O espaço que, havia pouco, era um matadouro lotado e ensanguentado esvaziou na mesma hora, restando apenas os gemidos fracos de alguns sobreviventes semi-mortos sangrando no chão.

Eu me apoiei, embotado, na chapa de ferro, com o cérebro zunindo.

Puxei o ar em respirações pesadas.

Que porra estava acontecendo?

Minha pesquisa sempre tinha se concentrado em “preservar a consciência humana”. O soro de fato tinha funcionado — me manteve lúcido e impediu que eu perdesse a razão. Mas eu nunca imaginei que ele me daria controle direto sobre outros zumbis!

Sumam daqui.

De novo, eu não disse em voz alta. Mas, encarando diretamente o aglomerado mais denso da horda do lado de fora, eu emiti uma ordem mental simples.

No segundo seguinte, como se tivesse recebido uma transmissão sincronizada, a horda se virou sem a menor hesitação e disparou para dentro da escuridão total do ermo.

Olhando para as dunas agora vazias além das portas, meu coração disparado foi voltando devagar ao ritmo normal... e então foi diminuindo aos poucos, até se aquietar numa imobilidade absoluta.

Estiquei os braços para os lados, testando o poder bruto que pulsava pelos meus membros.

Clang!

De um jeito assustadoramente fácil, arrebentei as algemas de aço maciço.

Ergui as mãos libertas diante de mim. Ao ver minha pele perfeitamente intacta, entendi a verdade: eu não tinha apenas mantido minha mente humana — eu tinha adquirido a força física imparável de um zumbi.

Foi então que notei os três humanos ainda vivos no canto mais distante. Amparando-se uns nos outros, cobertos de sangue, eles se encolheram. Me encaravam como se eu fosse um monstro.

Eles tinham visto tudo o que acabara de acontecer com os próprios olhos.

Levantei-me, girando os ombros para alongar meu novo corpo. Passando por cima dos cadáveres no chão, fui até as portas arrebentadas, parei e olhei para trás, na direção da silhueta distante da Cidade do Éden.

Serena devia acreditar que, a essa altura, eu já tinha sido devorado vivo. Ela achou que, entregando à horda o homem que descobriu seu segredo, poderia dormir tranquila para sempre.

Virei a cabeça para olhar os sobreviventes dentro da caixa. Decidi contar a verdade.

— Todo mês, o Comitê Supremo seleciona aleatoriamente cinquenta pessoas vivas para entregar à horda. Vocês são a cota deles. Eles usam vocês para alimentar os zumbis no deserto e comprar segurança para as zonas de mineração.

Ao ouvirem isso, os três congelaram.

— Isso é impossível... — o garoto balançou a cabeça, a incredulidade estampada no rosto. — O Capitão da Guarda nos disse que construíram uma nova fazenda hidropônica no anel externo. Disse que precisavam de mão de obra... que a gente só estava vindo aqui para trabalhar...

— Se vocês iam sair para trabalhar, por que algemaram vocês? Por que o motorista largaria a caixa de carga e dispararia sem nem conferir as portas?

Eu expus exatamente como a elite trocava a carne de gente comum para assegurar seus recursos.

Um homem mais velho entre eles ficou vermelho como pimenta, cerrando os dentes enquanto praguejava com ódio contra o Comitê.

Uma mulher caiu de joelhos, olhando para os corpos dos companheiros mortos no chão, e soltou um lamento alto. Os olhos do garoto ficaram vermelhos, as lágrimas se misturando ao sangue espalhado pelo rosto.

Quando enfim esgotaram as lágrimas, ergueram o olhar. Encararam o deserto negro como breu e depois tornaram a olhar na direção distante da Cidade do Éden.

Largados no piso de ferro como cadáveres ambulantes, eles não sabiam qual passo dar em seguida. Não tinham mais para onde ir.

Eu os observei em silêncio.

Se eu os abandonasse ali, no estado em que estavam, seriam devorados por zumbis errantes antes do amanhecer. Fazer isso me tornaria igual a Serena e ao resto daquela elite. Mas, se dessem sorte, sobrevivessem e conseguissem voltar à Cidade do Éden, sem dúvida seriam interrogados. E, quando isso acontecesse, revelariam o segredo de como eu comandava a horda.

Eu não ia permitir nenhum desses desfechos.

Já que a elite tratava o povo como descartável, eu ia estabelecer um novo conjunto de regras.

Minha voz saiu calma, sem deixar espaço para dúvida:

— Se vocês não querem ficar aqui sentados esperando a morte, se querem sobreviver... então venham comigo.

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