1.
Chanel não é uma mulher qualquer; ela é diferente do jeito mais assustador, como a maioria diria — mas não era bem assim. Na real, ela já passou por poucas e boas. Mora sozinha num apartamentinho, trabalha como atendente num shopping da região, por enquanto, enquanto corre atrás de outras coisas, e mal está curtindo, mas precisa manter o foco no objetivo final. Às vezes, ela tem pavio curto e não sabe se controlar quando abre a boca; fala sem filtro. É boca suja e, de vez em quando, grossa, mas também pode ser a pessoa mais doce do mundo se ninguém encher o saco dela. No geral, ela está de boa com a vida.
Ela é uma mulher relativamente alta, 1,68 m, de pele escura, um marrom chocolate tão bonito que dá até pra pensar que tem gosto de chocolate. Tem olhos grandes, castanho-escuros, rosto oval; os cachos pretos caem certinhos dos ombros até as costas. O corpo é cheio de curvas, voluptuoso, cintura fina, barriga lisa. A maioria das mulheres que a vê sente inveja: como alguém consegue ter coxas grossas e barriga chapada ao mesmo tempo? Bom, ela é negra — nada é impossível.
Hoje a Chanel está no turno da noite e vai fechar a loja. Ela é a última a sair. Tranca tudo rapidinho e vai pela porta dos fundos, vestindo a jaqueta. Coloca a mochila nas costas e começa a andar em direção ao estacionamento. Então ela vê um Aston Martin preto e um SUV Chevrolet preto. Dois homens descem do SUV. Ela só consegue ver as costas deles, mas sente que tem coisa errada. Ela se esconde depressa atrás da caçamba de lixo e fica observando.
Um homem alto sai do Aston Martin com uma maleta na mão. Ela conhecia aquele homem. Finalmente tinha encontrado o alvo dela. Agora era pra valer.
Os três trocam algumas palavras, até que um deles puxa uma arma e aponta para o homem do Aston Martin. É aí que ela decide ligar para ele.
Merda, ela pensa. Eles não podem matar ele.
Num instante, dois disparos ecoam e o homem do Aston Martin cai no chão. Os caras do SUV pegam a maleta da mão dele, voltam para o carro e arrancam em alta velocidade. Chanel fica apavorada, com o coração na boca, mas não podia deixar aquele homem morrer. Ela corre até ele; ele está sangrando muito. Tem um tiro no abdômen e outro no peito. Ela põe a mochila no chão e tira a jaqueta. Ainda bem que uma das atribuições do trabalho dela é atuar como socorrista de emergência; ela sabe exatamente o que fazer. Movida pela adrenalina, ela enrola a jaqueta na cintura do homem e pressiona a mão no ombro dele. O homem começa a gemer palavras sem sentido.
— Não se preocupa, eu vou chamar uma ambulância — ela diz, puxando o celular do bolso e discando para o resgate.
Alguns minutos depois, a ambulância chegou junto com a polícia. Ela estava coberta de sangue e suor, e rezava para que o homem sobrevivesse, porque ela ia se odiar se ele morresse — e ainda ia se meter numa encrenca enorme.
Um dos policiais a puxa de lado.
— Senhora, eu sou o policial Brooks. Você precisa me dizer o que aconteceu aqui hoje à noite.
Chanel olha para o policial alto, de cabelo escuro, e concorda com a cabeça.
— Eu estava saindo do trabalho. Eu estava fechando hoje, como eu faço toda terça-feira, e quando eu estava saindo eu vi três caras: dois do SUV e o cara que levou o tiro, que estava com uma maleta. Eu me escondi atrás daquela caçamba ali — ela aponta para a caçamba.
Ela solta um suspiro trêmulo antes de continuar:
— Aí eles começaram a conversar e, do nada, um cara do SUV puxou uma arma e atirou no cara.
— Você viu os agressores? — pergunta o policial.
Chanel balança a cabeça.
— Não, senhor. Só as costas deles… mas eu lembro da placa.
—Isso seria muito útil —ele entrega a ela o caderninho e uma caneta—. Só escreve aqui pra mim.
Ela anota rapidamente a placa e devolve tudo ao policial.
—Obrigado —ele diz—. Pode me ligar se lembrar de mais alguma coisa.
Ele entrega a ela os cartões e a conduz até uma das viaturas. —Leva ela pra onde ela quiser e garante que ela fique em segurança.
—Sim, senhor —responde um policial gordinho; eles entregam a mochila a ela, e o policial gordinho entra no carro.
—Onde você mora? —pergunta o policial.
—Me leva pro hospital. Eu preciso ver se aquele homem vai sobreviver —ela responde.
—Senhora, tem certeza? A senhora acabou de passar por uma situação traumática. Eu recomendaria ir pra casa e descansar —explica o policial.
Chanel suspira. —Por favor. Eu preciso ver ele.
O policial assente. —Tá bom, se é isso que você quer.
A viatura faz um retorno e leva Chanel até o Memorial Hospital. Ele estaciona em frente à entrada. Ela agradece e entra no hospital. De repente, para no meio do caminho e percebe que nem sabia o nome dele.
Garota, você finalmente pirou de vez, pensa ela.
Chanel vai até o balcão de atendimento, e uma enfermeira negra, baixinha, a cumprimenta; ao ver Chanel, ela arregala os olhos, horrorizada.
—Querida, você tá bem? —pergunta, preocupada.
Chanel encara a enfermeira. —Eu tô procurando meu namorado. Ele deu entrada aqui, ele levou um tiro, e eu fiquei pra trás pra eles me perguntarem o que aconteceu. Eu preciso ver ele.
As lágrimas escorriam pelo rosto dela.
—Ele tá na cirurgia, querida. Vai ficar tudo bem —diz a enfermeira. Ela a faz sentar depressa, pega um copo d’água, e Chanel bebe de uma vez.
—Tá se sentindo melhor? —pergunta a enfermeira. Chanel assente.
—Que bom —a enfermeira também assente—. Eu preciso voltar pro trabalho. Você fica bem sozinha?
Chanel enxuga o nariz. —Vou ficar, obrigada. Você me avisa assim que ele sair?
A enfermeira se levanta e faz que sim com a cabeça. —Aviso, querida.
Ela se afasta, deixando Chanel sozinha. Chanel se dá um tapinha nas costas pelo teatro que acabou de fazer, mas, ao mesmo tempo, dá um tapa mental em si mesma: e se descobrirem que ela está mentindo? Ela pode acabar sendo exposta, e isso é a última coisa de que precisa agora. Ela tenta afastar o pensamento, mas não consegue parar de pensar naquele homem. Por que atiraram nele? O que tinha naquela maleta? Ele ia sobreviver? Ela tinha feito o suficiente pra salvá-lo?
Com o tempo passando devagar, ela começa a cochilar e, pouco a pouco, adormece.
—Querida —ela ouve uma voz chamando; então alguém a sacode, e Chanel desperta num sobressalto—. Ele saiu da cirurgia. Você já pode ver ele.
Ver quem? Ah.
—Obrigada —ela diz, sonolenta.
—Vem, eu te levo até ele. —Chanel se levanta, pega a bolsa e segue a enfermeira pelo corredor. Elas viram à esquerda e, algumas portas adiante, a enfermeira abre a porta devagar. Chanel entra. Ele está dormindo.
—Ele vai ficar bem, sem grandes complicações. Vai estar completamente recuperado em três a seis semanas —explica a enfermeira.
Chanel engole em seco. —Obrigada.
—Vou deixar vocês dois agora —diz ela, fechando a porta.
Chanel encara o corpo do homem. Ele está sem camisa, com ataduras no ombro e na cintura. O corpo é perfeitamente esculpido: um homem grande, musculoso. A pele clara agora está pálida pela perda de sangue. Ele tem uma mandíbula bem definida, uma barba por fazer e um queixo com covinha ridiculamente fofo.
Ela se senta na cadeira e fica observando ele pelo resto da noite, se perguntando por que estava ali e por que se importava tanto com aquele cara. Ela tinha acabado de conhecer o criminoso, e sabia muito bem que não devia se envolver demais com ninguém, principalmente homens.
Mas ela ia descobrir em breve —e como ia se arrepender disso.
