Capítulo 1 CAPÍTULO 1 - JASON

O relógio na parede marcava oito e quinze quando entrei na sala de reunião.

Todos ficaram em silêncio. Era sempre assim.

Eu não precisava pedir atenção. Bastava aparecer. O peso da minha presença parecia preencher cada centímetro daquele espaço, abafando vozes, imobilizando gestos. Caminhei devagar, sentindo os olhares se fixarem em mim, alguns respeitosos, outros receosos, a maioria carregada de um temor que eu não pedia, mas também não me esforçava para afastar.

Tirei o casaco preto, de tecido grosso e alfaiataria impecável, e entreguei a um dos funcionários que se aproximou depressa, com a cabeça baixa, sem ousar encontrar meu olhar. Sentei-me na ponta da mesa, o lugar que eu sempre escolhia: onde ninguém ficava ao meu lado, onde eu via todos e ninguém conseguia ler o que se passava por trás da minha expressão impassível. Coloquei o celular ao lado do notebook, alinhados com precisão de milímetros e ergui os olhos para os homens e mulheres diante de mim.

Doze pessoas.

Doze profissionais selecionados entre os melhores que o mercado poderia oferecer, bem pagos, com contratos generosos e a obrigação clara de entregar resultados. Deveriam saber exatamente o que estavam fazendo.

— Comecem. — Ordenei, e minha voz saiu calma, baixa, sem elevação, mas suficiente para fazer todos se endireitarem nas cadeiras.

Meu diretor financeiro, um homem de meados dos cinquenta, rosto cansado e olhos que começavam a fugir dos meus, abriu a apresentação. Os slides se projetaram na tela, números e gráficos que eu já havia estudado na noite anterior, em casa, até a exaustão.

— Senhor Carter, como pode ver, os resultados do último trimestre…

— Eu já vi os resultados.

Ele parou de falar, a boca ainda entreaberta para a próxima frase, a mão parada sobre o controle remoto. O silêncio voltou a cair, mais denso agora, pesado como chumbo. Olhei para a tela, para as colunas vermelhas que denunciavam perdas, e depois voltei meu olhar sobre ele.

— Quero saber por que perdemos dois dos nossos maiores clientes.

Ninguém respondeu.

Eu esperei. Inclinei ligeiramente a cabeça, dando-lhe tempo suficiente para que o desconforto se transformasse em inquietação. O silêncio começou a pesar tanto que eu podia ouvir o som abafado da chuva batendo nas janelas do andar de cima, o tic-tac do relógio na parede, a respiração contida de doze pessoas que não se atreviam a inspirar fundo.

— Senhor Carter… — Começou ele, engolindo em seco. — Tivemos alguns problemas com a equipe de vendas. — Problemas? — Repeti a palavra,

devagar, saboreando cada sílaba. Inclinei o corpo para trás, cruzando os braços sobre o peito. — Essa é a palavra que você escolheu?

Ele engoliu em seco outra vez. Gotas de suor começavam a brilhar em sua testa enrugada.

— Eu prefiro incompetência.

Um movimento quase imperceptível percorreu a mesa. Ninguém se mexeu de verdade, ninguém respirou mais alto, mas senti o estremecimento coletivo. Passei os olhos por cada rosto, um por um, gravando cada expressão, cada olhar baixo, cada mão fechada em punho sobre a mesa.

— Minha empresa não perde clientes por problemas... — Continuei, firme, sem elevar a voz. — Problemas são coisas que acontecem sozinhas: tempestades, quedas de energia, acidentes imprevisíveis. O que aconteceu aqui não foi um problema. Pessoas cometem erros. Pessoas não fazem o trabalho que deveriam fazer. Pessoas relaxam, confiam demais, acham que o esforço de ontem basta para manter tudo de pé amanhã. E quando isso acontece, alguém precisa assumir a responsabilidade.

Meu diretor baixou os olhos, encolhido como uma criança repreendida. Eu sabia que parecia frio. Talvez fosse. Depois de tantos anos tomando decisões que feriam, escolhendo caminhos que custavam carreiras, aprendendo a separar o que sentia do que precisava ser feito, eu já não me importava. A sensibilidade era um luxo que eu não podia pagar. A compaixão, uma brecha pela qual o caos podia entrar.

— Quanto perdemos? — Perguntei, e a pergunta caiu como uma pedra num poço fundo.

— Quatro milhões de libras.

Soltei uma risada curta, seca,totalmente desprovida de humor. Quatro milhões. Um número que para muitos significava riqueza para uma vida inteira, e para mim era apenas um prejuízo inaceitável, um buraco que alguém teria de fechar.

— Quatro milhões. — Repeti, ficando de pé devagar. Os olhares me seguiram como se eu fosse uma sentença prestes a ser pronunciada. — E vocês estão sentados aqui, com papéis e gráficos, tentando explicar o motivo?

Fechei o notebook com um golpe seco.

— Quero uma solução até amanhã. E não me venham com desculpas, não me falem de dificuldades, não me apresentem prazos. Quero saber como vamos recuperar esse dinheiro e como vamos garantir que isso nunca mais aconteça. Me entreguem um plano concreto antes do meio-dia. Se não puderem fazer isso, entreguem suas demissões. Há uma fila de profissionais dispostos a ocupar seus lugares.

— Sim, senhor. — Responderam em coro, vozes trêmulas, uníssonas.

Saí da sala sem olhar para trás.

Não havia nada a dizer que eu já não tivesse dito.

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