Capítulo 1
Cinco anos depois de eu passar a morar com meu meio-irmão Gideon, a bolsista que ele patrocinava se mudou para a nossa casa.
Para retribuir a “generosidade” dele, ela criou o hábito de se enfiar na cama dele à noite. De dia, assumia para si a missão de “consertar” minha personalidade antissocial e retraída.
Três dias antes da cerimônia de formatura de St. George Prep, ela me trouxe um copo de suco com aquele sorriso enjoativo, doce demais.
“Sabe, Charlotte, sua alergia a amendoim provavelmente é psicossomática. Você só precisa de uma terapia de exposição. Deixa eu te ajudar a superar isso.”
Naquela noite, minha garganta se fechou por completo. Ela tinha misturado de propósito no meu suco um extrato concentrado de amendoim.
Eu me contorci no assoalho de madeira gelado, a visão afunilando enquanto o oxigênio fugia dos meus pulmões.
No último segundo antes de a escuridão me engolir inteira, arranhei desesperadamente em direção à porta entreaberta.
No corredor estavam meu namorado, Dylan, e meu meio-irmão, Gideon.
Eles apenas me observaram sufocar. Então Gideon, com calma, estendeu a mão e fechou a porta.
Eu morri de choque anafilático.
Três meses depois, como um fantasma preso a este mundo, eu a vi atravessar o campus de Stanford a passos firmes. Vestindo minhas roupas. Carregando minha carta de aprovação. Torrando meu fundo fiduciário.
No meio da multidão, eu vi Gideon — meu meio-irmão gelado, inalcançável — envolver o rosto dela com delicadeza e pressionar os lábios nos dela.
Então eu despertei, arfando.
Eu tinha voltado.
Três dias antes da formatura.
“Charlotte? Charlotte, acorda!”
Alguém sacudiu meu ombro com força. Eu me ergui num solavanco, puxando ar como uma mulher se afogando ao romper a superfície. Sem inchaço. Sem urticária. Minha garganta funcionava perfeitamente.
Fiquei ali, tremendo e encharcada de suor. Natalie estava ao lado da minha cama, com o uniforme de St. George, segurando uma bandeja com um suco de cor viva e biscoitos artesanais.
“Charlotte, pesadelo? Você tá ensopada.” Os olhos grandes de Natalie irradiavam preocupação.
Eu fixei o olhar no rosto dela enquanto o zumbido nos meus ouvidos diminuía. O calendário digital brilhava na parede: 15 de maio.
Três dias até o baile de formatura.
Três dias até o inferno escancarar as portas.
“Por que você tá me olhando assim?” Minha intensidade fez com que ela recuasse meio passo antes de recuperar aquele sorriso apaziguador.
“Eu fiz uma mistura fresca — morango, seu favorito. Olha, sobre a briga de ontem por causa da tese, a culpa foi minha. Bebe isso e a gente fica bem?”
Mistura fresca.
Na minha vida anterior, essa “dose de teste” de extrato de amendoim me mandou para a enfermaria. Três dias depois, na formatura, eles aplicaram a quantidade que matou.
Engoli a fúria assassina e consegui esboçar um sorriso trêmulo.
“Obrigada, Natalie.” Estendi a mão para o copo; meus dedos roçaram a mão dela — gelada o bastante para fazê-la se sobressaltar. “Eu tive o pior sonho.”
“Então isto vai ajudar.” Os olhos dela acompanharam o copo como os de um falcão vigiando a presa, cintilando com uma antecipação mal contida.
Ergui-o até os lábios. Sob a doçura do morango, espreitava aquele inconfundível fundo amendoado.
No instante em que a borda tocou minha boca, puxei a mão num solavanco.
— Merda...
O líquido vermelho descreveu um arco perfeito e se espatifou na blusa de seda de Natalie. O copo atingiu o carpete branco com um baque surdo.
— Que porra é essa! — A máscara doce dela se estilhaçou. Natalie gritou, puxando a camisa encharcada.
— Meu Deus, me desculpa! Minha mão só... eu mal consigo segurar qualquer coisa. — Catei lenços, tentando absorver tudo, frenética. — Escorregou, eu juro. Por favor, não fica brava comigo.
Ela forçou a mandíbula a relaxar, o rosto tenso, mas o sorriso colado de volta. — Está... tudo bem. Vou só pegar outra blusa.
A porta se escancarou. Gideon e Dylan entraram.
Gideon usava o terno sob medida de sempre, o olhar afiado me dissecando por trás dos óculos de aro dourado.
Dylan — que supostamente “tinha passado aqui pra nos dar carona”, mas claramente estava lá embaixo bajulando Natalie — franziu a cara ao ver a bagunça e correu para o lado dela.
— Você está bem? — O braço de Dylan passou pelos ombros dela automaticamente, a preocupação escancarada no rosto. Como diabos eu não tinha percebido antes?
— Eu estou bem. A Charlotte só teve um acidente... — O lábio inferior de Natalie tremeu, lágrimas se acumulando.
Gideon deu um passo à frente, avaliando o carpete manchado antes de me prender no lugar com um olhar gelado.
— Charlotte, se você vai continuar agindo como uma desequilibrada, talvez eu devesse ficar com aqueles documentos do fundo fiduciário por mais um tempo. — A voz dele era capaz de congelar o sangue. — O dinheiro da mamãe não é pra bancar os seus surtos.
A mesma merda controladora. Na minha vida passada, ele usou isso como um bisturi, recortando minha confiança pedaço por pedaço.
Baixei o olhar, torcendo as mãos — o retrato perfeito de uma garota destruída. — É só o estresse da formatura. Me desculpa, Gideon. Eu vou melhorar.
— Trate de melhorar. — Ele se virou com desdém. — Dylan, ajude a Natalie a limpar. E você... fique no seu quarto e tente não destruir mais nada.
Três pares de passos se afastaram. A fechadura fez clique.
No segundo em que eles saíram, toda e qualquer fraqueza evaporou do meu rosto.
Fui ao banheiro e joguei água gelada no rosto. A garota que me encarava no espelho estava pálida como a morte, mas os olhos ardiam frios e afiados.
Quer brincar? Tudo bem. Então vamos brincar.
Puxei a gaveta escondida sob a minha escrivaninha e peguei um celular descartável.
Quinze minutos depois, por meio de um fórum clandestino de tecnologia, eu já tinha encomendado microcâmeras de grau militar e escutas de áudio, com entrega expressa para o depósito abandonado atrás da cozinha.
Nesta casa de lobos, não existiam vítimas inocentes.
A única saída do inferno era abrir caminho na luta.
