Capítulo Um
POV da Vivienne
Eu morri no dia em que eu deveria me casar com o Grayson.
Porque a minha irmã, Delilah, teve o coração “partido”, minha família decidiu levá-la para a nossa fazenda em Ashwood para ela se recuperar com passeios a cavalo. O casamento foi adiado.
Eu estava caída no estábulo da fazenda da família Clarke, discando o número da minha mãe com os dedos cobertos de sangue.
Ela só disse: “Que tipo de joguinho você está fazendo agora? Você acha que, se fizer drama, a gente vai sair correndo? Vivienne, já chega!”
Meu noivo, Grayson, foi ainda mais cruel: “É só um adiamento, não um cancelamento. Se você não aguenta isso, então vamos cancelar tudo de vez — eu caso com a Delilah no seu lugar.”
Aquela seria a última vez que eles iam me decepcionar.
E a última vez que eu ia pedir ajuda.
Eu estava estendida na minha própria poça de sangue, já sem ar. Eles acharam que eu só estava fazendo birra, escondida em algum lugar para ficar de cara fechada. Acharam que, se me ignorassem por tempo suficiente, eu acabaria voltando, rastejando, para pedir desculpas.
Mas eles não sabiam.
Eu já estava morta.
Quando a minha alma se desprendeu do estábulo, eu ouvi a voz do meu irmão, Nathaniel.
Ao longe, a casa principal da fazenda dos Clarke brilhava, toda iluminada.
Eles tinham chegado.
“Três dias e ela ainda não voltou pra casa? Não atende o celular, não responde mensagem nenhuma.” Nathaniel estava na varanda da casa da fazenda, com o telefone colado ao ouvido, a impaciência pesando na voz.
Do outro lado, era a nossa governanta.
Nathaniel bufou, com desdém. “Tá. Não se incomoda com ela, não. Deixa ela ir pra onde quiser.”
Eu o segui enquanto ele entrava.
Aquela fazenda era propriedade da família Clarke, nos arredores de Ashwood. O fogo estalava na lareira, aquecendo a sala de estar. O pai, Richard, lia o jornal. A mãe, Caroline, segurava uma xícara de chá. Delilah estava aninhada junto do Grayson, ouvindo ele falar sobre os planos de cavalgada de amanhã.
“A governanta disse que a Vivienne ainda não voltou depois de três dias.” Nathaniel jogou o celular em cima da mesa de centro.
Minha mãe franziu a testa. “Até quando ela vai continuar com isso? É só um atraso de duas semanas. A Delilah está de coração partido — a irmã dela não tinha que ter um pouco de compreensão?”
Meu pai baixou o jornal. “Ela sempre faz isso. Faz escândalo, some e depois fica esperando a gente implorar pra ela voltar. Ninguém vai procurar por ela. Deixem ela refletir sobre o próprio comportamento.”
A risada da minha mãe foi gelada. “Se ela vai ser tão irracional, que morra por aí e nunca mais volte.”
Eu flutuava num canto, ouvindo.
Antes, eu teria chorado. Teria tentado explicar. Mas agora nem lágrimas eram possíveis. Almas não choram.
Delilah ergueu a cabeça, mordendo o lábio inferior. “Pai, mãe, não culpem ela... A culpa é minha por estar de coração partido e fazer vocês adiarem o casamento...” A voz dela era suave, culpada — como uma corça ferida.
Minha mãe a puxou para perto. “Minha menina, como é que isso pode ser culpa sua? A Vivienne é que está sendo absurda.”
Delilah baixou a cabeça, o polegar voando pela tela do celular —
Espero que você esteja aproveitando a desgraça que você mesma causou. Casamento? Como se você merecesse um. O Grayson me ensinou a montar hoje. As mãos dele eram tão quentes. Você nunca mais vai saber como é essa sensação. Morre. Melhor ainda: nunca mais volta.
Envia. Apaga.
Ela ergueu o olhar, com os olhos brilhando, e mais uma vez se transformou na irmãzinha doce e compreensiva.
Minha alma pairava junto à janela. Eu queria rir, mas nenhum som saía.
Hoje deveria ter sido o dia do meu casamento.
Eu deveria estar de branco, entrando por um corredor coberto de pétalas de rosa, de braço dado com meu pai. Convidados erguendo as taças. Grayson dizendo “sim” diante do celebrante.
Mas, porque Delilah teve o coração “partido” — por um namorado que nem sequer existiu — meus pais decidiram que a família inteira tinha que passar uns dias em Ashwood. O casamento podia esperar duas semanas.
O mais absurdo: Grayson concordou. “Vivienne, a Delilah está frágil agora. São só duas semanas. Não dificulta.”
Naquela noite, eu saí de casa furiosa e fui andando por ruas vazias. O vento gelado atravessava minha jaqueta fina, mas não se comparava ao frio da rachadura no meu peito. Eu não percebi os passos atrás de mim — um tecido áspero cobriu meus olhos, mãos me empurraram para dentro de um carro.
Dirigimos por horas, ou pelo menos pareceu. Quando me arrastaram para fora do porta-malas, o ar fedía a feno e esterco. Cavalos bufando na escuridão.
Um estábulo — a fazenda particular da família Clarke em Ashwood.
Correntes se fecharam no meu tornozelo como se eu fosse gado. O homem não me reconheceu. Não fazia ideia de que tinha largado a presa na propriedade da própria família dela.
Três dias.
Uma lâmina abriu caminho pela minha bochecha. Cigarros apagados na minha clavícula, a carne chiando. Degradação, humilhação, um trapo enfiado na minha boca para eu não conseguir nem gritar.
No terceiro dia, ele tinha bebido. Perdeu o controle. Um golpe pesado na nuca. O sangue jorrou do meu nariz e da minha boca ao mesmo tempo. Meu corpo convulsionou. Meus olhos viraram. Os membros endureceram — como gado morrendo.
Ele entrou em pânico.
“Merda — eu só tô fazendo um serviço, eu não vou voltar praquele inferno!”
As correntes foram tiradas. Passos correram para fora do estábulo. Ele nem chegou a fechar a porta.
Por fim, o mundo ficou silencioso. Só eu no chão congelado, ouvindo meu coração bater cada vez mais fraco.
Com os dedos escorregadios de sangue, achei meu celular onde tinha sido chutado contra a parede. A tela estava estilhaçada, mas ainda acesa. Tremendo, disquei o número da minha mãe.
“Que tipo de joguinho você tá fazendo agora? Você acha que se fizer essa cena de coitada a gente vai sair correndo? Vivienne, chega!”
A ligação caiu.
Disquei um segundo número.
A voz de Grayson veio cansada, irritada. “Vivienne, é só um adiamento. Não é um cancelamento. Se você não consegue lidar com isso, então vamos terminar de vez — eu caso com a Delilah no seu lugar.”
O celular escorregou dos meus dedos e caiu no sangue.
Nos meus últimos instantes, eu pensei: agora o Grayson pode ter o que quer — casar com a Delilah, nunca mais ser “incomodado” por mim.
Delilah sempre quis me ver morta. Aí não teria ninguém para competir pelo amor dos nossos pais. Ninguém no caminho dela.
Agora o desejo dela tinha se realizado.
E, naquele momento, a menos de sessenta metros do meu cadáver gelado, eles estavam reunidos ao redor de uma lareira acesa, reclamando da minha imaturidade, tomando chá quente, discutindo qual cavalo a Delilah deveria montar amanhã.
Ninguém sabia que eu já estava morta.
