Capítulo dois
Ponto de vista da Vivienne
A noite caiu.
Meu espírito flutuava no canto da sala de estar, observando todo o calor girar em torno da Delilah — como em todas as outras noites nos últimos dez anos.
Papai olhou para a Delilah.
— Esta fazenda vai ser sua um dia. Venha ficar aqui sempre que estiver infeliz. Ninguém vai te incomodar.
As palavras atravessaram minha alma anestesiada como agulhas.
Antes de eu fazer doze anos, Papai tinha dito exatamente isso para mim. Ele segurou minha mão enquanto a gente caminhava pela fazenda, apontando para o campo de flores silvestres:
— Vivienne, um dia isso tudo vai ser seu.
Mas tudo mudou depois que a Delilah sumiu por três horas quando tinha sete anos.
Mamãe ergueu o tablet.
— E este relógio? Eu vi que você está de olho nele faz um tempo.
— É caro demais... — Delilah mordeu o lábio. — E ainda tem que comprar primeiro um modelo que ninguém quer pra conseguir a edição limitada.
— Então a gente compra os dois. — Mamãe não hesitou. — O impopular fica pra Vivienne; o seu favorito, pra você.
O mostrador quadrado e antiquado na tela, a pulseira marrom opaca, com textura de couro de crocodilo. Eu encarei aquilo sem sentir nada — sempre as sobras da Delilah.
Delilah fingiu relutância.
— Mas... ela não vai ficar chateada?
— Ela não se atreveria! — A risada da Mamãe foi fria. — Desta vez vamos comprar um pra ela também, assim ela não pode reclamar que estamos favorecendo alguém. E, se ainda fizer escândalo, é porque é ingrata.
Nathaniel se recostou no sofá.
— A gente mimou a Vivienne desde pequena... por isso ela é tão sem noção agora.
Papai assentiu.
— Ela precisa aprender a pensar na família, principalmente na Delilah.
Grayson rolava a tela do celular, como se nada daquilo tivesse a ver com ele.
Os olhos da Delilah ficaram vermelhos.
— Na verdade... eu fiz alguma coisa pra ela entender errado? Quando ela e o Grayson começaram a ficar juntos, eu só estava conversando normal, mas ela achou que eu estava tentando seduzir ele...
Mamãe logo saiu em defesa dela.
— Não fica se martirizando. A Vivienne é que é paranoica.
Eu flutuava no ar, incapaz de falar. O calor era deles. A solidão sempre foi minha.
Delilah nunca foi inocente.
Aos sete, ela desapareceu de propósito por três horas. Quando encontraram, ela chorou e disse que eu tinha atraído ela até o parque pra abandonar lá. Mamãe me deu um tapa na hora:
— Como você pôde ser tão cruel?
Eu chorei e tentei explicar. Ninguém acreditou em mim. A partir daquele dia, minha família passou a olhar pra mim de outro jeito — como se eu realmente fosse aquela irmã mais velha maldosa que queria abandonar a irmãzinha.
E a Delilah, segura nos braços dos nossos pais, me lançou um sorriso vitorioso. Eu guardei aquele sorriso na memória por quinze anos.
Depois disso, eu tentei desesperadamente encontrar alguém que me colocasse em primeiro lugar.
Foi então que eu conheci o Grayson. No nosso primeiro ano de noivado, ele ainda lembrava do meu aniversário, ainda me defendia. Eu achei que, enfim, tinha encontrado o que faltava.
Mas por causa da Delilah, tudo mudou de novo. O Grayson “por coincidência” começou a aparecer com ela em cafés, passou a dizer “a Delilah também tem a vida difícil”, e, depois das brigas, soltava: “Você não consegue ser compreensiva como a Delilah?”
Eu devia ter ficado de coração partido, mas só me senti entorpecida — minha alma já tinha sido moída por uma decepção atrás da outra.
A TV, de repente, mudou para um canal de notícias.
“...Casamento entre Vivienne Clarke, filha mais velha da família Clarke, e Grayson Sterling, herdeiro do Grupo Sterling, adiado abruptamente; suspeita-se de envolvimento da irmã mais nova, Delilah, no relacionamento...”
A tela exibiu a nossa foto de noivado e, em seguida, uma foto de paparazzi da Delilah segurando o braço do Grayson. Os comentários explodiram: [Mais uma irmã mais nova roubando o homem da irmã?] [Essa Delilah tem cara de talarica] [Coitada da Vivienne]
O rosto da minha mãe ficou duro como ferro. “Vivienne! Foi ela que vazou isso!”
Meu pai bateu na mesa. “Três dias sumida, e é isso que ela está fazendo! Ela acha que assim vai obrigar a gente a ceder?”
“Acionem o pessoal do PR agora. Enterrem todas as matérias!” Grayson pegou o celular, a voz gelada.
Nathaniel andava de um lado para o outro, fora de si. “Ela enlouqueceu? Vazar pra imprensa — imagina o estrago na reputação da família!”
Todo mundo estava com raiva, todo mundo me culpando.
Ninguém perguntou: onde está a Vivienne? Por que ela não voltou pra casa em três dias? Aconteceu alguma coisa com ela?
Eu flutuava no ar, observando com frieza. Eles ainda não estavam pensando em mim — só na imagem da família, na reputação da Delilah e em como abafar esse “problema”.
A sala virou um caos. Meu pai ligou para advogados, Nathaniel falou com gente da mídia, Grayson coordenou o PR, minha mãe andava de um lado para o outro, ansiosa.
Ninguém percebeu quando a Delilah saiu, nem viu o brilho de maldade e triunfo nos olhos dela.
De repente, eu me senti inquieta — essa notícia tinha estourado conveniente demais, e a reação da Delilah estava calma demais. Aquilo era uma armadilha.
Dez minutos depois, minha mãe finalmente lembrou: “Onde a Delilah foi parar? Espero que ela não tenha se assustado com aqueles comentários na internet...”
O som de água correndo no banheiro. Minha mãe foi até lá e empurrou a porta entreaberta—
“DELILAH!!!”
Um grito rasgou a noite.
Meu espírito voou pra lá na mesma hora.
No chão do banheiro, Delilah estava deitada numa poça de sangue, dois cortes assustadores nos pulsos, o sangue escorrendo livremente. O rosto dela estava pálido como a morte, os olhos fechados, e ao lado havia uma lâmina de barbear ensanguentada.
