Capítulo 2 De camponesa a órfã em fuga
CAPÍTULO 002
De menina da fazenda a órfã em fuga
EMBERLYN
Eu era só uma menina da fazenda.
Nada de especial. Apenas uma garota que sabia ordenhar cabras antes do sol nascer e recolher ovos quentinhos do galinheiro sem acordar o galo.
Minhas mãos estavam mais acostumadas a mato e terra do que a qualquer outra coisa.
Meu cabelo sempre cheirava a feno e lã de ovelha.
Meus vestidos tinham mais remendos do que eu conseguia contar.
Meus pais, Ma e Da, sempre diziam que assim era mais seguro.
A gente morava numa casinha torta na beira de Eldwyre, longe o bastante da cidade para fingir que o resto do mundo não existia.
Da só ia até a cidade quando a gente precisava, de verdade, de farinha, sal ou remédio. Ele nunca me levava. “Ember, aqui você está mais segura”, ele dizia, bagunçando meu cabelo como se eu ainda tivesse cinco anos.
Eu não tinha amigos, nem irmãos — só Ma e Da.
Ma me ensinou a ler e a escrever com livros velhos que ela mantinha escondidos debaixo das tábuas do assoalho.
Ela dizia que meninas como eu não pertenciam à escola. Quando eu perguntava por quê, ela levava um dedo aos lábios. “É melhor você não saber.”
Então eu parei de perguntar.
Eu me contentava com o silêncio. Com os animais e as tarefas e o vento roçando nas agulhas dos pinheiros. Eu achava que era só disso que eu ia precisar.
Até que o fogo mudou tudo.
Aconteceu logo depois do amanhecer, numa manhã dourada de verão. As ovelhas estavam inquietas, berrando e chutando a cerca.
Eu peguei o cesto de grãos e atravessei o campo, cantarolando para mim mesma.
Então começou o zumbido.
No começo é baixo, e depois vira um tremor no meu peito, como se o chão vibrasse através dos meus ossos. O cesto escorregou dos meus dedos.
Minhas mãos formigaram; o calor se acumulou nas minhas palmas na mesma hora. Eu olhei para baixo e vi um brilho tênue sob a pele, como brasas enterradas sob cinza.
O cesto explodiu em chamas.
O fogo subiu quase um metro no ar, crepitando enquanto devorava o grão seco. Eu cambaleei para trás e caí com força na terra.
Alguma coisa ribombou dentro do meu peito. Como uma voz gritando no meu sangue.
“EMBERLYN!”
Ma saiu correndo de dentro de casa. Da veio atrás, ainda com o machado na mão. Os dois pararam, congelados, quando viram as chamas.
“Ember, para dentro! Agora!”
Eu não conseguia me mexer. O rosto dos meus pais tinha empalidecido; os olhos deles estavam arregalados de medo.
Medo de mim, ou medo do estrago que eu tinha feito, ou medo do que quer que agora existisse dentro de mim.
Eu me pus de pé aos tropeços e corri para a casa, desabando no chão de madeira.
Minutos se passaram. Então a porta rangeu ao abrir.
Ma e Da entraram, as roupas marcadas de fuligem. O fogo tinha apagado. Eles trancaram a porta atrás de si.
Nenhum dos dois falou. Só me encararam.
“O que foi que aconteceu?” Minha voz saiu rouca.
Os olhos de Ma se encheram de lágrimas. “Você nunca mais pode falar disso.”
“Mas eu não—”
“Eu disse nunca!” Ela segurou meus ombros. “Pelo seu bem, pelo bem de todos nós, você não pode falar do que aconteceu.”
Da se ajoelhou ao meu lado, emoldurando meu rosto com as palmas ásperas. “Você está em mais perigo do que jamais esteve.”
As palavras acertaram como um golpe físico.
“Tem gente por aí que faria coisas terríveis com alguém como você”, ele disse devagar. “Alguém com esse tipo de poder. Se descobrirem o que você é, vão vir atrás de você. E não vão parar.”
Ma desviou o olhar, os ombros tremendo.
— Nós escondemos isso de você por um motivo — continuou Da. — Achamos que talvez nunca acontecesse, mas agora chegou, e tudo mudou.
O mundo tinha virado de cabeça para baixo. Tudo em que eu acreditava agora era uma mentira.
Alguma coisa tinha despertado em mim, e não havia mais volta.
Naquela noite, o fogo veio de novo, mas, desta vez, não era meu.
Sentamos para jantar. Ma tinha feito um ensopado com ervas do mato e o resto das cenouras. Da sorvia do seu copo lascado.
Eu encarava a chama da lanterna, incapaz de parar de pensar no que tinha acontecido.
Levantei para encher meu copo. Foi quando eu ouvi.
Um estalo alto lá fora. Depois, cascos em disparada.
A porta explodiu.
O batente de madeira se despedaçou em fogo e fumaça. Figuras atravessaram a entrada — homens com armaduras negras costuradas de sombras, máscaras de caveira prateadas escondendo os rostos. Eles montavam criaturas enormes, de olhos vermelhos e pés com garras.
Meu coração parou, mas meus pais não se abalaram.
Eles estavam esperando por isso?
Um dos homens-sombra foi até Da.
— Onde está a garota?
Eu? Por que estavam me procurando?
Ma se virou num giro e correu até mim, puxando algo de dentro do vestido. Um pingente vermelho que brilhava como fogo aprisionado e um pergaminho amarrado com uma fita preta.
— Ember. Pegue isto. — Ela enfiou os dois nas minhas mãos. — Vá para a Academia Velmora, encontre o Mago Buckley, mostre a ele o pergaminho e diga que a chama continua viva.
Balancei a cabeça.
— Eu não vou deixar você e o Da.
Ela agarrou meus ombros com força.
— Diga “Academia Velmora” para o pingente. Ele vai levar você até lá. É magia, Emberlyn. É o único jeito.
— Eu não vou deixar vocês!
— Eles vieram por você, não por nós. — Lágrimas desciam pelo rosto dela. — Nós protegemos você a vida inteira. Agora se proteja.
Da sala veio um rugido:
— Encontraram ela!
— Corra, Rhea! Pegue ela e corra! — Da gritou.
As criaturas se moveram rápido, rosnando.
Eu dei um passo à frente, erguendo os braços. O fogo explodiu das minhas mãos, atingindo três criaturas com força. A armadura delas ardeu.
Mas vinham mais.
Da apareceu, sangrando. Ele me empurrou em direção à porta do porão.
— Não! Deixa eu lutar!
— Você tem que viver! — A voz dele estava rouca, crua. — Você é a nossa única esperança.
Ele me empurrou pela portinhola.
A última coisa que vi foi Ma se jogando na frente de uma das feras.
O grito dela rasgou o mundo.
Eu bati com força no chão do porão.
— Corra! — A voz de Da veio através da madeira. — Corra e não olhe para trás!
Eu saí pelo acesso dos fundos e corri até alcançar o topo da colina.
Nossa casa estava em chamas. O fogo consumia tudo.
Ma estava caída no chão, imóvel, uma lâmina saía do peito dela.
Da ainda lutava. Ele sangrava, ferido.
Um homem-sombra atravessou-o com uma espada.
Lágrimas escorreram pelo meu rosto quando minhas pernas cederam.
Os homens-sombra saíram de dentro da casa em chamas. Eles me viram, abriram um sorriso diabólico e começaram a avançar devagar.
A dez passos. Depois a cinco. Depois a três.
Eu arranquei meus olhos dos corpos dos meus pais.
Hoje não.
Apertei o pingente com força.
— Academia Velmora — sussurrei.
E saltei do penhasco rumo ao desconhecido.
