Capítulo 3 Chegada à Academia Velmora

CAPÍTULO 003

EMBER

Pedra fria pressionava minha bochecha.

A dor atravessou minhas costelas quando tentei me sentar. Meu vestido estava rasgado, com a sujeira impregnada tão fundo no tecido que eu nunca conseguiria tirá-la.

Como se isso importasse. Nada mais importava.

— Senhorita? Consegue me ouvir?

Piscar os olhos revelou um homem de armadura prateada acima de mim. Tochas azuis queimavam atrás dele. Azuis? Quem usava tochas azuis?

— Onde estou?

— Na Academia Velmora. — Ele se agachou ao meu lado, a armadura tilintando. — Consegue ficar de pé?

Velmora. A palavra fez com que eu gritasse ao me levantar de repente.

O guarda me ajudou a ficar em pé. Eu cambaleei, e ele me segurou. Outro guarda se aproximou, mais jovem, nervoso.

— Ela simplesmente apareceu — murmurou o mais jovem. — Do nada, bem nos portões.

— Você tem alguma identificação?

Olhei para minhas mãos. O pergaminho ainda estava apertado com tanta força que meus nós dos dedos tinham ficado brancos.

Eu o estendi, com os dedos trêmulos.

O guarda o pegou com cuidado e o desenrolou. Os olhos dele se arregalaram.

— Isto é um mandado de entrada selado por magia antiga. — Ele me encarou. — Nunca vi um desses ser usado em toda a minha vida.

— O que isso significa?

— Significa que quem lhe deu isso queria muito que você estivesse aqui. — Ele enrolou o pergaminho de volta. — Venha. A diretora vai querer vê-la imediatamente.

Os portões se abriram.

Eu não conseguia respirar.

Um castelo imenso se erguia em direção ao céu, com torres desaparecendo nas nuvens. Estudantes caminhavam por trilhas que brilhavam suavemente, com livros flutuando ao lado deles como cães treinados.

Aquilo não era real.

— Primeira vez vendo magia?

Assenti.

— Você vai se acostumar.

A caminhada passou num borrão. Os estudantes encaravam e cochichavam.

O guarda bateu numa pesada porta de madeira.

— Entre.

Lá dentro, uma mulher mais velha estava sentada atrás de uma mesa feita de madeira viva. Ela tinha olhos bondosos, pele escura marcada pela idade, cabelos com mechas prateadas em tranças intricadas.

— Diretora, a garota apareceu nos portões com isto. — O guarda entregou o pergaminho.

Ela leu. Sua expressão mudou.

— Obrigada, Garrett. Pode ir.

A porta se fechou.

— Sente-se, criança.

Eu me sentei.

— Qual é o seu nome?

— Emberlyn Frost. Todo mundo me chama de Ember.

— Ember. — Ela sorriu com tristeza. — Eu sou a diretora Seraphine. Você está segura aqui.

Segura. A palavra parecia estranha.

— O que aconteceu com você?

A história jorrou de mim, e ela ouviu cada palavra.

— Você já recebeu algum treinamento?

— Eu nem sabia que magia era real até ontem.

Ela se recostou, preocupada.

— Entendo. Bem, é para isso que estamos aqui. Vou registrá-la como uma maga elemental do primeiro ano. Dormitório do Fogo, com base no que você demonstrou. Você vai dividir um quarto, frequentar aulas, aprender a se controlar.

Uma batida na porta.

— Entre.

Uma garota entrou saltitando. Cabelos ruivos e cacheados, olhos castanho-avelã brilhantes, um sorriso que ocupava metade do rosto. Ela usava uma camisa branca e uma saia verde-escura.

— A senhora me chamou, diretora?

— Liana, esta é Emberlyn. Ela será sua nova colega de quarto.

— Maravilha! Eu sou Liana. — Ela agarrou minha mão e me puxou para cima. — Vamos, eu vou te mostrar o nosso quarto.

— Obrigada, diretora.

— Descanse bem, Ember. Amanhã é a orientação.

Liana me arrastou para fora, tagarelando sobre plantas, dormitórios e alguma coisa sobre um refeitório. Chegamos a uma porta marcada com “Dormitório do Fogo - Quarto 347”.

Ela a escancarou.

Era um quarto pequeno, com duas camas, duas escrivaninhas e plantas por toda parte — nos peitoris das janelas, penduradas no teto, em vasos no chão.

— Aquela é a sua cama. — Ela apontou para a esquerda. — E aquela escrivaninha também. Você vai precisar de uniforme amanhã, eu te mostro onde conseguir. Está com fome?

— Estou bem.

Ela me analisou.

— Você passou por muita coisa.

Desviei o olhar.

— Tudo bem. Todo mundo aqui tem seus motivos. — Ela se jogou na cama. — Vá dormir um pouco. Amanhã vai ser um grande dia.

Deitei ainda vestida, encarando o teto.

Tinham tirado tudo de mim. Minha casa. Meus pais. Minha vida inteira.

Mas, de alguma forma, eu precisava continuar.

A manhã chegou rápido demais.

— Ember! Acorda! — Liana sacudiu meu ombro. — A orientação começa em uma hora. Não podemos nos atrasar.

Ela jogou um uniforme em mim. Uma camisa branca com dois leões rugindo bordados sobre o coração e uma saia verde-escura.

— Primeiras impressões importam — insistiu ela, escovando o cabelo. — Embora você já tenha causado uma ao aparecer nos portões. Isso rende fofoca por pelo menos uma semana.

Maravilha.

Vesti-me rapidamente. O uniforme parecia estranho.

— Pronta?

— Não.

— Perfeito. Vamos.

O Grande Salão era enorme e se chamava auditório Pluto. O teto era tão alto que eu não conseguia ver o topo; velas flutuantes deslizavam pelo ar, e estandartes pendiam das paredes: vermelho e laranja para o Fogo, azul e branco para a Água, marrom e verde para a Terra, e azul-claro e prata para o Ar.

Centenas de estudantes ocupavam longos bancos, conversando e rindo.

— Alunos de Fogo sentam aqui. — Liana me puxou na direção de um banco.

Nós nos sentamos na mesma hora.

Liana cutucou meu ombro.

— Olha, tá vendo aqueles cinco ali perto da frente?

Acompanhei o olhar dela.

Cinco rapazes estavam sentados numa mesa separada. Mesmo daqui, havia algo neles... diferente.

— São eles — sussurrou Liana. — Os Herdeiros. Os cinco estudantes mais poderosos da academia.

Ela apontou.

— À esquerda, o de cabelo preto com a cicatriz? Kael Draven. Ele é um metamorfo de dragão, magia de sombras e de éter.

Ele parecia assustador.

— Do lado dele está Rowan Morley. Ele é um vampiro e manipula o próprio medo.

Ele é pálido como a morte, com olhos cor de carmesim e vestido de preto.

— O de cabelo azul-prateado é Magnus Penn. Ele é um lobisomem, magia de água e gelo.

— O de pele bronzeada é Lance Jabez. Metamorfo de puma, magia da terra. E o loiro é Ragnar Xenos. Uma harpia, manipula o tempo e enxerga múltiplos futuros.

Eu encarei. Eles eram bonitos de um jeito errado.

— Por que eles se sentam sozinhos?

— Porque ninguém tem coragem de sentar com eles.

O burburinho cessou. A diretora Seraphine estava atrás de um púlpito entalhado.

— Bem-vindos, estudantes, a mais um ano na Academia Velmora.

Sua voz se projetava sem que ela precisasse gritar.

— Aos estudantes veteranos, bem-vindos de volta. Aos novos alunos, bem-vindos ao primeiro dia de educação mágica. Vocês foram separados de acordo com seu elemento primário. Aqui vocês aprenderão controle, disciplina e respeito pelo poder que carregam.

Tentei me concentrar, mas minha mente se desviou. Para os meus pais, o fogo e os assassinos mascarados.

— Este ano temos vários alunos novos. Quando eu chamar seu nome, por favor, levante-se.

Nomes foram chamados, e aplausos vieram em seguida.

Então:

— Emberlyn Frost.

Todas as cabeças se viraram na minha direção.

Liana me cutucou.

— Levanta.

Eu me obriguei a ficar de pé, bamboleando.

— Quem é ela?

— Nunca ouvi esse nome.

— Ela parece apavorada.

A diretora Seraphine sorriu.

— Emberlyn é nossa mais nova aluna de Fogo. Como manda a tradição, ela acenderá a tocha cerimonial para dar-lhe as boas-vindas à nossa comunidade.

Não.

— Venha à frente, querida.

Minhas pernas se moveram sem permissão. Todos os olhares me seguiram até eu chegar à frente.

Uma tocha apagada estava no centro, tão alta quanto eu, com a base entalhada com chamas.

— Coloque a mão sobre a tocha e chame o seu fogo. Não pense demais. Apenas deixe que ele venha.

Estendi minha mão trêmula, mas nada aconteceu.

O pânico subiu arranhando a minha garganta. Apertei os olhos com força. Por favor. Só uma chama pequena.

O calor se formou no meu peito, se espalhando pelos meus braços, se reunindo na palma da minha mão.

O fogo explodiu.

Um inferno furioso irrompendo como um vulcão.

A tocha se acendeu, as chamas disparando a três metros de altura. Então o púlpito e o estandarte pegaram fogo.

Os estudantes gritaram; alguém berrou para recuarem, enquanto o fogo se espalhava cada vez mais rápido.

Eu não conseguia parar.

O pânico alimentava as chamas.

Então, de repente, água me atingiu como um golpe físico. Eu engasguei, sufocando. A água jorrou sobre mim e sobre as chamas, e o fogo morreu com um chiado de vapor.

Fiquei ali, ensopada, tremendo tanto que meus dentes batiam.

Magnus abaixou a mão; seus olhos verde-mar brilhavam de diversão. Os lábios se curvaram num sorriso presunçoso.

— Bom, isso foi dramático.

Ele inclinou a cabeça para mim e voltou para a mesa dele.

Eu queria sumir. Afundar no chão e nunca mais ser vista. Todos no salão estavam me olhando.

Mas eu me obriguei a continuar de pé. Me obriguei a manter o queixo erguido, mesmo com o rosto queimando mais quente do que qualquer fogo.

— Está tudo bem, pessoal. Não houve dano algum. — A voz da diretora Seraphine cortou o caos. — Essas coisas acontecem com alunos novos. Controle é a primeira coisa que ensinamos em Velmora.

Ela olhou diretamente para mim, com uma expressão gentil.

— Muito bem por ter tentado, senhorita Frost. As aulas começam amanhã. Todos estão dispensados.

Os estudantes foram saindo, e as vozes deles subiram num falatório animado sobre como a garota nova quase incendiou o Grande Salão.

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