Capítulo 4 Almoço e mordida
CAPÍTULO 004
EMBER
Na hora do almoço, a academia inteira já sabia do meu desastre no Grande Salão.
Eu conseguia sentir os olhares enquanto Liana e eu caminhávamos pelos corredores. Os alunos apontavam abertamente para mim enquanto cochichavam por trás das mãos.
Alguns realmente saíam do caminho para nos deixar passar, como se tivessem medo de que eu pudesse acidentalmente colocá-los em chamas.
Liana conversava alegremente ao meu lado, completamente despreocupada. "Então, depois do almoço, temos tempo livre até o jantar. Posso te mostrar a biblioteca, se você quiser, ou os campos de treinamento. Embora talvez ainda não os campos de treinamento. Você já causou dano demais à propriedade por um dia."
"Não está ajudando."
"Estou tentando distrair você."
"Ainda não está ajudando."
Ela apertou meu braço. "Vai ficar tudo bem. Dá um dia, e outra pessoa vai fazer alguma coisa vergonhosa. Capacidade de atenção curta, lembra?"
Eu queria acreditar nela. Queria mesmo.
O refeitório se estendia longo e amplo, cheio de alunos e barulho.
As mesas eram marcadas com símbolos elementais, os bancos lotados de gente comendo e rindo.
"Mesa do fogo." Liana me guiou até um pano vermelho bordado com chamas. "Só ignore todo mundo. Concentre-se na comida."
Nós nos esprememos na ponta de um banco. No momento em que nos sentamos, as conversas ao redor falharam e cabeças se viraram. Mantive os olhos baixos, encarando o prato vazio à minha frente.
A comida apareceu nos pratos, materializando-se do nada. Frango assado, legumes, pão quentinho, uma jarra de água com gás.
Magia. Tudo ali era magia.
"Come", Liana sussurrou, colocando comida no meu prato. "Você está com cara de semimorta."
Peguei o garfo, mas minha garganta se fechou. Cada sussurro parecia uma faca.
"É ela?"
"A garota que quase incendiou o salão?"
"Ela nem deveria estar aqui."
Liana chutou alguém por baixo da mesa. "Cuida da sua vida."
Os sussurros diminuíram, mas não pararam.
Forcei-me a dar uma mordida no frango. Tinha gosto de cinza, mas mesmo assim engoli. Liana estava certa sobre uma coisa: eu precisava comer.
Meus olhos percorreram o salão.
Os cinco Herdeiros estavam sentados numa mesa perto da frente, separados de todo mundo. Ninguém se aproximava deles nem sequer olhava diretamente para eles, exceto em relances rápidos e nervosos.
Mas eu olhei.
Não consegui evitar. Havia algo neles que puxava a minha atenção.
Kael estava sentado na extremidade mais distante, com a postura perfeita. Mesmo parado, irradiava perigo.
Eu devia desviar o olhar e me concentrar na comida.
Mas não desviei.
Os olhos de Kael se moveram e encontraram os meus.
Eu congelei. Cada músculo do meu corpo travou. O olhar dele era frio, calculista, como se estivesse me desmontando peça por peça para ver do que eu era feita.
Eu não conseguia respirar.
Então a cabeça de Rowan se ergueu de repente.
Os olhos carmesim dele se fixaram em mim com uma intensidade súbita. Eles de fato brilhavam, como brasas no fogo, e as narinas dele se dilataram.
"Ember." A voz de Liana saiu afiada de pânico. "Pare de encarar eles agora mesmo."
Eu não conseguia. Meu corpo não obedecia.
Rowan se levantou.
Num momento, ele estava sentado. No seguinte, simplesmente estava de pé, tão rápido que eu não vi o movimento entre uma coisa e outra. Os olhos carmesim dele nunca deixaram os meus.
"Ah, não", Liana sussurrou. "Não, não, não."
O refeitório ficou em silêncio. Absolutamente todo mundo parou de comer, parou de falar. Todos observavam Rowan se mover.
Ele estava na minha frente antes que eu pudesse piscar.
De perto, ele era aterrorizante. Bonito do jeito que uma lâmina é bonita. A pele pálida parecia nunca ter visto a luz do sol. O cabelo negro como asa de corvo emoldurava um rosto perfeito demais para ser real.
E aqueles olhos, aqueles olhos carmesim brilhantes, queimavam nos meus.
Ele se inclinou, perto o bastante para que eu sentisse o frio irradiando da pele dele. Nenhum calor. Como se a própria morte tivesse assumido forma humana.
Ele inspirou devagar, bem junto ao meu pescoço.
Eu não conseguia me mover. Meu corpo inteiro tinha virado pedra.
"Você tem cheiro de fogo", ele murmurou, a voz suave com um sotaque que eu não soube identificar.
O nariz dele roçou minha pele, e eu estremeci.
"Mas tem outra coisa." A voz dele baixou ainda mais, confusa. "Algo que eu não consigo identificar. O que você é?"
O que eu era? Eu não sabia. Não entendia a pergunta.
"Eu..." A palavra saiu como pouco mais que um sussurro.
Então a dor explodiu no meu pescoço.
Aguda, imediata e ardente. Soltei um arquejo, levando as mãos para cima, mas Rowan segurou meus pulsos sem esforço e os manteve afastados.
A boca dele estava no meu pescoço. Os dentes, cravados na minha pele.
Porra!
Aquele idiota estava me mordendo.
A dor era diferente de tudo que eu já tinha sentido. Ardía e congelava ao mesmo tempo, se espalhando do ferimento pelo meu corpo inteiro.
Tentei gritar, mas nenhum som saiu. Meus membros ficaram fracos, inúteis. Seja lá o que fosse aquilo, estava fazendo alguma coisa comigo, drenando minhas forças, tornando impossível lutar.
Então a língua dele passou pelo ferimento, e a dor se transformou em outra coisa completamente diferente.
Rowan se afastou, soltando meus pulsos. Os lábios dele estavam manchados de vermelho com o meu sangue.
A expressão dele tinha mudado de curiosidade fria para uma confusão genuína, quase inquieta.
— Seu sangue é estranho. — Ele lambeu os lábios, provando de novo. — Errado, de algum jeito. O que você é…
Minha mão se moveu e acertou o rosto dele.
O tapa ecoou pelo refeitório silencioso.
Por um instante, ninguém se mexeu. Ninguém respirou. Espera! A percepção do que eu tinha feito me atingiu. Eu tinha acabado de bater em um dos Herdeiros. Um príncipe vampiro.
A cabeça de Rowan tinha virado um pouco com o impacto.
Ele tocou a própria bochecha devagar, quase como se estivesse testando, e então me olhou com olhos carmesim bem abertos.
Chocado.
— Ember! — Liana se levantou num salto, a voz aguda de pânico. Ela olhou para Rowan, as mãos erguidas num gesto apaziguador. — Por favor, ela não quis dizer isso, ela só…
Eu a ignorei.
— Você é um cachorro? — Minha voz saiu cortante, furiosa. A fraqueza da mordida já estava sumindo, substituída por pura raiva. — Sai por aí mordendo as pessoas sem permissão? O que é que tem de errado com você?
Os olhos de Rowan se arregalaram ainda mais. À nossa volta, os alunos engasgaram, ofegantes.
Ergui a mão e toquei meu pescoço. Meus dedos voltaram vermelhos de sangue.
Sem pensar, agarrei a frente da camisa preta impecavelmente passada de Rowan e esfreguei o sangue nela, deixando listras carmesim no tecido caro.
— Nunca mais — eu disse, a voz tremendo de raiva — viole minha privacidade desse jeito. Não me morda como algum babaca doente que não entende limites. Eu não sou sua refeição.
Silêncio.
Então Rowan riu.
Começou baixo, um ronco no peito, e foi crescendo, ficando mais alto. Os olhos dele se acenderam com alguma coisa que eu não consegui identificar. Diversão? Fascínio?
— Fogo — ele murmurou, inclinando a cabeça. — Você tem fogo em você. No seu sangue, na sua voz, em tudo o que você é.
O sorriso dele se alargou, mostrando a ponta das presas. — Eu gosto das minhas mulheres assim: ariscas, de sangue quente, língua afiada.
— Eu não sou sua mulher.
— Ainda não. — Os olhos dele brilharam. — Mas alguma coisa me diz que eu vou ver muito mais de você.
A raiva me inundou. — Você não vai provar do meu sangue de novo, disso eu tenho certeza.
Rowan se inclinou para a frente, tão perto que eu conseguia ver os pontinhos de vermelho mais escuro nos olhos carmesim.
A voz dele baixou para um sussurro que só eu podia ouvir.
— Isso só funciona se você conseguir me afastar na luta. — O sorriso dele ficou predatório. — E nós dois sabemos que você ainda não consegue controlar sua magia. Nem consegue manter suas emoções sob controle. Então me diga, chaminha… como exatamente você pretende me manter longe?
Eu abri a boca para responder, mas ele se endireitou e deu um passo para trás.
— O desafio começa agora. — A voz dele era leve, quase brincalhona. — Eu ficaria de olho, se fosse você.
Então ele virou e voltou para a mesa dele com aquela mesma velocidade impossível, me deixando ali, tremendo de fúria.
O refeitório explodiu em barulho.
— Ela acabou de…
— Ela deu um tapa nele!
— E ele riu!
— Ela é maluca?
Liana agarrou meu braço, os olhos enormes. — Você perdeu a cabeça? Você tem noção do que acabou de fazer?
Eu fiz uma careta, as mãos fechadas em punhos. — Ele me mordeu. Eu devia fazer o quê, agradecer?
— Você deu um tapa num vampiro! Num dos Herdeiros! Ele podia…
— Podia o quê? Me morder de novo? — Toquei meu pescoço.
O ferimento já estava se fechando, mas eu ainda conseguia senti-lo.
E pior: eu sentia outra coisa. Uma sensação estranha de formigamento se espalhando dentro de mim, como se alguma coisa estivesse se assentando no meu sangue e nos meus ossos.
O que ele tinha feito comigo?
Olhei para o outro lado do salão. Rowan estava sentado à mesa dele, perfeitamente composto, mas os olhos estavam em mim, observando.
Eu encarei de volta, me recusando a desviar primeiro.
O sorriso dele se alargou.
Aquilo não tinha acabado. Nem de longe.
E, de algum jeito, eu sabia que a minha vida na Academia Velmora tinha acabado de ficar muito, muito mais complicada.
