Capítulo 1
“A exclusiva de hoje: William Spencer, a estrela em ascensão de Emerald City, foi flagrado de mãos dadas com a popular dançarina Celeste Brown enquanto fazia compras. O Grupo Spencer cresceu rapidamente nos últimos anos sob a liderança do jovem empreendedor, e sua vida privada se tornou um tema quente. Segundo fontes internas, Celeste e William se conhecem desde a infância—”
A TV de repente ficou muda, seguida do resmungo da empregada, Tammy: “Eu realmente não sei o que o Sr. Spencer está pensando. Que Celeste o quê? Ele já tem a Sra. Spencer.”
Um suspiro agudo veio da cozinha. Rebecca Percy abriu a torneira de água fria e deixou a água correr sobre a mão avermelhada e queimada. Ao ouvir o barulho, Tammy correu até lá.
—Sra. Spencer! Como a senhora pôde ser tão descuidada? Eu disse para deixar eu cozinhar as refeições da Srta. Brown. Aposto que ela nem consegue notar a diferença!
—É só deixar na água fria por um tempo e vai ficar bem. Tammy, por favor me ajude a embalar a comida e peça ao mordomo para entregar na casa da Srta. Brown.
Embora Rebecca falasse com calma, Tammy ficou com pena dela.
—Sra. Spencer, suas mãos são tão delicadas e claras… mãos de artista. Não eram para estar na cozinha. A Srta. Brown é tão arrogante só porque cresceu com o Sr. Spencer.
—O William a vê como família. O estado dela fica melhor e pior o tempo todo, então precisamos ceder ao que ela quiser. Dizem que é terminal, mas talvez aconteça um milagre se ela continuar feliz.
—E ficar feliz significa ficar com o marido dos outros?
—Tammy!
O tom de Rebecca ficou severo. Ela desprezava esse tipo de reclamação sem sentido e não queria ninguém se intrometendo nos assuntos dela e de William. Mas, sabendo que Tammy só estava indignada por ela, suavizou a voz:
—Uma paciente terminal quer passar os últimos dias com a pessoa que ama. O William só quer realizar o desejo dela. É só uma encenação.
Tammy apertou os lábios e voltou ao trabalho em silêncio. A água fria da torneira continuou correndo, amortecendo a ardência da queimadura na mão de Rebecca.
Rebecca sentou-se sozinha à mesa de jantar, comendo uma comida simples, vegetariana. Já tinha se acostumado com William não estar em casa para o jantar, mas o que ela não conseguia se acostumar era com o filho, Oliver Spencer, também não estar por perto.
“Mom, a Celeste disse que está com saudade e comprou brinquedos novos pra mim. Vou ver a Celeste. Já volto!”
“Tudo bem.”
Fora concordar, Rebecca não sabia o que mais dizer.
Ela nem precisava pensar para saber que William estava ali, ao lado de Oliver, do outro lado da ligação.
Uma frustração apertou seu peito, mas, mais do que isso, era confusão. Será que os sentimentos de William por Celeste eram mesmo apenas amizade de infância? Ou era uma chama antiga que nunca se apagou e, nesses últimos cinco anos, ela só tinha se enganado? Será que, na verdade, ela era a intrusa?
Nesse momento, o celular tocou. Na tela apareceu um nome que ela não via havia muito tempo — Aurora Ross.
Rebecca atendeu e perguntou, agradavelmente surpresa:
—Aurora, como você arranjou tempo para me ligar?
—Você não viu as notícias de hoje?
—Hã? Ah, a notícia é falsa. O William tem o próprio—
—Estou falando das MINHAS notícias!
—Hã?
—Você só sabe girar em torno do William. Você consegue se importar com outras pessoas nem que seja uma vez? Vai olhar você mesma e, depois, pensa numa pergunta: você quer acabar com essa vida de dona de casa, sustentando o marido e criando o filho, e voltar para o palco? Se quiser voltar, vem me procurar.
A ligação caiu, deixando Rebecca ali, atônita.
Voltar para o palco?
Ao ver as postagens nas redes sociais sobre Aurora, sua veterana, retornando ao país para abrir uma empresa de música e cultura, seu coração se agitou. Mas logo aquela agitação se aquietou.
Com um toque de autodeboche, ela mandou uma mensagem para Aurora, recusando educadamente a ideia de voltar para o palco.
Ela recebeu rapidamente a resposta de Aurora: [Respeito a sua decisão.]
Ela conhecia Aurora muito bem. Aquela frase, com certeza, carregava uma decepção profunda.
Mas o que Rebecca podia fazer? Cinco anos antes, quando engravidou inesperadamente, as palavras de William ainda ecoavam em seus ouvidos:
— Eu posso me casar com você, mas não quero minha esposa aparecendo em público. Rebecca, as pessoas não podem ser tão gananciosas. Piano e família — você só pode escolher um.
Mesmo deixando de lado a exigência inicial de William, Rebecca olhou para os calos finos nas próprias mãos. Eles a lembravam de que aquelas eram mãos de dona de casa, não mãos de pianista.
Quando William chegou em casa, já passava das nove. Rebecca saiu de pijama e viu William carregando Oliver, adormecido, para o quarto das crianças.
— A gente não devia acordar ele pra escovar os dentes antes de deixar dormir?
— Ele já se lavou na casa da Celeste. — William cobriu Oliver.
Rebecca sentiu o peito apertar. Quando a porta do quarto das crianças se fechou, William afrouxou a gravata e seguiu para a suíte. Ela criou coragem e foi atrás.
— O que foi?
William tinha TOC severo e dormia com o sono leve. Em cinco anos de casamento, eles sempre dormiram em quartos separados. Tirando limpar e arrumar o quarto dele todos os dias, ela não entrava lá.
— Eu preciso falar com você.
William deu de ombros e tirou o paletó. Rebecca fechou a porta e pegou o paletó para pendurá-lo.
— Ultimamente, você tem levado o Oliver pra casa dela o tempo todo. Eu acho que isso não faz bem pro Oliver.
As mãos de William pararam por um instante enquanto ele desabotoava a camisa. Ele disse:
— O que que não faz bem nisso? O Oliver gosta da Celeste. Desde o dia em que o Oliver nasceu até hoje, a Celeste compra presentes pra ele em todos os feriados. Na sua depressão pós-parto, a Celeste até ajudou a cuidar do Oliver todos os dias. Agora que a Celeste está doente, é justo que o Oliver a visite com mais frequência.
Ouvindo a explicação objetiva de William, Rebecca cerrou os punhos sem perceber.
— O Oliver só tem quatro anos. Aos olhos dele, seu relacionamento com a Celeste parece até mais próximo do que comigo. Isso é normal?
— O que você está querendo dizer, exatamente? — William parecia estar perdendo a paciência.
— Se a doença da Celeste não melhorar, você vai continuar mimando ela desse jeito? — O tom de Rebecca era até um pouco humilde, mas, inesperadamente, isso tocou num nervo exposto de William e arrancou uma repreensão furiosa.
— E eu não devia mimar? Ela não tem muito tempo! E você aqui fazendo cena!
— Eu estou fazendo cena? — O rosto de Rebecca foi do pálido ao vermelho. — Você é meu marido. Você vai ficar com outra mulher todos os dias. O que tem de errado eu perguntar sobre isso? Eu estou errada em perguntar? Você diz que está realizando o desejo dela, mas, William, você está mesmo realizando o desejo dela ou o seu?
William raramente via Rebecca tão confrontadora. Era bem diferente da pessoa gentil, calma e sem exigências que ele conhecia.
Em cinco anos, eles tinham se tratado com respeito. Mas ele via tudo o que ela fazia. Rebecca era uma boa esposa e uma boa mãe. Ele adorava vê-la sentada quieta na varanda, lendo, com a luz do sol caindo sobre ela, dando uma sensação de tranquilidade satisfeita.
— Rebecca, eu estou muito cansado. Se você não quer que o Oliver vá tanto pra casa da Celeste, então a gente vai menos vezes. O estado da Celeste fica oscilando. Ela realmente não aguenta mais estresse. Você pode ser mais compreensiva?
William segurou os ombros dela, tentando acalmá-la num tom baixo.
Normalmente, Rebecca engoliria toda a amargura, mas hoje, por algum motivo, ela não queria ser dispensada assim. Ela ergueu os olhos cheios de lágrimas para William.
— Se ela está doente, ela que procure um médico. Se ela fica vindo atrás de você, então não é o corpo dela que está doente — é a cabeça!
Um tapa estalado ecoou pelo quarto. O rosto de Rebecca ardia de dor.
