Capítulo 10
Os lábios de Rebecca se curvaram de leve.
— Obrigada, Natalie, por estar sempre comigo quando eu mais preciso.
— Ah, por favor. Nós duas sabemos que, se eu fosse homem, você seria minha. William quem? — Natalie era sempre brincalhona.
Rebecca cutucou a cintura dela.
— Se você fosse um cara, ia partir corações, com certeza.
As duas ficaram de brincadeira, e Natalie apoiou a mão no ombro de Rebecca. Sem querer, puxou um pouco a toalha e viu as marcas vermelho-escuras no pescoço de Rebecca. Os olhos grandes dela piscaram.
— O que foi? — Rebecca notou que ela tinha ficado quieta e, então, percebeu para onde Natalie estava olhando e, instintivamente, puxou o roupão de banho para cima.
— Rebecca! O que é isso?
Assim que Natalie gritou, Rebecca cobriu a boca dela com a mão.
— Por que você está gritando? É só uma picada de mosquito.
Natalie mordeu de leve a mão de Rebecca para se soltar, depois apontou para ela.
— Você acha que eu sou ingênua e fácil de enganar? Você chama isso de picada de mosquito?
O olhar de Rebecca desviou, e ela pigarreou sem perceber.
— Quem foi? Eu estava me perguntando por que você mudou do nada. Você está tendo um caso?
— Não fala besteira!
Rebecca negou depressa.
— Olha pra você! Foi o senhor Whitaker, aquele que te acompanhou até o quarto!
— Natalie, dá pra você não se exaltar? Não chegou a esse ponto!
Rebecca cobriu o rosto, se sentindo completamente desesperada por dentro.
— Eu bebi demais mais cedo e acabei me empolgando, mas acredita em mim, foi só isso. Não aconteceu mais nada.
— Não aconteceu nada?
Natalie ainda parecia desconfiada. Rebecca ergueu a mão.
— Eu juro. As coisas esquentaram um pouco, mas foi só isso. Nada além.
— Chegou a esse ponto e ainda assim não aconteceu nada? Ele não dá conta?
Os olhos de Rebecca se arregalaram com o resmungo de Natalie.
— É isso que importa?
Natalie, na verdade, fez uma expressão de arrependimento.
— Você ainda é conservadora demais! Eu te falei: solta o seu charme. O William pode trair e você tem que cuidar da família? A gente é humano, todo mundo tem necessidades! Se ele não consegue te satisfazer, qual o problema de arrumar outro homem?
Natalie sempre foi de mente aberta.
E Rebecca até concordava, achando que homens e mulheres deveriam ser iguais e que as mulheres não tinham por que sentir vergonha de expressar seus desejos.
— Então como é o senhor Whitaker? Quantos anos ele tem? O dono da Zenith... o histórico dele deve ser muito bom. Talvez não tão importante quanto a família Spencer, mas...
— Tá, tá, por favor, Natalie. Foi só um acidente. Vamos parar de falar disso.
O banho tinha deixado Rebecca bem mais sóbria, e o que tinha acontecido antes agora parecia ridículo, mas as palavras de Natalie, de repente, fizeram tudo parecer romântico de novo.
Naquela noite, Rebecca e Natalie conversaram sobre muitas coisas e dormiram no hotel, cada uma voltando para casa no dia seguinte.
Ao meio-dia, na mansão da família Spencer.
Assim que Rebecca entrou, ficou chocada com a cena diante dela. Havia alguém na casa que, de jeito nenhum, deveria estar ali.
— Rebecca, você voltou. Me desculpa pelo que aconteceu ontem à noite com o William...
— O que significa isso?
Rebecca não deu ouvidos às palavras falsas de Celeste e foi direto até William, perguntando.
William largou o que estava fazendo e se levantou. — Onde você estava ontem à noite? Eu te liguei, por que não atendeu?
— Me responde. O que significa isso? Por que ela está aqui?
— Mãe, eu convidei a Celeste para ficar na nossa casa. — A figurinha do Oliver apareceu detrás do sofá. Ele ergueu o rosto fofo, mas as palavras cortaram o coração dela como uma faca.
— Por quê?
— Porque a saúde da Celeste está muito ruim, e o médico disse que, se ela mantiver o bom humor, o quadro dela pode melhorar.
— Eu estou perguntando por que você deixou ela vir para a nossa casa!
Rebecca não conseguiu se controlar e levantou a voz.
Oliver se encolheu e apertou os lábios. — Porque a Celeste disse que estar comigo deixa ela muito feliz...
— Então, se a Celeste dissesse que quer ser sua mãe, e que, se ela virar sua mãe, a doença dela vai melhorar, você aceitaria também?
— Mãe...
Oliver ficou paralisado.
Mas a expressão de William mudou. — Rebecca, o Oliver é uma criança. Você tem noção do que está dizendo para uma criança?
— Se você não quer arrastar o Oliver para isso, não deveria ter deixado ela vir para a nossa casa. William, você está tentando me enojar de propósito?
William franziu a testa. Ele agarrou a mão dela. — Vem comigo para o escritório.
Rebecca praticamente usou toda a força que tinha para se soltar. — Entre nós não existe nada que precise ser dito a portas fechadas.
— Rebecca, você me prometeu ontem.
William franziu a testa. — Você me prometeu.
— O que foi que eu te prometi? — Os lábios de Rebecca se curvaram. — William, você quer manter um caso bem debaixo do meu nariz?
— Rebecca!
— Desculpa, William, eu realmente não me lembro do que te prometi ontem, e você também devia esquecer o que me prometeu ontem.
— Mãe, por que você está tão brava? A Celeste só vai ficar aqui em casa por um tempo. Você está exagerando.
— Ah, já entendi, mãe. Você está preocupada que, se eu só me importar com a Celeste, eu não vá mais me importar com você?
Oliver parecia completamente alheio à gravidade da situação e ainda estava brincando.
Rebecca não sabia se ria ou se chorava. Olhou para Oliver, depois para William, e murmurou: — Você puxou mesmo ao seu pai.
— Rebecca, para de fazer escândalo. A Celeste vir para cá... eu te mandei uma mensagem. Você não viu?
— Não me chama assim.
Rebecca ergueu o olhar, encarando William. — Agora eu vou te dar uma escolha. Nesta casa, se a Celeste ficar, eu vou embora. Ou você fica comigo, ou fica com a Celeste.
Os olhos de Oliver se arregalaram. — Mãe, o que isso quer dizer? Por que você e a Celeste não podem ficar as duas em casa? Eu não quero escolher.
Rebecca se agachou até ficar na altura dos olhos de Oliver e disse, palavra por palavra:
— Porque as pessoas não podem ser tão gananciosas. Você não pode ter tudo. Não existe barganha assim neste mundo. Oliver, lembra disso para sempre.
— Mãe...
— Rebecca, você precisa mesmo fazer isso?
William parecia completamente irritado.
— Eu vou embora. A culpa é minha. William, antes de eu vir, eu disse que devia pedir a permissão da Rebecca, mas você insistiu que esta é a sua casa e que quem decide é você. Agora a Rebecca está infeliz...
Rebecca olhou para William, fria. — Quem você escolhe, William?
