Capítulo 2

De volta ao quarto, Rebecca se encostou na porta, deixando as lágrimas escorrerem silenciosamente pelo rosto.

Ela já tinha perdido a conta de quantas noites quietas e solitárias como aquela suportara.

Talvez a vida dela realmente não devesse continuar daquele jeito sem sentido, mas, ao pensar em Oliver, de quatro anos, seu coração se contorceu de novo.

Na manhã seguinte, Rebecca mal tinha dormido quando foi acordada por vozes apressadas e até irritadas do lado de fora. Sua cabeça parecia que ia explodir. Bem quando estava prestes a se levantar, ouviu batidas pesadas na porta, e então ela foi aberta de repente.

"Rebecca, o que você colocou na comida que fez para a Celeste ontem?!"

"Hã?" Rebecca ficou atônita com a pergunta. "O que aconteceu?"

"Ela passou a noite inteira passando mal, vomitando e com diarreia. Levaram ela para o hospital! Vista-se agora e venha comigo. Você fez a comida dela, então precisa dizer ao médico exatamente o que colocou nela."

William estava tão ansioso que gotas de suor se formavam em sua testa. Rebecca fechou os punhos. "A refeição de ontem à noite foi feita exatamente de acordo com a receita que ela me deu. Estou muito cansada agora e não estou me sentindo bem. Não posso ir ao hospital com você."

As costas de William enrijeceram quando ele estava se virando para sair. Então ele se voltou, olhando para Rebecca sem acreditar. "O que foi que você disse?"

Rebecca ergueu a cabeça e sustentou o olhar dele.

"Você me ouviu. Precisa mesmo que eu repita?"

William respirou fundo, como se estivesse usando toda a força que tinha para conter a raiva. "Rebecca, eu não estou culpando você. É só que foi você quem fez a comida, então estou pedindo que venha comigo ao hospital e explique ao médico o que tinha nela, para que possam tratá-la direito."

"William, eu também estou ocupada. O mundo não gira só em torno de você e da Celeste."

"Rebecca!"

O grito de William assustou Oliver, que tinha acabado de acordar. Ele ficou ali, de chinelos, olhando confuso para William e Rebecca discutindo com os rostos corados. Seu rostinho se encheu de ansiedade no mesmo instante.

"Mamãe?"

Ao ouvir a voz suave, William e Rebecca imediatamente abandonaram a hostilidade.

"Mamãe e papai, vocês estão brigando?"

Uma criança de quatro anos já entendia emoções demais, e Oliver era ainda mais inteligente e perceptivo do que outras crianças da idade dele.

Rebecca respirou fundo e forçou um sorriso fraco. "Não, querido."

"Oliver, a Celeste não está se sentindo bem. Eu preciso ir ao hospital agora. O mordomo vai levar você para a escolinha hoje. Seja bonzinho, tá?"

"A Celeste está doente de novo? Então eu quero ir ver ela também! Papai, me leva com você!"

"Oliver, a Celeste está doente. Ir com a gente não vai ajudar e, além disso... você não pediu dispensa da escolinha hoje."

Rebecca fechou um pouco mais os punhos enquanto tentava manter o tom gentil.

No entanto, o "Eu levo você" de William fez Rebecca se sentir uma idiota.

"Oba! Mamãe, a Celeste gosta muito de mim, e eu gosto muito dela. Quando ela me vir, com certeza vai melhorar!"

As palavras inocentes de Oliver deixaram Rebecca sem reação.

Ela ergueu os olhos para William, mas ele nem sequer olhou para ela; apenas pegou Oliver no colo e desceu as escadas.

A visão de Rebecca escureceu. Ela cambaleou e teve de se apoiar no batente da porta para não cair. Fechou os olhos, respirou fundo e então disse: "Eu vou com vocês. Está fazendo frio, deixe-me pegar um casaco para o Oliver."

No hospital.

Quando chegaram à porta do quarto de Celeste, Rebecca se arrependeu de ter ido. Ela inventou uma desculpa para sair, mas William percebeu e segurou sua mão.

Rebecca franziu levemente a testa. “Os pais dela também estão aí. Você sabe como eles são.”

“Tudo bem. Nós só vamos explicar o que aconteceu.”

William pegou a mão dela, sua palma grande e quente envolvendo a sua. O coração de Rebecca estremeceu. Quando tinha sido a última vez que ele a segurara assim?

Ela se lembrou. Naquele dia, diante de toda a imprensa, ele segurou sua mão e anunciou em voz alta: “Rebecca é minha noiva. Vamos nos casar em um mês.”

Naquele momento, ela ficou tão absurdamente feliz que seu coração quase explodiu no peito. Não conseguiu esconder o amor em seus olhos.

Naquele momento, ela jamais imaginou que, nos cinco anos que se seguiriam, esse casamento pelo qual ela tanto implorara a aprisionaria até deixá-la completamente exausta.

A porta do quarto do hospital se abriu, e Oliver correu até a beira da cama de Celeste com sua vozinha doce.

“Celeste, você está se sentindo melhor? O papai disse que você ficou doente de novo! Nós estávamos todos tão preocupados com você, e a minha mamãe também veio!”

Celeste já tinha notado Rebecca entrando ao lado de William, e a visão das mãos entrelaçadas dos dois fez seus olhos arderem, mas, no rosto, Celeste exibiu um sorriso fraco e forçado.

“Rebecca, você também veio. Faz tanto tempo que eu não te vejo.”

“Hoje de manhã, William disse que você comeu alguma coisa errada. Você está melhor agora?”, Rebecca disse, em tom neutro.

“Melhor? Rebecca, você pergunta isso com tanta indiferença, sem um pingo de pedido de desculpas sincero. William, você não contou a ela que Celeste passou mal por causa do jantar que ela preparou ontem?”

A voz que se ergueu de repente era da mãe de Celeste, Esme Bell. Ela avançou até Rebecca em dois passos, com lágrimas escorrendo pelo rosto. “Rebecca, todo mundo diz que você é inteligente e virtuosa. Celeste fala todos os dias sobre como você é boa. Desde que ficou doente, ela não consegue comer nada, emagreceu tanto, mas gosta especialmente da comida que você faz. Nestes últimos três meses, nós fomos gratos por tudo o que você fez por ela, mas agora, olhando para trás, isso me dá arrepios!”

“Sra. Brown, quanto a isso, Rebecca não fez de propósito.”

William provavelmente sabia o que Esme estava prestes a dizer e a interrompeu rapidamente.

“Não fez de propósito? Ela sabia que Celeste era alérgica a camarão, mas mesmo assim colocou tanta pasta de camarão na salada! Rebecca, como seu coração é cruel! Celeste já está doente! Ela não tem muito tempo de vida! Você está mesmo tão impaciente assim?”

Esme chorava com o rosto coberto de lágrimas e ranho. O pai de Celeste, Jasper Brown, deu um passo à frente para ampará-la. “Está tudo bem. Pare de chorar.”

“Ela sabia que o olfato e o paladar de Celeste já estavam comprometidos, por isso ousou fazer isso! Ela teve más intenções desde o começo, quando começou a cozinhar para ela! Está com ciúme, com ciúme porque William não consegue esquecer Celeste! Mas William já é seu marido. Você deveria ser uma dama da alta sociedade — como pode ser tão mesquinha assim? Você não consegue nem tolerar alguém com uma doença terminal?”

Rebecca ficou ali, com as palmas das mãos geladas. Justo quando ia falar, ouviu William dizer:

“Sr. e Sra. Brown, vocês realmente entenderam Rebecca mal. Ontem Celeste quis comer o meu jantar, e eu não pensei muito nisso, então troquei com ela. A pasta de camarão é algo de que eu gosto.”

Rebecca olhou para William e, de repente, soltou uma risada fria.

“Então, quando vocês comem juntos, conseguem se adaptar um ao outro desse jeito. Você e a srta. Brown podem até trocar de prato. Sua obsessão por limpeza foi curada?”

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