Capítulo 4
"Sou uma mulher normal, e nenhuma mulher normal ficaria bem com outra mulher tomando o tempo e a energia do próprio marido! William, você é tão inteligente — como pode fazer uma pergunta tão idiota? Como eu nunca fui a mulher com quem você quis se casar, você nunca se importou com o que eu sinto."
Rebecca achou que as próprias palavras soavam tão lamentáveis quanto as de uma esposa ressentida. Aquela sensação era simplesmente horrível.
"Rebecca, já se passaram cinco anos. Eu achei que, a essa altura, nós já tivéssemos um entendimento. Afinal, eu e Celeste crescemos juntos. Os pais dela ajudaram a minha família quando estávamos no fundo do poço. Como a Esme disse, naqueles anos, eu cresci comendo a comida da família Brown. Sem a família Brown, a família Spencer nunca teria tido a chance de se reerguer, e eu não estaria onde estou hoje. As pessoas precisam ser gratas, você não acha?"
"Ela está em estado terminal. Tudo o que ela quer antes de morrer é que eu passe mais tempo com ela. No meu coração, ela é como uma irmã."
"E eu?"
"Você é minha esposa. Você e Oliver são as duas pessoas mais importantes para mim. Isso nunca vai mudar. Confie em mim, tá bem?"
Rebecca olhou para a expressão séria de William naquele momento. Cada palavra que ele dizia parecia sincera, mas, por algum motivo, ela sentia que tinha perdido a força para acreditar nele.
"Eu sei que na semana que vem é o nosso aniversário de casamento. Rebecca, só nós dois... nestes últimos anos, raramente tivemos tempo a sós. Na próxima sexta-feira, nada nem ninguém vai nos interromper, está bem?"
Os olhos de Rebecca vacilaram levemente, e seus punhos se cerraram. Ela não sabia o que dizer.
O que era aquilo? Ele estava tentando agradá-la?
E por quê? Por Celeste? Ou por esse casamento educado e distante?
William deu um passo à frente e abraçou Rebecca com gentileza. "Você sempre foi tão compreensiva e atenciosa. Eu negligenciei seus sentimentos, mas, por favor, acredite em mim — você, Oliver e eu, nós três somos uma família. E, por favor, só tenha um pouco mais de paciência comigo. Está bem?"
Então ainda era por Celeste.
Rebecca fechou os olhos de novo. "Tá bom."
Ela respondeu em voz baixa. Era uma concessão? Não, ela só estava indo no automático.
Mas William não percebeu. Depois que Rebecca disse que queria ficar sozinha por um tempo, ele foi em direção ao quarto do hospital.
A escada de emergência estava silenciosa. O corpo de Rebecca já tinha sido drenado de toda a força havia muito tempo. Ela se apoiou no corrimão e se sentou devagar nos degraus. Não tinha dormido quase nada a noite inteira, não tinha comido nada depois de sair cedo de casa. Veio ao hospital, brigou, e agora se sentia tonta, enjoada, com suor frio escorrendo pela testa.
Foi então que um toque de celular rompeu de repente o silêncio. Rebecca se imobilizou por um instante, e então ouviu uma voz masculina vindo de cima, clara e viva, num tom descontraído e divertido.
"É, eu tô aqui. Saí pra fumar e acabei pegando o áudio de um dramalhão daqueles. Tá bom, já tô indo."
O homem desligou, e então passos se aproximaram, um de cada vez.
Rebecca mordeu o lábio em silêncio, sentindo-se constrangida e irritada. Pelo tom de deboche do homem, ela percebeu claramente que ele tinha escutado toda a conversa dela com William do esconderijo onde estava.
Naquele momento, ela só queria que o chão se abrisse e a engolisse, mas não tinha nem forças para se levantar.
Rebecca manteve a cabeça baixa, enterrada nos braços. Ela realmente não queria ser ridicularizada por um estranho e ainda deixar que ele visse seu rosto com clareza. Mas, antes que pudesse pensar mais, tudo escureceu, e seu corpo caiu sem controle na direção da escada.
Então mãos levemente mornas tocaram sua testa, forçaram sua mandíbula a se abrir e colocaram um doce em sua boca.
"Ficou com hipoglicemia de tanto passar raiva por causa de uma amante."
Rebecca quis discutir, mas, antes que conseguisse se recuperar, o homem já tinha se levantado e ido embora, deixando apenas uma frase. “Quando você se sentir melhor, vá comer alguma coisa. Se ainda estiver enjoada, faça um cadastro na clínica. Você já está no hospital mesmo.”
Na visão embaçada, ela viu uma figura alta de jaleco branco.
Cerca de mais cinco minutos se passaram até o mal-estar de Rebecca aliviar um pouco. Ela mandou uma mensagem para William e foi para casa primeiro.
Tammy viu o rosto pálido dela, com marcas vermelhas, e ficou muito preocupada, mas Rebecca disse que estava com fome. Depois de comer uma refeição decente, foi direto dormir.
Quando acordou, viu duas mensagens no celular — uma de William dizendo que chegaria tarde, e outra de uma amiga convidando-a para jantar. Ela se arrumou e saiu.
A amiga dela, Natalie Foster, e Rebecca tinham estudado música juntas no exterior, mas depois nenhuma das duas seguiu por esse caminho — uma se casou e teve filhos, a outra mudou para medicina.
O centro da cidade estava cheio de prédios altos e complexos comerciais, mas Natalie e Rebecca estavam sentadas num restaurante pequeno, numa viela antiga, com a mesa cheia de comida apimentada.
Rebecca amava comida apimentada, mas a família Spencer não aguentava nem um pouquinho de pimenta; com os anos, o paladar dela também tinha ficado bem mais suave.
Agora, com os talheres na mão, Rebecca engolia em seco, e Natalie zombou: “Olha só você babando desse jeito.”
Rebecca revirou os olhos para ela. “Ri mesmo. Quando você casar, vai entender tudo.”
Natalie deu de ombros, indiferente. “Se casar significa que eu vou ter que mudar tanto assim, prefiro ficar solteira pra sempre.”
Rebecca, com a boca ardendo de tanta pimenta, continuava bebendo água, mas ainda retrucou: “Isso é porque você ainda não conheceu alguém que faça você querer mudar.”
“E o William é mesmo tudo isso?”
Natalie nunca tinha entendido o amor de Rebecca por William, desde o começo. “Sua família é uma das mais influentes de Silverlight City. A família Spencer… tá, eles foram bem poderosos aqui no passado, mas a crise financeira de dez anos atrás quase faliu eles. O William carregar o Grupo Spencer sozinho desde então não deve ter sido fácil. Mas voltar à antiga glória? Quem sabe quanto tempo isso vai levar.”
“É por isso que ele trabalha tanto.”
Rebecca murmurou: “Há quinze anos, eu o conheci. Ele não era assim naquela época.”
Natalie farejou fofoca. “Então foi uma paixão de adolescência? Eu nunca soube que você era tão romântica, Rebecca!”
“Naquele ano, eu vim com a minha mãe e o meu pai visitar um amigo e, depois, fomos a um evento social da alta sociedade. Na época, William era o jovem mais refinado da festa. Os mais velhos pediram que ele cuidasse de mim, mas naquele dia aconteceu um acidente.”
“Um acidente?”
Rebecca assentiu. “A cozinha do evento explodiu e começou um incêndio. Eu estava no salão, quase sufocando com a fumaça. Foi o William que me salvou.”
Natalie ficou olhando para Rebecca, fixamente.
“O quê?”
“Rebecca, isso é muito cafona.”
Rebecca revirou os olhos para ela de novo. “E daí se é cafona? Quer saber? Só quando esses momentos cafonas de romance de novela acontecem com você é que você entende que aquela sensação de ‘borboletas no estômago’… é real.”
Natalie sorriu de leve. “Rebecca, de repente eu fiquei muito curiosa.”
“Curiosa com o quê?”
“Você é tão inocente e romântica… como foi que você conseguiu seduzir o William pra cama naquela época?”
A pergunta de Natalie não era muito educada, mas não tinha maldade. Elas eram melhores amigas e falavam de tudo.
“É, eu também estou curiosa. Naquela noite… por que ele topou?”
“Você e o William estão mesmo bem?”
Natalie pegou o lampejo de tristeza nos olhos de Rebecca.
“O que é que tem pra estar bem ou não estar bem? Eu escolhi esse caminho sozinha…”
“Rebecca, você sabe em que você fica devendo, comparada à Celeste?”
Rebecca ergueu o olhar.
