Capítulo 1
Ponto de vista de Tessa
Uma condição hormonal fez meu peso subir para noventa quilos e, por três anos, este internato se certificou de que eu nunca me esquecesse disso.
O líder da matilha era o cara que toda garota idolatrava.
E, ao lado dele, estava a namorada — aquela que sempre aparecia nos meus piores momentos com uma voz suave e um olhar solidário, como se estivesse me fazendo um favor.
Todo mundo a chamava de anjo. Só eu conhecia a verdade: toda vez que ela “ajudava”, as coisas pioravam.
Um dia, na frente de todo mundo, ela me entregou uma bala. “Aqui. Uma coisinha doce sempre ajuda.”
Eu não sentia que tinha escolha.
Naquela noite, um demônio apareceu ao pé da minha cama.
“Parabéns. Você comeu a bala do pacto. Vou conceder três desejos — dinheiro, beleza, tempo de vida. Você escolhe, e eu faço acontecer.”
Meu corpo inteiro tremeu. Três anos de humilhação e, por fim, havia uma saída. Riqueza, beleza, vingança. Eu só precisava pedir.
Então a expressão do demônio mudou, os olhos cheios de um divertimento cruel.
“Mas tem um porém. O verdadeiro detentor do pacto é outra pessoa. Seja o que for que você desejar, quem te deu essa bala ganha o dobro.”
As palavras que eu ia dizer morreram na minha garganta.
Então, devagar, eu sorri.
O dobro?
Isso é muito mais interessante do que três desejos.
“Olha só quem apareceu. Ganhou mais uns quilinhos no fim de semana?”
Mal consigo passar pela porta da sala quando um livro de física manchado de lama acerta a parte de trás da minha cabeça. Chase está empoleirado numa carteira, balançando as pernas, enquanto a sala explode em volta dele.
Eu não digo nada. Só me agacho e pego o livro. As páginas estão se desfazendo, e alguém desenhou um porco gordo na capa com canetão vermelho.
“Chase, qual é.” A voz de Sutton é doce o bastante para dar dor nos dentes.
Ela enfia a mão no bolso e estende uma bala rosa. “Ignora eles. Eu mandei trazer da Europa — é artesanal. Um pouquinho de açúcar nunca fez mal a ninguém.”
Os olhos dela parecem sinceros. Mas, pelo canto do olho, eu pego os sorrisos tortos que Chase e os outros nem estão tentando esconder.
Eu sei que aquela bala não é gentileza. Mas, se eu disser não, nos próximos dez minutos vai ter lixo enfiado na minha carteira e cuspe na minha garrafa de água.
Eu pego. Desembrulho. Coloco na boca.
“Obrigada”, eu digo, encarando o chão.
Sutton sorri, satisfeita, e volta para o Chase como se aquilo não fosse nada — só um acessório a mais na imagem que ela vem construindo há anos.
Naquela noite, eu me deito na cama do dormitório passando mal. A bala tinha um gosto estranho, algo metálico por baixo, como ferrugem e podridão.
À meia-noite, as luzes começam a piscar feito loucas.
Eu me sento. Minhas colegas de quarto ficaram em silêncio — não só quietas, mas ausentes. Não há respiração, não há som lá fora, não há tique-taque do relógio na parede. O mundo inteiro parou.
A luz da lua atravessa as cortinas, e a poeira suspensa no ar fica congelada, perfeitamente imóvel.
O tempo parou.
— Ora, ora… tanta raiva concentrada numa pessoa só.
Um garoto se materializa aos pés da minha cama, envolto em fumaça negra, um par de chifres curvos despontando da cabeça. Ele se senta de pernas cruzadas, jogando distraidamente um doce idêntico ao que eu engoli mais cedo, os olhos vermelho-escuros cravados em mim.
— Prazer em conhecer você. Eu sou Erelius. — Ele sorri, e os dentes são afiados. — Parabéns, querida. Você comeu o doce do pacto. Em troca, vou te conceder três desejos. Dinheiro, beleza, tempo de vida. É só falar, e é seu.
Meu coração bate com força contra as costelas. Uma alegria imensa e violenta me invade.
Três desejos.
Eu poderia emagrecer. Poderia ser bonita. Poderia refazer completamente o corpo do qual todo mundo riu por três anos, fazer o Chase se ajoelhar, ver o rosto perfeito da Sutton se desfazer na frente da escola inteira.
Os pensamentos vêm rápidos e brilhantes, e eu me sinto tremendo a cada respiração.
Mas enfio as unhas na minha coxa, e a dor me puxa de volta.
Nada vem de graça. Principalmente quando vem de um demônio. E a Sutton é uma das pessoas mais egoístas que eu já conheci. Não existe versão da realidade em que ela me entrega algo tão poderoso por bondade.
Eu encaro os olhos de Erelius.
— Qual é o preço? Se eu fizer um desejo, o que acontece comigo?
Ele pisca. Por um segundo, parece realmente pego de surpresa.
— Hã. Séculos fazendo isso, e você é a primeira a fazer uma pergunta antes de sair desejando.
Ele dá de ombros, abrindo um sorriso ainda maior.
— Certo. Considere um bônus. Se o seu desejo for grande demais — tipo um bilhão de dólares ou acabar com o mundo, alguma coisa que quebre as regras que mantêm a realidade em pé — eu tomo a sua vida. E sua alma também. Some.
— E a Sutton? — insisto. — Foi ela que me deu o doce. Ela ganha alguma coisa com isso?
Os olhos do demônio se acendem. Ele se inclina para perto, e o frio que irradia dele bate no meu rosto.
— Esperta. Quem segura o pacto de verdade é ela. Aqui vai a regra: qualquer coisa que você desejar para si mesma, ela recebe o dobro. E se você desejar demais e eu tiver que tomar a sua vida? Ela sai limpa. Fica com tudo.
Aí está.
Eu sou o amortecedor. A descartável. A Sutton me deu aquele doce esperando, com toda certeza, que eu gastasse meus desejos em ficar rica ou bonita, deixasse o demônio me destruir, e ela só sentasse e recolhesse o dobro.
Frio. Frio de verdade.
Eu olho a expectativa no rosto de Erelius, esperando que eu desmorone, e sinto algo quieto se acomodar no meu peito.
O dobro de tudo o que eu desejar para mim mesma.
Então o que acontece se eu desejar algo que me machuca?
Ergo o olhar e sustento o dele, e o sorriso puxando minha boca não é nada gentil.
— Certo. Temos um acordo.
