Capítulo 2

Ponto de vista da Tessa

Amanhã é meu aniversário.

Não que alguém se lembre. Meus pais sempre tiveram uma favorita, e nunca fui eu. Minha irmã mais nova é mais bonita, mais esperta, aquela por quem eles realmente aparecem. Eu nunca estive de verdade no radar deles.

Eu já estava planejando comprar um bolinho para mim mesma depois da aula. Aí entro na sala e descubro que minha cadeira sumiu.

— Procurando alguma coisa? — Chase está largado na última fileira, com um pé apoiado na minha cadeira. — Hoje não é seu aniversário? Achamos que uma cadeira normal não ia aguentar tudo isso, então estamos te fazendo um favor. Ficar em pé queima mais calorias, de qualquer forma.

A sala explode em risadas. Cada uma delas acerta meu tímpano como uma agulha.

Como se tivesse ensaiado, Sutton aparece segurando uma caixinha de presente, com aquele sorriso impecável já no rosto.

— Chase, sério, para com isso. — Ela lança um olhar para ele, depois estende a caixa para mim. — Feliz aniversário. Eu escolhi isso para você. Espero que goste.

Eu não pego.

— Anda, abre. — Ela empurra a caixa um pouco mais para perto.

Eu abro a caixa. Dentro, há um vestido colado ao corpo. Tamanho único. Do tipo de tamanho que não serviria em uma das minhas pernas, muito menos no resto de mim.

— Ai, meu Deus, me desculpa, eu simplesmente esqueci de conferir o tamanho. — Sutton cobre a boca, fazendo o possível para parecer arrependida. — Mas ei, usa isso como motivação! Você já fez seu pedido de aniversário? Talvez possa desejar caber nele algum dia.

Antes que eu consiga dizer qualquer coisa, Kayla se mete do lado.

— Sutton, isso não foi meio cruel? Desejar emagrecer? Nem Deus faria isso acontecer. Sinceramente, ela devia desejar acordar no corpo de outra pessoa.

Chase solta um assobio baixo.

— Verdade. Nesta vida? Sem chance. Eu como meu sapato no dia em que ela entrar nisso aí.

A sala cai na gargalhada de novo.

Há alguma coisa por trás dos olhos de Sutton, enterrada sob toda aquela doçura. Fome. Ela está me observando como alguém observa uma máquina caça-níquel que tem certeza de que está prestes a pagar.

Ela está esperando que eu deseje ser magra, deseje ser bonita, para então se recostar e receber em dobro por tudo.

Eu vejo o quanto ela quer isso, e algo frio se acomoda no meu peito.

Tudo bem. Você quer um desejo? Eu vou te dar um.

Eu chamo o nome na minha cabeça. Erelius.

A sala para na mesma hora.

O assobio de Chase fica congelado no ar. A boca de Kayla continua aberta, presa no meio do deboche. O sorriso de Sutton fica travado no lugar e, sem a encenação, tudo o que resta é a ganância por baixo, crua e óbvia, como uma pintura ruim.

Uma fumaça negra escorre do teto. Erelius surge no campo de visão, pendurado de cabeça para baixo no nada, olhando ao redor para a sala congelada como se estivesse vendo uma exposição de museu.

— Olha só essas caras. — Ele estende a mão e cutuca a bochecha de Chase. — Os humanos são uma coisa à parte. O jeito como vocês inventam novas formas de destruir uns aos outros é, sinceramente, mais criativo do que qualquer coisa com que nós, demônios, nos demos ao trabalho de inventar.

Ele se vira no ar, fica de pé e pousa sobre a minha carteira, apoiando o queixo na mão.

— Então. Primeiro desejo. Qual vai ser?

Eu faço que sim com a cabeça.

— Eu desejo dormir pelo menos sete horas de sono profundo todas as noites.

Erelius fica me encarando.

— Sete horas de… sono. — Ele abre a boca, depois para. Os olhos dele encontram meu rosto, e alguma coisa se encaixa.

No segundo seguinte, ele simplesmente perde o controle, rindo tanto que a fumaça ao redor dele se agita e ondula.

— Essa foi boa. Essa foi realmente boa. Tessa Lockhart. — Ele ainda está rindo. — Muito bem, então. Desejo concedido.

Ele se desfaz no ar, e o mundo volta de uma vez.

Eu olho para Sutton.

— Meu desejo foi dormir melhor.

Ela me encara, o sorriso finalmente desaparecido. Pela primeira vez, ela realmente parece desnorteada.

— Isso… isso foi mesmo só isso? Foi isso que você desejou?

— E por que eu desejaria outra coisa?

Então acontece.

Sutton cambaleia. As pálpebras dela caem como se alguma coisa estivesse puxando para baixo.

— Sutton? Ei, o que foi? — Kayla segura o braço dela.

— Eu… tô com tanto sono… — As palavras saem arrastadas, e então os joelhos de Sutton cedem de vez. Ela desaba nos braços de Kayla e começa a roncar, alto o bastante para preencher a sala inteira.

Silêncio absoluto.

— Ela está… ela está mesmo roncando agora? — Chase parece ter visto um fantasma.

Eu abaixo o olhar e me permito sorrir, só um pouco.

Quatorze horas de sono, todos os dias, Sutton. De nada.

Quatorze horas de sono, todos os dias. Eu realmente me pergunto o que sobra da sua vida quando isso não é negociável.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo