Capítulo 3

Ponto de vista de Tessa

A turma inteira do último ano assiste Sutton desmoronar ao longo dos dias seguintes.

Ela começa a chegar atrasada para tudo. Não importa quantos alarmes coloque ou o quanto os pais tentem ajudar — ela não consegue acordar antes das dez.

Na aula, sempre que não dorme suas quatorze horas, simplesmente desaba onde estiver em pé. Uma vez, caiu de cara direto num caldeirão de chili no refeitório e levantou pingando.

E o ronco. Meu Deus, o ronco. As colegas de quarto finalmente perdem a paciência e fazem uma reclamação formal à supervisora do dormitório, o que vira uma gritaria completa no corredor.

— Você fica andando por aí agindo toda doce e perfeita, e à noite ronca igual a um trem de carga! Algumas de nós estão tentando estudar para o SAT!

A garota que era dona daquela escola agora virou a piada da escola. Leva menos de uma semana.

Depois da aula, numa tarde, estou cortando caminho pela trilha atrás do campus quando Sutton surge na minha frente. Olheiras fundas, cabelo para todo lado, com cara de quem não acordou direito há dias.

Ela avança em cima de mim, agarrando minha gola.

— Tessa! O que você desejou? O que você fez comigo?

Sinceramente, é até engraçado. Há poucos dias ela era intocável, me oferecendo bala como se estivesse me fazendo um grande favor. Agora mal consegue se manter em pé.

Dou um passo para o lado e ela erra completamente, cambaleando para a frente e batendo com força no chão.

— Do que você está falando, afinal? — olho para ela de cima. — Demônios? Desejos? Sutton, você andou lendo fantasia demais?

— Você está mentindo! — Lágrimas e ranho, dignidade zero. — Foi você. Aquela bala — eu te dei aquela bala! Seja lá o que você fez, desfaça. Agora mesmo.

— Era só um doce importado. Foi isso que você disse. — Eu me agacho e abaixo a voz. — A não ser que exista alguma coisa sobre aquele doce que você prefira que as pessoas não descubram.

Ela fica completamente imóvel. O maxilar se contrai, e ela não diz mais uma palavra.

Não pode. No segundo em que abrir a boca, vai sair tudo: o pacto, o que ela estava tentando fazer comigo. Então ela apenas fica ali sentada e aguenta.

— Procure ajuda. E fique longe de mim.

Eu me levanto, não olho para ela de novo e vou embora.

As férias de inverno chegam rápido.

Para a maioria dos alunos do último ano, é a época perfeita para sair na frente. Para mim, é outra coisa completamente diferente. É a janela que eu estava esperando.

Sete horas de sono garantidas toda noite, dezessete horas restantes para aproveitar. Não desperdiço uma única.

Minha rotina é brutal. Dez horas por dia me matando em preparação para o SAT e inscrições para a faculdade, três horas de cardio e musculação. No fim de cada sessão, minhas roupas estão encharcadas e meus músculos estão gritando, mas eu não paro. Toda vez que penso em parar, vejo o rosto de Sutton. Vejo o olhar que Chase costumava me lançar.

Ainda não é suficiente. Nem de longe.

Enquanto isso, as férias de Sutton são um desastre.

Quatorze horas obrigatórias de sono cortam o dia dela em pedaços. Nada de estudar, nada de ver Chase, nada. Kayla deixa escapar no grupo que os pais de Sutton têm arrastado a filha para terapeutas e neurologistas. Ninguém consegue encontrar nada de errado com ela.

No dia de voltar ao dormitório antes do semestre da primavera, piso no campus de novo.

Um recesso inteiro daquele tipo de esforço aparece no corpo. Ainda estou acima do peso, mas alguma coisa mudou. O peso que antes parecia solto e mole agora está firme. Minha pele voltou a ter cor. Sinto como se estivesse realmente vivendo no meu corpo pela primeira vez em anos.

Estou passando pelo mural quando ouço Kayla falando demais para um grupo de garotas ali perto.

— Ficaram sabendo? Anunciaram a representante estudantil que vai discursar na cerimônia de boas-vindas. É a Sutton.

— Mas ela tem estado tão acabada ultimamente. Será que consegue mesmo?

— Claro que consegue. Ela é a Sutton. Além disso, Chase foi direto ao presidente do conselho estudantil e tirou a Tessa da vaga.

Eu paro de andar.

Aquela vaga no discurso era minha. Eu a conquistei no semestre passado, ficando em primeiro lugar na competição de oratória da escola. Chase mexeu os pauzinhos para entregá-la à Sutton, só para agradá-la.

— Como se a Tessa pudesse subir naquele palco de qualquer jeito — diz Kayla, rindo. — Chase falou que, se ela pisasse naquele palco, ia atravessar tudo e cair lá embaixo.

Nem me dou ao trabalho de responder. Apenas me viro e sigo em direção ao depósito de equipamentos.

Então é assim que você quer jogar, Sutton. Você quer ficar diante da escola inteira e absorver tudo isso.

Fecho os olhos e chamo o nome.

— Erelius. Estou pronta para o meu segundo desejo.

Ele se materializa no ar, praticamente vibrando de animação.

— Ah? Já? O que vamos fazer desta vez?

Abro os olhos.

— Quero que meu peso fique exatamente em cinquenta e quatro quilos. Agora.

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