Capítulo 2 Capítulo Dois

As meninas riram ainda mais, enquanto Alison sorria radiante como se tivesse acabado de ganhar um prêmio. E os caras que a escola inteira aplaudia nos jogos de futebol americano, os caras que todo mundo idolatrava, apenas assistiam.

Alguns deles deram sorrisos de lado, enquanto outros puxaram os próprios celulares.

— Espera — disse um deles; acho que o nome dele era Marcus. — Não é aquela garota que dá reforço?

— Reforço? — outro cara riu. — Quem deixaria ela perto dos filhos? Ela ia comer toda a comida deles.

Mais risadas explodiram. Ecoaram nas paredes do vestiário, ricocheteando e se multiplicando, até parecer que o mundo inteiro estava rindo de mim.

Dessa vez Alison agarrou meu cabelo, torcendo até eu engasgar de dor. — Já que você gosta tanto de ficar assistindo, vamos te dar um show de verdade. Agora fica de joelhos!

— Não...

Ela me empurrou com tanta força que eu bati no chão com força suficiente para chacoalhar meus dentes. Minhas palmas rasparam no azulejo áspero, a pele ardendo. Acima de mim, celulares apontavam para baixo como armas, gravando cada segundo.

— Por favor — eu sussurrei, mas nem eu mal conseguia me ouvir; o som do meu pedido patético foi engolido pelas risadas.

— Por favor o quê? — Alison se agachou na minha frente, fazendo carinho na minha cabeça como se eu fosse um cachorro. — Por favor, para? Mas a gente só está começando. Além disso… — ela olhou por cima do ombro para Jace, que ainda filmava, a expressão completamente vazia — a gente está criando conteúdo. Né, Jace?

Ele deu de ombros. — Não é problema meu.

Não é problema meu.

Três palavras e foi só isso que bastou.

Três palavras do garoto em quem eu fui idiota o bastante para achar que talvez fosse diferente, três palavras que me disseram tudo o que eu precisava saber sobre quem ele realmente era.

A porta se abriu de novo, de supetão.

— O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?

A voz do técnico Miller cortou as risadas, fazendo todo mundo congelar.

Alison ficou de pé na mesma hora, o rosto se transformando numa expressão de inocência tão convincente que quase impressionava. — Técnico! Graças a Deus o senhor chegou. Nós encontramos ela assim. Acho que ela caiu!

Caiu.

Quem dera.

Eu encarei ela, depois os outros. Cada um deles concordou com a cabeça, as caras vazias de mentira.

Já Jace nem teve a decência de fingir que estava mentindo; parecia que ele não se importava de ser pego.

— É mesmo? — o técnico Miller olhou para mim, depois para os celulares ainda nas mãos de alguns deles. — Então por que metade de vocês está com o celular na mão?

— Snapchat — alguém murmurou. — A gente só estava...

— Pra fora. Todos vocês. Agora.

Eles se espalharam como baratas. Alison me lançou, por cima do ombro, um último olhar escaldante.

“Isso não acabou”, ela articulou, sem som.

Jace foi o último a sair. Guardou o celular no bolso sem olhar para mim, sem um único lampejo de culpa, vergonha ou qualquer coisa. Como se eu fosse invisível. Como se eu não fosse nada.

É, Lena, você realmente não é nada… pelo menos pra ele.

O técnico Miller me ajudou a levantar. — Você está bem, garota?

Eu assenti, porque minha voz tinha sumido.

— Você quer denunciar isso? Eu vi o suficiente. Vou te apoiar.

Denunciar.

Denunciar a filha do homem mais poderoso da cidade. Denunciar o quarterback que podia escolher qualquer faculdade que quisesse. Denunciar metade do time de futebol e metade das líderes de torcida.

Ridículo.

Até o Jon Snow, em Game of Thrones, fugiria de uma oposição dessas.

E eu provavelmente perderia minha bolsa no processo, porque gente como a Alison tinha pais que processariam a escola por difamação. E aí eu perderia meu futuro também, porque nenhuma faculdade chegaria perto de uma garota que causasse drama.

— Não — ouvi a mim mesma dizer. — Estou bem. A Allison tinha razão, eu caí.

O treinador me estudou por um longo momento. Eu só podia imaginar a emoção que passou pelos olhos dele — pena, talvez. Ou decepção. Eu não sabia dizer qual era pior.

— Chegue em casa em segurança — ele disse, por fim.

E então eu peguei minha mochila e saí correndo.

O corredor já estava vazio. Todo mundo tinha ido embora, provavelmente indo para o treino ou para atividades depois da aula ou para suas casas bonitas com suas famílias bonitas.

Abracei meus livros contra o peito e andei rápido, sem parar até chegar às portas da frente.

Lá fora, o ar estava fresco, e o sol da tarde deixava tudo com um tom dourado enquanto eu caminhava no piloto automático.

Passei pelas casas chiques perto da escola, passei pelo pequeno centro comercial com a loja de um real, passei pela casa de penhores e pelo lugar que descontava cheques, até chegar à nossa rua.

Havia algumas casinhas, algumas com cercas de tela, e a maioria com pelo menos um carro sobre blocos. A nossa casa era a azul-clara no fim da rua, a de tinta descascando e os roseirais que meu pai plantou quando eu era pequena.

Pai.

Só de pensar nele, meu peito afrouxou um pouquinho. Meu pai sempre sabia como deixar as coisas melhores.

Ele me envolveria num abraço e diria que a opinião deles não importava, que eu era bonita e inteligente e destinada a coisas que eles nem conseguiam imaginar. Ele acreditava tanto em mim que, às vezes, eu quase acreditava também.

Subi os degraus da varanda e estendi a mão para a porta, já imaginando a voz dele, o abraço dele —

A porta se abriu antes de eu tocar nela.

Minha mãe estava ali.

O rosto dela estava pálido e quase cinzento. Como se alguém tivesse drenado toda a cor dela.

Os olhos estavam vermelhos e inchados, e o rímel escorria pelas bochechas em linhas escuras.

Ela ainda estava com o uniforme de trabalho, o avental da casa em que ela trabalhava torcido nas mãos, como se estivesse apertando aquilo havia horas.

— Mãe? — Minha voz saiu num sussurro assustado. — Aconteceu alguma coisa?

Ela abriu a boca, depois fechou. Os lábios se entreabriram para dizer alguma coisa.

Mas então ela desmoronou.

Os joelhos cederam, e eu mal consegui segurá-la, mal consegui nos levar para dentro antes de acabarmos no chão juntas, o peso dela contra mim enquanto eu a amparava, enquanto os soluços rasgavam o silêncio da nossa salinha.

— É o seu pai — ela conseguiu dizer, engasgando. — Lena, meu amor, é o seu pai —

As palavras depois disso não faziam sentido. Não podiam fazer sentido.

Ataque cardíaco.

No trabalho.

Morto antes de a ambulância chegar.

— Sinto muito. Ele se foi. Ele se foi. Ele se foi.

Eu segurei minha mãe e encarei a parede enquanto meu peito parecia que ia explodir de tanta pressão.

Ele se foi.

Meu pai se foi.

Naquele momento, com minha mãe chorando nos meus braços e meu corpo ainda doendo de onde a Alison me esmagou contra os armários, e a voz do Jace ainda ecoando “não é problema meu” na minha cabeça,

eu percebi uma coisa terrível.

Minha vida ia piorar muito.

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