Capítulo 3 Capítulo Três
Os dias depois de recebermos a notícia do funeral do meu pai passaram num borrão. Eu tinha parado de contar quantas vezes acordei e esqueci, só para me lembrar em seguida e sentir a perda de novo, como se fosse a primeira vez.
Duas semanas.
Foi quanto tempo levou para a realidade da nossa situação desabar de vez em cima da gente.
Numa noite, mamãe me fez sentar à mesa da cozinha. A mesma mesa onde papai costumava fazer palavras cruzadas. Onde ele me ajudava com exercícios de matemática, mesmo sendo péssimo nisso. Onde beijava o topo da minha cabeça todas as manhãs antes de ir trabalhar.
Eu estava com vontade de quebrar aquela mesa agora.
— Precisamos conversar, meu bem. — A voz dela estava rouca; devia ter chorado de novo. Agora ela estava sempre chorando, ou fingindo que não estava chorando, o que de algum jeito era pior.
— Tá. — Eu me preparei para o que viesse.
— Os custos do funeral... — Ela engoliu em seco. — E as contas do hospital de antes, a hipoteca. O seguro de vida do seu pai... não é suficiente. Não chega nem perto.
— Estamos falando de quanto?
Quando ela me disse o número, meu estômago despencou.
Por que a vida tinha que ser tão malditamente difícil?
Eu já conseguia imaginar a Alison rindo da minha cara.
— Vamos perder a casa — ela sussurrou. — Eu tentei de tudo. Liguei para todo mundo. Mas só com o meu salário...
— E se eu arrumar um emprego?
— Lena, você está na escola. Você tem sua bolsa de estudos para pensar...
— Eu não ligo pra...
— Liga, sim. — Ela pegou na minha mão. — Seu pai também ligava; ele queria que você tivesse oportunidades que ele nunca teve. Eu não vou deixar que a morte dele tire isso de você.
— Então o que a gente faz?
Ela ficou em silêncio por um bom tempo. Quando finalmente falou, não conseguiu encarar meus olhos.
— A família para quem eu trabalho... eles fizeram uma oferta. O filho mais novo deles precisa de alguém para ficar com ele depois da escola. Ele tem sete anos. Precisa de paciência, de alguém que consiga lidar com ele e com o mais velho também; ele tem tido dificuldade nas aulas, ficando para trás. As notas dele estão afetando alguma coisa importante pra ele, esporte, acho.
Eu esperei, já não gostando do rumo da conversa.
— Eles precisam de uma pessoa que faça as duas coisas. Ajudar o pequeno e dar reforço pro mais velho. — Mamãe finalmente me olhou. — Paga bem, Lena. Muito bem. O bastante para cobrir a dívida e manter a casa. A mãe disse que, se você aceitasse a vaga, daria até para ajustar um horário de acordo com as suas aulas. Você basicamente moraria lá durante a semana, mas...
— Espera. — Levantei a mão. — Morar lá? Na casa deles?
— Só durante os dias de semana. Você teria seu próprio quarto. Eles têm uma ala inteira de hóspedes. Não é como se...
— Mãe, eu nem conheço essas pessoas.
— Você conhece a mim. Eu trabalho pra eles há cinco anos. São pessoas boas, Lena. A mãe é gentil; foi ela quem sugeriu isso. Disse que preferia contratar alguém em quem confiasse do que passar por uma agência.
— E o filho que eu ia ensinar? Como ele é?
Mamãe hesitou, só uma fração de segundo. Mas eu vi.
Ah. Então ele deve ser um babaca.
— Ele é... um adolescente típico. Focado no esporte dele, seja lá qual for. Talvez um pouco mimado, mas a mãe diz que ele só precisa da motivação certa.
Eu pensei.
Pensei em passar minhas tardes com algum garoto rico que provavelmente olhava para pessoas como eu e não via nada.
Me lembrava demais a Alison.
Pensei em entrar numa casa onde minha mãe trabalhava, onde ela limpava tudo depois deles, onde ela era invisível.
Mas eu também pensei no número que mamãe tinha dito, na dívida que ela mencionara, e eu não queria perder a casa do meu pai.
— Tá — eu me ouvi dizer. — Eu faço.
O rosto da mamãe se desfez de alívio.
— Sério?
— Sério. Marca o encontro.
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Eu estava em frente a uma casa que não se parecia com nada que eu já tivesse visto pessoalmente.
Mansão era a palavra. Três andares inteiros de vidro e pedra, com uma entrada circular para carros, gramados perfeitamente aparados e uma fonte.
Uma fonte. Uma porra de uma fonte.
Como se as pessoas realmente vivessem assim.
Puxei a barra da camisa, de repente consciente de que eu estava usando o mesmo jeans que tinha usado na escola a semana inteira. O único jeans que ainda servia direito, com um furinho perto do bolso que eu vinha querendo costurar.
A mulher que atendeu à porta era linda daquele jeito sem esforço que mulheres ricas costumam ser — pele perfeita, cabelo perfeito e um sorriso perfeito de um milhão de dólares.
— Lena! Que bom que você veio. — Ela me puxou para um abraço tão apertado que pareceu que éramos amigas de anos. — Sua mãe fala tão bem de você. Entra, entra.
Por dentro era pior. Ou melhor, dependendo do seu ponto de vista.
O piso de mármore se estendia até onde eu conseguia ver, com uma escadaria grandiosa digna de filme e quadros diferentes nas paredes que provavelmente custavam mais do que a nossa casa.
Nós nos sentamos numa sala de estar que parecia maior do que a minha casa inteira, enquanto ela falava sobre a vaga — horários, responsabilidades e como seria o pagamento.
O salário que ela mencionou fez minha cabeça girar; era mais do que o dobro do que eu esperava.
“O Martin é a prioridade”, ela explicou. “Ele tem sete anos. Ele fala, mas tem dificuldade em situações sociais, então precisa de constância e paciência. O último tutor não deu certo porque não conseguia entender os gatilhos dele, e acabou acontecendo um pequeno incidente com o meu filho mais velho.”
“Eu entendo”, eu disse, e entendia mesmo. Meu primo, quando a gente era criança, era autista, então cedo eu aprendi a me comunicar sem palavras, se fosse preciso.
“Falando no meu filho mais velho...” Ela suspirou. “Ele é um caso bem mais difícil. É teimoso, cabeça-dura, e não gosta de admitir que precisa de ajuda, mas o pai dele está irredutível quanto a melhorar as notas. Se o GPA dele cair mais um pouco, ele sai do time, e isso não é uma opção.”
“Vou fazer o meu melhor.”
“Eu sei que vai. Lena, eu quero que você saiba: eu não vejo isso como caridade. Eu vejo como ajudarmos um ao outro. Sua mãe é inestimável para a nossa família, então se podemos ajudá-la ajudando você, vamos ficar felizes em fazer isso. É isso que família faz.”
Família, ela disse, como se minha mãe e eu já fôssemos parte da deles.
“Mamãe disse que eu ficaria aqui durante a semana?”
“Se isso funcionar para você. Temos um quarto de hóspedes preparado. Você teria total privacidade e ainda veria sua mãe todos os dias — ela está aqui quase todas as manhãs, de qualquer jeito.”
Eu assenti, ainda tentando processar toda aquela informação.
“E por falar nisso” — ela olhou o relógio — “meu filho deve chegar do treino logo. Eu gostaria que você o conhecesse antes de finalizarmos qualquer coisa. O Martin está com o terapeuta, mas você vai conhecê-lo amanhã.”
Meu estômago se contraiu. “Ok.”
A porta da frente se abriu de supetão antes que eu estivesse pronta, seguida de passos pesados e de uma voz grave, baixa e irritada, falando com alguém ao telefone.
“Não me importa o que o técnico diga. Eu não vou estudar com um tutor aleatório. Eu te falei que eu mesmo ia consertar minhas notas.”
O garoto do telefone entrou na sala de estar e parou na hora quando os olhos dele caíram em mim.
O reconhecimento atravessou o rosto dele — surpresa, depois confusão, e então uma expressão muito mais sombria.
Raiva.
Jace Dawson.
O quarterback, o mesmo que segurou a câmera, que me viu ser destruída e disse que não era problema dele.
Meu crush, ironicamente.
“Não”, ele disse, seco.
A mãe dele franziu a testa. “Jace, esta é a Lena. Ela vai te dar reforço e ajudar com o Martin.”
“Não.” Ele repetiu, mais duro dessa vez. “De jeito nenhum.”
“E por que não?”
“Você não entende.” Ele me encarava como se eu tivesse crescido uma segunda cabeça. “Ela estuda na minha escola. Ela é—” Ele se interrompeu.
Eu me levantei; minhas pernas pareceram bambas, mas minha voz saiu firme. “Eu estudo na sua escola. Isso mesmo, e... e sabe o que mais é verdade? Eu preciso deste emprego, minha família precisa deste emprego. Então qualquer que seja o problema que você tem comigo, sugiro que você supere.”
A mãe dele olhou de um para o outro, claramente confusa. “Tem alguma coisa que eu deva saber?”
“Não”, eu disse ao mesmo tempo em que Jace disse: “Sim.”
Jace passou uma mão pelo cabelo enquanto um silêncio tenso tomava a sala. O maxilar dele estava travado. Eu vi ele lutar com alguma coisa — talvez orgulho, talvez culpa, talvez a lembrança do celular apontado para mim enquanto Alison me empurrava no chão.
Quem poderia saber o que se passava naquela cabeça?
“Não é nada”, ele resmungou por fim. “Façam o que vocês quiserem, porra.”
“Jason...”, a mãe dele repreendeu.
Mas ele não esperou para ouvi-la; em vez disso, se virou e saiu.
A mãe dele suspirou. “Eu peço desculpas por ele. Ele está... passando por uma fase.”
Uma fase? Era assim que ela chamava. Eu resisti ao impulso de rir.
Pensei em desistir ali mesmo. Eu simplesmente diria a ela que arrumaria outro emprego, qualquer emprego, em vez de passar um segundo sob o mesmo teto que o garoto que me viu ser humilhada e disse que “não era problema dele”.
Mas então eu pensei no rosto da mamãe quando ela me disse que talvez a gente perdesse a casa, e respirei fundo, tentando me acalmar.
“Está tudo bem”, eu disse. “Eu dou conta dele.”
Ela sorriu, aliviada. “Maravilha. Quando você pode começar?”
Eu engoli cada grama de orgulho que ainda me restava.
“Amanhã.”
