Capítulo 5 Capítulo Cinco

Ponto de vista de Jace

A gente perdeu essa porra de jogo.

E agora o técnico estava berrando comigo, o capitão do time que tinha cagado tudo de forma monumental, e eu fiquei ali com o capacete debaixo do braço, engolindo cada palavra de boca fechada, porque que porra eu ia dizer?

Que eu não conseguia enxergar o campo, porque toda vez que eu me alinhava pra lançar eu via o rosto dela no lugar, aqueles olhos castanhos idiotas me encarando do outro lado do corredor.

Fui direto pro chuveiro da academia, não pro vestiário, porque eu ainda estava encharcado de vergonha e decepção por ter perdido e não conseguia encarar o time e dar o incentivo e a moral de que eles precisavam.

Mas, apesar da água quente despencando sobre a minha cabeça, eu ainda não conseguia me concentrar.

O que estava me matando, o que eu não conseguia entender, era que não fazia o menor sentido.

Ela não era nada. Era uma nerd sem graça, teimosa, dura, socialmente invisível, que não tinha absolutamente nada a ver com ficar a menos de três metros da minha vida e, ainda assim, lá estava eu, lançando interceptações, perdendo jogos, incapaz de me concentrar porque não conseguia tirar o rosto dela da cabeça.

Aqueles olhos enormes. Aquela voz suave, com medo mas firme e corajosa apesar de tudo.

Me peguei tendo aqueles pensamentos sobre ela de novo e soltei um gemido de frustração.

Eu odiava ela pra caralho.

Mais tarde, mandei mensagem pra Alison do estacionamento, a caminho de casa.

Hotel Woodview hoje à noite. 22h.

Ela respondeu na hora:

Acabei de comprar uma lingerie nova, mal posso esperar pra te mostrar, amor.

Eu encarei a mensagem, esperando sentir alguma coisa, alguma empolgação. Mas, como sempre, não senti nada.

Eu já sabia como a noite ia ser. Como sempre era, toda vez que eu usava outra garota pra tentar esquecer Lena Hartwell. No fim, eu ia ficar encarando o teto depois, com o mesmo nome em loop na cabeça.

Lena, Lena, Lena.

Lena, sorrindo só pro técnico Ellis; Lena, rindo de mim como se eu fosse a coisa mais triste que ela já tinha visto.

Como se ela tivesse a porra de pena de mim.

Tomado de raiva, pisei no acelerador, acelerando até o Porsche ir o mais rápido e forte que conseguia.

A mãe estava no hall de entrada quando eu cheguei em casa, me esperando.

— Jace, querido, eu só quero…

— Você vai demitir ela?

— O quê?

— Você vai demitir a tutora?

— O quê? Não, eu só…

— Então eu não quero ouvir.

— Por favor, só cinco…

Eu já estava na escada, subindo pro meu quarto. Ela me chamou mais duas vezes, e eu continuei andando porque, se eu parasse, ia dizer alguma coisa que nem eu conseguiria desfazer.

Parei na porta do Martin e empurrei, abrindo. Ele estava dormindo, ainda agarrado a um dos modelos de trem com as duas mãos, toda a tensão e a tristeza funda que ele carregava o dia inteiro tinham sumido.

Atravessei o quarto em silêncio e tirei o modelo com cuidado da mão dele, colocando junto dos outros na prateleira, antes de ficar um instante ali, vigiando-o.

Isso. Isso era a única coisa na minha vida que fazia algum sentido. Meu irmãozinho.

— Eu só estou fazendo o que é melhor pros dois — disse a mãe, baixinho, da porta. — Você sabe disso.

Puxei o cobertor do Martin pra cobrir as orelhas dele e saí sem responder.

Ela tinha boas intenções. Sempre tinha boas intenções.

Mas ter boas intenções não impediu o desfile de “tutores” inúteis, condescendentes e pateticamente desqualificados que passaram por esta casa nos últimos dois anos e pioraram a vida do meu irmão em vez de melhorar.

Como aquele que ficava falando por cima dele; e o outro que ficava tocando nele quando ele deixava claro que não queria ser tocado. O que eu ouvi, na cozinha, ao telefone, chamando ele — meu irmão — de retardado.

Esse, eu fiz questão de enfiar o medo de Deus nele, pessoalmente.

Acabei voltando pro meu quarto, jaqueta no chão, sentado na beira da cama com a cabeça entre as mãos, quando ouvi a porta da frente se abrindo lá embaixo.

A voz da minha mãe veio primeiro.

Depois, outra voz — mais grave, mais baixa.

Eu fiquei completamente imóvel.

Contei até sessenta. Depois até sessenta de novo. Depois parei de contar.

Logo ouvi os passos dela na escada. Ouvi a porta do quarto de hóspedes, bem em frente ao meu, abrir e fechar. Ouvi ela se mexendo lá dentro, abrindo e fechando gavetas.

Como se fosse normal. Como se ela não tivesse me custado um jogo hoje e ido embora de mim como se eu não fosse nada.

Eu aguentei cinco minutos.

Ela estava curvada sobre uma caixa, de costas para mim, quando eu empurrei a porta do quarto dela e entrei, desfazendo as malas como se tivesse todo o direito de estar aqui.

Atravessei o cômodo, agarrei a caixa e a arremessei com fúria contra a parede. Ela se abriu num estouro, o conteúdo barato se espalhando pelo chão, e ela se virou com os olhos arregalados.

— O quê...

— Você tem uma coragem do caralho, Hartwell. — Minha voz saiu áspera, arranhada de tanta raiva. — Você realmente apareceu. Depois de tudo o que eu disse. Depois de tudo o que aconteceu hoje, você ainda entrou na minha casa.

Ela pressionou os dedos na testa, fechou os olhos e soltou o ar.

— Ai, meu Deus, não isso de novo...

Eu me aproximei, rosnando para ela:

— Olha pra mim quando eu estiver falando com você, porra.

Ela abriu os olhos na hora. Eu me movi sem pensar e, agora, estávamos perto o suficiente para eu ver a expressão dela mudar de uma irritação leve para um medo fundo, primitivo. Ótimo. Ela tinha que estar com muito medo.

De repente, ela abriu a boca para gritar o mais alto que podia.

— Sra. Daw—

Eu tapei a boca dela com a mão antes que terminasse. Meu outro braço bateu na parede ao lado da cabeça dela; ela tropeçou para trás e encostou nela e, de repente, não havia para onde ir — para nenhum de nós.

Ficamos cara a cara, respirando com força. Eu sentia o pulso dela martelando contra a minha palma, e os olhos dela, por cima da minha mão, estavam arregalados, escuros e furiosos.

Eu estava dolorosamente consciente de tudo. Do calor da pele dela. Da maciez dos lábios contra a minha palma, do jeito como ela cheirava. Da subida e descida do peito dela.

Para com isso. Concentra.

— Já que você insiste em ficar aqui por algum motivo idiota, há algumas regras que você vai ter que seguir. Eu vou dizer quais são, e você vai balançar a cabeça para mostrar que entendeu. Entendeu?

Ela assentiu devagar, os olhos turvos de medo enquanto eu pairava sobre o corpo muito mais baixo dela.

— Regra número um. — Minha voz saiu baixa e rouca junto ao ouvido dela. Eu a deixei o mais ameaçadora possível. — Fora desta casa, você não me conhece. Você não olha para mim. Você não fala comigo. Você não existe em lugar nenhum perto de mim. Eu não me importo com o que você tenha que fazer diferente; faça. Entendeu?

Ela me lançou um olhar de ódio por cima da minha mão e então assentiu com firmeza.

— Regra número dois. — O contato da pele estava tornando muito difícil pensar com clareza, e eu também a odiava por causa disso. — Você fica na sua parte da casa. Seu quarto, o escritório, a cozinha. Só isso. Apesar do que a minha mãe possa achar, você não é uma convidada aqui; você está aqui para fazer um trabalho, então vai aonde o trabalho exige e em nenhum outro lugar. Fique fora de vista. En. Ten. Deu?

Ela assentiu. Os olhos não saíam dos meus; pareciam atravessar direto a minha alma, me fazendo sentir que ela conseguia ver cada camada, até lá no fundo, as coisas que eu nunca quis que ninguém visse.

— Regra número três. — Eu sustentei o olhar dela e garanti que cada palavra atingisse em cheio. — Meu irmão não é um projeto de caridade. Ele não é algo para você treinar ou para você se sentir bem por “ajudar”. Ele é um ser humano, e você vai tratá-lo exatamente como um. E se eu algum dia, algum dia mesmo, descobrir que você fez diferente, que tentou usá-lo para se vingar de mim ou—

Eu senti uma fisgada de dor, aguda e repentina, bem na minha palma. Ela tinha me mordido!

Eu puxei a mão para trás, e ela aproveitou que eu me distraí para me empurrar com força com as duas mãos.

Eu fui pego tão completamente de surpresa que cheguei a cambalear para trás.

— Eu nunca intimidei ninguém na minha vida inteira. — A voz dela tremia, mas os olhos estavam absolutamente furiosos. — Eu nunca machucaria o seu irmãozinho. Nunca. Ele é só uma criança, e nem todos nós somos monstros como você.

Eu olhei para ela. Para a raiva ainda ardendo nos olhos dela por cima de todo o resto, para a forma como ela estava se mantendo firme, e senti uma pontada no peito que me recusei a nomear.

Enfiei a mão no bolso, puxei o celular dela e atirei em direção a ela.

Ela se atrapalhou um pouco antes de finalmente conseguir segurá-lo contra o peito, enquanto eu caminhava até a porta e agarrava a maçaneta.

— Só espera, princesinha. — Eu a abri. — Você não faz a menor ideia do quão monstruoso eu posso ficar.

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