Capítulo 2 O desconhecido
As luzes da boate cortavam a escuridão em tons de azul e vermelho, acompanhando uma música tão alta que fazia o piso vibrar sob meus pés. Eu deveria estar incomodada com o barulho, com o cheiro de bebida ou com os corpos se esbarrando ao meu redor. Naquela noite, porém, tudo o que eu desejava era impedir minha mente de voltar ao casamento que não acontecera.
Eu havia passado tempo demais tentando entender como as pessoas que deveriam me amar conseguiram me descartar com tanta facilidade. Santiago me traíra com minha irmã. Meus pais protegeram Camila. Depois, permitiram que ela ocupasse meu lugar na cerimônia como se a noiva pudesse ser substituída sem que ninguém questionasse.
Saíra de casa sem saber para onde ir. Ainda sentia no corpo o peso da humilhação e, por baixo da raiva, havia uma dor que eu me recusava a alimentar.
Eu não choraria por Santiago outra vez.
Sentei-me no balcão e pedi mais uma bebida. Não sabia quantas já havia tomado. A mulher atrás do bar colocou o copo diante de mim, e eu o segurei sem beber. O líquido dourado se moveu quando meus dedos vacilaram.
Foi então que percebi o homem a poucos lugares de distância.
Ele estava sozinho e parecia completamente deslocado naquele ambiente. Usava camisa escura, com as mangas dobradas até os antebraços, e mantinha uma das mãos em torno de um copo quase intocado. Não dançava, não tentava chamar atenção e não parecia interessado nas mulheres que o observavam.
Mesmo sentado, transmitia uma segurança que me fez endireitar a postura.
Ele virou o rosto e me encontrou olhando.
Desviei os olhos depressa, mas já era tarde. Poucos segundos depois, senti sua presença ao meu lado.
— Posso me sentar?
Olhei para o banco vazio.
— A boate não é minha.
— Isso é um sim ou uma maneira educada de me mandar embora?
— Ainda não decidi.
Ele se sentou e fez um gesto para a funcionária, pedindo água para mim.
— Eu não pedi isso.
— Percebi.
— Costuma decidir o que mulheres desconhecidas devem beber?
— Apenas quando elas parecem estar a um copo de cair do banco.
A resposta deveria ter me irritado. Em vez disso, escapei uma risada curta.
— Não vou cair.
— Então a água servirá para provar que estou errado.
A funcionária colocou a garrafa diante de mim. Bebi alguns goles, mais para contrariá-lo do que por necessidade, embora a água fria aliviasse o gosto forte deixado pelas outras bebidas.
— Está comemorando alguma coisa? — ele perguntou.
Observei a pista lotada.
— O fim de um erro.
— Parece uma comemoração importante.
— Era um erro que durou anos.
Ele não insistiu. Essa discrição me agradou. Durante aquele dia, todos haviam tentado me dizer o que fazer, como agir e até o que deveria sentir. Aquele desconhecido apenas permaneceu ao meu lado, sem exigir explicações.
— E você? — perguntei. — O que faz sozinho em uma boate?
— Tentando esquecer uma noite ruim.
— Funcionou?
Ele olhou para o próprio copo.
— Ainda não.
— Talvez esteja se esforçando pouco.
— Talvez eu estivesse esperando a companhia certa.
Sustentei seu olhar. Havia algo direto na maneira como me observava, mas não me senti invadida. Pela primeira vez desde que deixara a casa dos meus pais, alguém parecia enxergar a mulher diante dele, não a noiva abandonada nem a filha inconveniente que ameaçava a reputação da família.
— Qual é o seu nome? — perguntei.
Ele se inclinou um pouco para ouvir melhor.
— Nomes complicam as coisas.
— Concordo.
Eu não queria contar quem era. Não queria falar dos Ferrer, da empresa, de Santiago ou do casamento substituído às pressas. Por algumas horas, desejava existir sem carregar nenhuma dessas histórias.
— Então continuamos desconhecidos — concluí.
— Parece justo.
Conversamos sobre assuntos que não exigiam intimidade. Arquitetura, viagens, restaurantes e alguns edifícios antigos de Barcelona. Ele conhecia restauração histórica o bastante para me surpreender, embora não revelasse com o que trabalhava.
À medida que o tempo passava, a música pareceu menos agressiva. Eu já não prestava atenção nas pessoas ao redor. Havia apenas a voz grave daquele homem, o sorriso discreto que surgia quando eu o provocava e a proximidade que se tornava mais difícil de ignorar.
Quando ele afastou uma mecha de cabelo do meu rosto, não recuei.
— Você ainda parece triste — murmurou.
— E você parece observador demais.
— Faz parte da minha natureza.
— Talvez eu não queira ser observada.
— Então posso ir embora.
Ele se afastou o suficiente para me dar espaço. A ausência imediata do calor de seu corpo fez minha resposta nascer antes que eu pudesse reconsiderá-la.
— Eu não disse que queria que fosse.
Seus olhos permaneceram nos meus.
— Tem certeza?
Era a pergunta que eu precisava ouvir. Não havia pressão, urgência ou promessa. Apenas uma escolha.
Eu havia passado anos permitindo que outras pessoas escolhessem por mim. Naquela noite, queria tomar uma decisão que pertencesse somente a mim.
— Tenho.
O beijo começou devagar. Senti o gosto da bebida nos lábios dele e segurei sua camisa, aproximando-o. Não havia delicadeza calculada nem declaração que pudesse ser usada contra mim na manhã seguinte. Éramos dois desconhecidos tentando silenciar dores que nenhum dos dois desejava explicar.
Ele interrompeu o beijo e encostou a testa na minha.
— Podemos parar agora.
— Não quero parar.
Saímos da boate juntos. Um carro nos aguardava do lado de fora, e eu não perguntei se era dele ou contratado. Durante o caminho, reconheci as avenidas iluminadas de Barcelona, mas não prestei atenção ao destino. A mão dele permaneceu sobre a minha, sem avançar além do que eu permitia.
O hotel era luxuoso. Atravessamos o saguão e seguimos diretamente para um elevador privativo. Quando as portas se abriram, entramos em uma cobertura ampla, cercada por janelas que exibiam a cidade adormecida.
— Ainda pode mudar de ideia — ele disse.
Depositei a bolsa sobre uma mesa.
— Você também.
— Eu não quero.
— Nem eu.
Ele veio até mim, mas esperou que eu reduzisse a distância. Toquei seu rosto e o beijei, deixando para trás a vergonha, a raiva e a sensação de ter sido rejeitada por todos.
Aquela noite terminaria ao nascer do sol. Não haveria promessas, nomes ou perguntas. Foi nisso que concordamos, mesmo sem dizer claramente.
Quando despertei, a claridade começava a atravessar as cortinas. O desconhecido ainda dormia, com o rosto relaxado e um dos braços estendido sobre o lugar onde eu estivera.
Por alguns segundos, permiti-me observá-lo.
Depois me levantei com cuidado, recolhi minhas roupas e me vesti em silêncio. Não queria despedidas. Uma conversa à luz da manhã transformaria aquela escolha em algo maior, e eu não estava preparada para carregar mais nenhuma complicação.
Abri a carteira, deixei algumas notas sobre a mesa e saí sem escrever um bilhete.
Dentro do elevador, apoiei a cabeça na parede espelhada e fechei os olhos. Eu não sabia o nome daquele homem e acreditava que jamais voltaria a encontrá-lo.
Também não fazia ideia de que acabara de passar a noite com Leonardo Valdés.
