Capítulo 3 Um homem misterioso
Escolhi uma casa noturna instalada no subsolo de um hotel de luxo no centro de Barcelona. Já havia ouvido Camila comentar sobre aquele lugar. Segundo ela, empresários, celebridades e herdeiros frequentavam o espaço porque a administração mantinha fotógrafos e curiosos longe das áreas reservadas.
Na entrada, o segurança conferiu meu nome e me observou por alguns segundos. O escândalo do casamento provavelmente já circulava nas redes sociais. Depois de conversar com outro funcionário, ele liberou minha passagem.
O salão estava lotado. Luzes douradas cortavam a escuridão, e a música era alta o bastante para impedir qualquer pensamento mais demorado. Mulheres elegantes ocupavam as mesas, enquanto homens de terno conversavam com bebidas caras nas mãos.
Fui direto ao bar.
— O que vai querer? — perguntou o atendente.
— Algo forte.
Ele preparou uma bebida e colocou o copo diante de mim. Brindei sozinha, primeiro ao casamento que não aconteceu e depois à minha própria ingenuidade.
Santiago e Camila nunca haviam escondido completamente a proximidade. Eu os vira cochichando, trocando mensagens e desaparecendo das festas ao mesmo tempo. Sempre encontrei uma explicação porque não queria desconfiar das duas pessoas que mais amava.
Depois do segundo drinque, pedi água. Eu queria coragem para me divertir, não perder completamente o controle.
Quando uma música conhecida começou, fui para a pista. Não sabia se dançava bem, porém ninguém ali parecia se importar. Pela primeira vez naquele dia, consegui sorrir.
Fechei os olhos e acompanhei o ritmo até esbarrar com força em alguém. Perdi o equilíbrio e terminei sentada no chão.
— Droga!
Um homem alto estendeu a mão.
— Você se machucou?
Segurei a mão dele e me levantei. Quando ergui o rosto, encontrei olhos escuros atentos a mim. Ele usava uma camisa preta com as mangas dobradas e calça social. Não precisava do paletó para parecer poderoso. Havia alguma coisa em sua postura que fazia as pessoas abrirem espaço ao redor dele.
— Minha dignidade já estava ferida antes da queda — respondi. — Então, não fez muita diferença.
O desconhecido franziu a testa, como se tentasse decidir se eu estava bem.
— Sinto muito. Não vi você se aproximar.
— Eu só o desculpo se dançar comigo.
Ele olhou em volta e voltou a atenção para mim.
— Você costuma convidar desconhecidos para dançar?
— Não. Hoje é minha primeira vez fazendo várias coisas.
— Isso deveria me preocupar?
— Talvez.
Um sorriso discreto apareceu nos lábios dele. O homem segurou minha mão e me levou para o centro da pista.
A primeira música era animada, mas logo começou outra mais lenta. Ele colocou uma das mãos em minha cintura, mantendo uma distância respeitosa. Fui eu quem se aproximou.
Meu corpo acompanhou o movimento do dele com facilidade. Senti o perfume amadeirado, o calor de sua mão e a firmeza dos braços que me conduziam. Não havia pena no olhar daquele homem. Ele não sabia que eu tinha sido abandonada no altar, e era exatamente disso que eu precisava.
— Qual é o seu nome? — perguntou perto do meu ouvido.
— Hoje, prefiro não ter nome.
— Então como devo chamá-la?
— Pode me chamar para outra dança.
Ele soltou uma risada baixa.
Dançamos mais duas músicas. Quando percebi que ele se afastaria, segurei sua camisa e o beijei. O desconhecido ficou imóvel por um instante, surpreso. Depois correspondeu, segurando meu rosto com cuidado.
O beijo tinha gosto de uísque. Era quente, lento e muito diferente de tudo que eu havia vivido com Santiago. Quando nos afastamos, ele manteve a testa encostada na minha.
— O que está fazendo?
— Tentando esquecer alguém.
— Essa é uma péssima razão para beijar um desconhecido.
— Talvez eu tenha uma razão melhor.
— Qual?
— Eu queria beijar você.
Ele analisou meu rosto.
— Quanto você bebeu?
— Dois drinques. Depois disso, água.
— Tem certeza de que está bem?
— Estou triste, irritada e cansada de fazer sempre o que esperam de mim. Mas sei onde estou e sei o que estou fazendo.
Ele assentiu, ainda desconfiado.
— Vou levá-la para um lugar mais tranquilo. Podemos conversar, e depois decido se acredito em você.
— Autoritário.
— Cuidadoso.
A boate ficava no subsolo do próprio hotel. Entramos em um elevador privativo, e ele usou um cartão para selecionar a cobertura. Aquilo deveria ter me feito perguntar quem era aquele homem, mas eu não queria nomes, explicações ou promessas.
Quando as portas se abriram, deparei-me com uma suíte enorme. As janelas mostravam Barcelona iluminada, e a Sagrada Família aparecia distante entre os prédios.
Ele deixou um copo de água sobre a mesa.
— Beba.
— Sempre dá ordens assim?
— Quando uma mulher que acabei de conhecer me beija no meio de uma pista e depois decide me acompanhar até uma cobertura, sim.
Bebi a água. Ele tirou o relógio, colocou-o sobre um móvel e afrouxou os primeiros botões da camisa. Meu olhar seguiu o movimento.
— Você sabe quem eu sou? — perguntou.
— Um homem convencido que acredita ser conhecido por toda Barcelona.
— E você sabe quem é?
— Isadora.
Foi a primeira vez que revelei meu nome.
— Isadora — repetiu, como se testasse o som. — Ainda quer ficar aqui?
A pergunta acabou com qualquer impulso precipitado. Ele me deu a oportunidade de ir embora, sem tentar me convencer a permanecer.
Aproximei-me devagar.
— Quero. Mas não quero perguntas sobre o dia que tive.
— E amanhã?
— Amanhã voltamos a ser estranhos.
— Não costumo fazer acordos sem conhecer todas as condições.
— Esta noite termina quando o sol nascer. Essa é a única condição.
Ele passou o polegar por meu rosto, retirando uma pequena mancha de maquiagem.
— Então precisa dizer claramente que está escolhendo isso.
Sustentei seu olhar.
— Eu escolho ficar com você.
Dessa vez, foi ele quem me beijou.
O desconhecido não teve pressa. Seus lábios desceram pelo meu pescoço, enquanto as mãos percorriam minhas costas. A cada nova aproximação, ele esperava minha resposta. E eu respondia, não por causa de Santiago, mas porque desejava sentir algo que não fosse dor.
As luzes da cidade permaneceram acesas do outro lado das janelas. Entre beijos, carícias e palavras ditas em voz baixa, permiti que aquela noite apagasse por algumas horas tudo que eu havia perdido. Acordei com a cabeça pesada e uma claridade atravessando as cortinas. Por alguns segundos, não reconheci o quarto. Então senti o corpo masculino ao meu lado e as lembranças retornaram.
O desconhecido dormia de costas, com um braço sobre o travesseiro. À luz da manhã, parecia ainda mais atraente. Parte de mim quis permanecer até ele acordar, mas nosso acordo havia sido claro.
Aquela noite terminaria ao nascer do sol.
Vesti-me em silêncio. Encontrei minha bolsa perto do sofá e procurei algum papel para deixar um recado. Desisti. Um bilhete transformaria aquilo em algo que não deveria ser.
Abri a carteira, retirei algumas notas e coloquei-as sobre a mesa de cabeceira. Não queria que ele pensasse que eu esperava qualquer coisa. O dinheiro cobriria minha parte da suíte, ainda que provavelmente não fosse suficiente para pagar nem o café servido naquele lugar.
Antes de sair, olhei para ele uma última vez.
💭 Adeus, desconhecido.
Fechei a porta sem fazer barulho.
Eu saí daquele hotel acreditando que nunca mais o encontraria.
Não fazia ideia de que o homem adormecido na cobertura era Leonardo Valdés — e que as notas deixadas ao lado da cama acabariam se tornando o primeiro motivo para ele nunca mais se esquecer de mim.
